Páginas

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Thanksgiving

Dia de Acção de Graças. O feriado dos feriados. Mais importante do que o Natal, dizem, mas sem presentes. A professora que a espaços acha que pode acabar com a ignorância dos seus alunos fica a ruminar a ideia e pensa com os canudos negros Vou dar uma coisa diferente aos putos, hoje é Thanksgiving. Para a próxima vez que aparecer o Dia de Acção de Graças já sabem o que é. A professora puxa pela cabeça. O quê? E lembra-se que a par de um texto do Bill Bryson aquela ilustração do Rockwell é mesmo o ideal. E é diferente. E vai pô-los a falar e dá para introduzir algum vocabulário. Agarra-se ao computador, engendra uma estratégia, desenvolve uma actividade e chega à aula lampeira Vamos ver se isto hoje corre bem, o Rockwell pespegado a preto e branco nas fichas de trabalho, o livro da Taschen para que melhor vejam, outras ilustrações também, e a aula começa. E corre bem. Depois da discussão a tarefa seguinte: preenchimento de uns balões de conversa e de pensamento que a professora escarrapachou cuidadosamente sobre as personagens. A adesão foi total e o corrupio ainda maior. A professora ufana do seu feito e do interesse dos seus alunos, secretamente feliz Estes putos são mesmo espertos. De lá do fundo levanta-se uma voz Stora, venha cá. A stora vai. A stora corrige. A stora explica que o plural de tooth é teeth e regressa para a leitura em voz alta do havia sido escrito nos balões, as falas que já tinha individualmente conferido, calcorreando alegremente o seu socrático monobloco. E a voz começa. Era a avó, a avó na cabeceira da mesa. Escrito estava It’s a pity I don’t have teeth, pobre da avó que era desdentada, tão desdentada que teria de prescindir do peru, era desdentada até ele se ter esquecido do -th final e de o ter substituído por um simples -t, pungente e definitivo. Afinal o que a avó não tinha era outra coisa, coisa essa que a turma cheia de rapazes não pôde deixar em vão. E levantou-se um burburinho, a risota abafada até alguém ter proferido em tom audível o equivalente em português e outro alguém ter perguntado Então e boobs? E outro ainda E breasts? A stora explicou sucinta e fugazmente as diferenças sociolinguísticas do item vocabular em causa acompanhado das óbvias advertências pedagógicas. Afinal a stora não quer que os seus alunos sejam uns ignorantes, sem saber que nomes chamar a quê, não vá um dia o vocabulário fazer-lhes falta e culparem mais uma vez essa cambada de incompetentes que têm por missão pôr tino na educação deste país e que só querem fazer manifestações, os inúteis. A língua inglesa é muito traiçoeira, admitamo-lo. O Thanksgiving ainda mais. E a avó uma desavergonhada. Assim não há condições.

8 comentários:

  1. Tratar com adolescentes não é fácil.

    ResponderEliminar
  2. (risos)
    Assim não dá, Leonor. (mais risos)

    ResponderEliminar
  3. Nada fácil, Aventino, mas às vezes é divertido.

    É uma risada, é, Mike, nem sei como tenho paciência :)))

    :))))), Luisa

    ResponderEliminar
  4. Leonor, que texto delicioso. De quem consegue transformar as "agruras"... Parabéns Leonor, parabéns querida professora.

    :)))

    ResponderEliminar
  5. Muito obrigada, Maria do Sol, mas falta-me sempre muito trabalho para ser a professora que gostaria. Não há outra maneira se não a de dar a volta às situações. É preciso muiot poder de encaixe, é verdade.

    ResponderEliminar

Comments are welcome :-)