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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sem desculpas

Ser-se professor nos dias de hoje implica uma afirmação peremptória e taxativa dos direitos e deveres de ambas as partes, também em sala de aula, uma exigência ininterrupta de respeito e um desafio permanente mediante atitudes inesperadas, imprevisíveis e inusitadas. Qualquer professor que tenha deixado o ensino há poucos anos ficaria alarmado com o cenário de mudança com o qual se depararia, caso voltasse à escola, e não pelas calças que os rapazes alegremente usam literalmente abaixo das nádegas. O Jorge, por exemplo, hoje tinha boxeurs coleantes bordeaux. Se no início quase sucumbia quando me perguntavam o mais elementar vocabulário – coloquial, agrura ou reciprocidade são conceitos desconhecidos -, nos dias que correm e passados quatro anos de ter desgraçadamente regressado ao Secundário, respondo com naturalidade, sem esbugalhar os olhos, sem encostar-me ao quadro antes que desfaleça e me estatele contra o chão e sem a aceleração involuntária do ritmo cardíaco. É normal, há que responder e prosseguir a trote para as declinações, conjunções e outras ralações. Contudo, se me fui gradualmente habituando a uma ignorância pujante, recuso-me a aceitar a desculpabilização e a exigência crescente de que os outros devem resolver os problemas e questiúnculas da vida de cada um. Quando um destes dias, perante as perguntas insistentes em pleno teste afirmei que a aluna perguntadeira não tinha estudado rigorosamente nada, ela retorquiu exigente Ó Stora, tive festas de anos em casa, esta noite só dormi três horas… ou quando saca do espelho para conferir a beleza de que se julga detentora e lhe arremesso com algum comentário, fazendo-a lembrar de que a aula não é um salão de beleza, a resposta é sempre lesta Ai Setora, que é que quer, sou muito vaidosa. Isto é de família… Havia de ver a minha mãe… duas ou três vezes pior ou quando faço reparos por causa dos telemóveis, põem a expressão ofendida, olhos bem abertos e a voz levemente esganiçada Ó Stora, tou só a ver as horas. Francamente, Stora. E portanto assim é, nos dias que correm há que compreender, aceitar e quiçá pedir desculpa caso se importunem os adolescentes. No futuro ainda teremos de pedir desculpa pelas aulas. Imagino-me a pedir-lhes desculpa pelas declinações, pelas preposições ora de dativo ora de acusativo, raio de gente que inventou tal coisa, pela inversão do sujeito ou pelo Present Perfect, provavelmente pedir desculpa por existir. Quando esse dia chegar, chega!

15 comentários:

  1. Tem toda a razão, Leonor. Este país não está para professores.

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  2. Eu gostava de ter alunos como os teus: vaidosos, que tiram os telemóveis mas, a quem ainda consegues ensinar ou tentar ensinar alguma coisa. Eu tenho EFAs - Educação e Formação de Adultos, vulgo Novas Oportunidades, isso sim é uma barbárie e o meu chega, está mesmo quase a chegar. Por enquanto tenho-me aguentado com umas bujardas que vou mandando no blog mas não sei até quando.... O chega, basta está por um fiozinho tão fininho que um dia destes parte mesmo!

    Bêjos Leonor.
    Se descobrires como dar a volta, partilha, estou a precisar de ver as coisas por outro prisma.

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  3. "Professor" é, por estes dias, um conceito demasiado dúbio para que possa ser encarado, pela sociedade anémica em que flutuamos, com o respeito e dignidade que merece.
    Num mundo onde se continua a cultivar e a alimentar a mediocridade, o autismo e o silêncio do pensar, homens e mulheres que possam, de alguma forma, abrir espaços, brechas, providenciar, por pouco que seja, alguma luz ou clareza de espírito, nas mentes viciadas dos nossos "young ones", estão há muito condenados ao sentimento de impotência, quiçá, desespero. Não só pela profissão em si, mas por tudo o que, como qualquer cidadão minimamente atento, nos agasta e corrói, num olhar desprendido de conceitos e preconceitos, sobre a vida que levamos e o futuro que nos espera.
    Interessa, a quem nos (des)governa e dirige, que a "miopia" permaneça e evolua para uma cegueira totalmente generalizada.
    Apesar das democracias, continuamos (há muito que o defendo) em ditaduras disfarçadas de fato e gravata.
    Contrariamente ao que os jovens (e muitos adultos) acreditam, não somos livres. Provavelmente nunca o fomos, nem nunca o seremos. Muitos (demasiados ainda) continuam a viver na ilusão e fantasia de um mundo que não existe. Continuam de costas voltadas para a "entrada da caverna", bebados e encantados pelas sombras que dançam à sua frente, em formato de novelas "teenagers" ou finais de ligas de campeões.
    Porém, de uma coisa eu tenho a certeza: se alguma esperança resiste a uma inversão, possivelmente lenta mas indespensável, no combate ao estado geral de apatia e descredito, é porque VOCÊS, professores (alguns pelo menos), vão tentando lutar contra as marés, avivando memórias e abrindo as portas para a descoberta da clarividência.
    Quando os professores desistirem e deixarem de lutar, a pouco mais poderemos aspirar... Que venha então o Armagedão e, tal como diz Saramago: «... que se acabe, de uma vez por todas,com estas merdas a que chamam de Humanidade e Mundo», pois pouca esperança mais haverá.
    Não quero ser mal interpretado. O futuro não está unicamente nos vossos ombros, todos temos a nossa igual cota parte de responsabilidade, mas se vocês desistem, não poderemos (seres humanos) aspirar a muito mais.

    (Caríssima Leonor, as minhas mais sinceras desculpas pela extensão do comentário)

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  4. (Acho que o meu comentário vai ser ainda mais extenso)

    Corrija-me se estiver errada mas, na minha opinião, os professores de hoje pagam pelos professores de ontem, aqueles que, tendo escolhido cursos que não lembram nem ao menino Jesus, viram no ensino um meio de subsistencia em vez de um gosto (ou uma missão). Esses "frustrados" chegavam à aula e, sem querer impor o respeito necessário, decidiram ser "cool" para terem menos chatices. A "Aura" de professor, o tal que ensina, depois dos pais, a sermos alguém na vida, desvanece-se com esses "inadaptados" que decidiram passar bem o tempo, com miudos, e sem se chaterarem muito (afinal, nem era isto que eu queria, eu cá era mais estudar o movimento das abelhas quando se aproximam das flores). Ser professor ERA fácil e garantido, era uma "safa". Hoje (Alleluia) só mesmo quem gosta e quem quer voltar a fazer da profissão o que ela é na realidade; ensinar os miudos de hoje a serem adultos decentes amanhã. Encontram estas "bestas" que não sabem,no fundo, o que é um professor.


    (Boa sorte)

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  5. :-) Maria do Sol. Obrigada pela visita.

    Nem para professores nem para ninguém, Luísa

    Sim, Loca, apesar do que este texto possa ter sugerido, não tenho problemas com os meus alunos, felizmente. Mas é uma luta permanente. Se descobrir, partilharei, claro
    Bêjos ;-)

    Olá Hélder :-)
    O futuro não está mesmo nos nossos ombros, pouco podemos fazer se em casa não houver uma forte estrutura de apoio. Cá vamos fazendo o nosso melhor... Quanto à extensão do comentário, não te preocupes, este blogue é também de quem o comenta. és sempre bem-vindo. E os meus alunos, não se portaram tão bem quando fomos à rádio?

    Margarida, não sei se nós estamos a pagar por os erros dos nossos antecessores, porém tenho a certeza absoluta de que toda a 'campanha' de descredibilização da profissão só ajuda os políticos a granjearem votos. A verdadeira batalha trava-se na sala de aula, porque os alunos trazem de casa a matriz de desrespeito pelo 'badameco' que têm à frente. E isto aprenderam com alguém, sem qualquer dúvida. Como refiro no post, temos de exigir respeito, ele deixou de ser um pressuposto. Por outro lado, é preciso conhecer os pais para entender os filhos e digo-lhe que, por vezes, é um milagre que os filhos sejam educados... Não me leve a mal, mas a palavra 'bestas' choca-me. Apesar de tudo, ainda gosto de ser professora, gosto de fazer coisas com os meus alunos além das aulas, tenho respeito e carinho por eles e estou sempre disponível para os ajudar.
    Tal como disse ao Hélder, este blogue é também vosso, logo a extensão dos comentários não é problema :-)

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  6. ai Leonor, Leonor, como te entendo! solidária, desfaleço e estatelo-me contra o chão e não tenho mão sobre a aceleração involuntária do ritmo cardíaco ... não sei como tens paciência, não sei como acalmas a alma ...

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  7. Foram uns queridos, pois claro! Interessados e atentos (uns mais do que outros, mas isso também é normal).

    Força!

    : )

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  8. Pois podes acrescentar um aroma a verniz, em plena aula, que quase me transformou numa fera...

    Cada dia que passa mais conservadora me torno! Se me dissessem, ontem, que pensaria assim, hoje, não teria acreditado!

    Autoridade, precisa-se! Urgentemente!

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  9. Tem filhos? Reagem assim ou não?
    Os pais não educam, os professores são todos iguais (ironia...se não são avaliados não os podemos distinguir) e cá fora tudo está preparado para que o processo educativo não satisfaça alunos, professores, pais e sociedade. Parece uma pescadinha de rabo na boca.

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  10. Eu também não sei como tenho paciência mas a verdade é que tenho e que nunca me falta quando estou com eles, Sinapse. Acho que faz parte da profissão. além de tudo, tem de se dar um desconto grande quando se lida com adolescentes. Acabei de sair agora de uma pequena palestra a que fui com os meus alunos, portaram-se tão bem que vim de alma cheia. O que não suporto é a falta de respeito e a tendência crescente para achar que os outros é que têm que resolver os seus problemas.

    São uns queridos, Hélder :-)

    Pois, verniz ainda não me calhou, CarpemDiem...

    PQ, não tenho filhos, não preciso de os ter para compreender ou não os meus alunos, se não o consegui após mais de vinte anos de serviço não é agora que o vou fazer. Em relação aos alunos, digo-lhe que há uma diferença substancial entre o comportamento típico da adolescência e a falta de regras e maneiras de estar. Concedo e sei que os adolescentes não são iguais em casa e na escola, admito que alguns até tiveram regras mas porque o input não é igual ao output o resultado é diferente. O que não se pode admitir, a bem de todos, é que haja pais que admitem que não fazem nada dos filhos e que não sabem o que lhes hão-de fazer. Felizmente ainda consigo fazer alguma coisa dos meus alunos, basta paciência, mão firme, atenção e afecto, tudo na medida certa resulta.
    Quanto à avaliação, pode ter a certeza que não quero este tipo de avaliação, não quero ter de avaliar as minha amigas como iria acontecer caso elas não tivessem pedido avaliação à componente cinetífico-pedagógica, não quero ser avaliada pelos meus lindos olhos. Quero uma avaliação séria e imparcial, prefiro até que venha uma comissão competente exterior à escola. Volte sempre

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  11. Olá! Vim aqui parar por intermédio da Carlota e devo dizer que adorei o texto. Que iremos nós fazer com esta "geração Vodafone"?

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  12. Olá NoKas, bem-vinda :-)
    Não faço ideia onde vão nem onde nos levam.

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