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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Desesperadamente...
parindo uma receita de leitura. Já me vai faltando a imaginação depois de vinte e cinco.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
E começou o Mês Saramago
com um belíssimo texto de Pilar de Río que me deixa muito orgulhosa ao ter aceitado o convite para abrir a efeméride.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Mês Saramago
Um afazer profissional que me está a dar um imenso prazer e quase a começar aqui.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Cansaço
Pergunto-me como é que vou aguentar mais vinte anos de ensino.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Decisões
Tentar não pensar no futuro. Não fazer contas e esquecer que Janeiro é já ali no fim da curva de Dezembro.
domingo, 17 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Conclusões
País de merda.
A gula da banca
Começou ontem lá pelas quatro da tarde. Inesperadamente e sem que nada o fizesse prever repetiu-se lá pelas seis da tarde. Hoje pela manhã, enquanto acabava o duche matinal idem e hoje pela tardinha quando rumava ao lar tocou outra vez o telemóvel e consegui finalmente atender aquele incansável anónimo que desde ontem me perturbava com a insistência. Do lado de lá a conversa de banha da cobra Sr. D. Maria Leonor Barros? A mesma, um bocado para o acabadote, de alma pouco luminosa, um ódio mortal ao Sócrates e respectiva comandita, desiludida e defraudada com a escola azul cueca, mas sim, era eu. Primeiro se eu tinha recebido o cartão de crédito. Afirmativo. O que tinha caducara em Setembro e lá para os fins de Agosto recebera o novo aqui no lar da província, a meio caminho do mar. E depois a pergunta curiosa, se havia alguma razão para não o ter utilizado entretanto. Ainda contra-argumentei, inquirindo se era obrigatório usá-lo, ao que a simpática voz respondeu que obviamente que não, blá blá blá. Com o bom humor que tenho ainda estive para lhe perguntar se ele achava que esta era altura da malta estoirar o cartão de crédito, logo agora, precisamente agorinha, mas decidi engolir o responso. O pobre homem não tem culpa mas adivinho um assédio cerrado dos bancos nestes tempos que se avizinham. Já não era a primeira vez que me mandavam cartões de crédito para casa sem nunca os ter solicitado e até o meu pobre pai, morto e enterrado faz cinco anos, foi o feliz proprietário de uma dessas tarjetas douradas. Ninguém está a salvo da gula da banca.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Cogitações
Merda de país.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Giro giro giro
e talentoso.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Outono
Faz Outono em mim. Um manto plúmbeo e pesado que arrasto aos ombros agrilhoada a dias sem sol. Tão cedo contudo. Da janela umas réstias de sol rompem o céu e seguem oblíquas no mar que ouço agora alterado. A luz que se esconde tímida e a alma que se afoga no cair da noite. Outono.
sábado, 9 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Aviso
Amigos, leitores, comentadores e curiosos, entrei numa daquelas fases de humor canídeo, de raiva furiosa contra este Governo e sabem os deuses o esforço que faço para não começar a encher o blogue de impropérios e insultos.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
À atenção do engenheiro dos Domingos
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
A selva azul-cueca
Quando planeei a minha primeira viagem ao Brasil e decidi começar pela cidade que tinha no coração, o Rio de Janeiro, fui avisada dos mais variados perigos. De todos os possíveis e imagináveis, um dos quais incluía corte de cabelo. Ou seja, lá ia eu com a minha farta cabeleira no Calçadão e, eis senão quando, seria atacada por bandidos ou pivetes que me iriam à trunfa. Se ainda tomei cuidado com o resto, tanto que de tão despojada só podia mesmo ser turista, mantive-me calma quanto à trunfa e decidi usá-la farta como sempre foi. Obviamente. Uma vez no Rio, e em conversa com uma amiga carioca muito familiarizada com os turistas etnocêntricos, ela confirmou o leque abrangente de perguntas e questões que lhe são colocadas sempre que os gringos decidem pisar solo carioca. Dessa conversa, ficou-me sempre a resposta que ele terá dado a alguma perua portuguesa, Minha senhora, isso aqui não é a selva!
E vem isto porque antes mesmo da inauguração da escola e depois da visita do reconhecimento do local pelas altas individualidades de dentro e de fora, e que suponho que tenha incluído um périplo pelas várias divisões do edifico, uma das individualidades de dentro do concelho concluiu ufana perante a obra bela que a Escola estava muito bem conservada. É claro que aqui a da trunfa respondeu que mal seria se assim não fosse, pois a escola é NOVA, e nova de ter sido aberta em Setembro, assim há coisa de um mês, ora portanto, uns insignificantes trinta dias, menos se tirarmos os fins-de-semana e se tivermos em conta que as aulas começaram lá para dia treze. A individualidade não desistiu e atirou Mas mesmo assim, podia estar já… e acrescentou Os laboratórios, todos muito bem… a da gadelha (sim, guedelha, eu sei) encrespou-se, que raio pensaria a mulher? Que ali se havia travado alguma batalha, algum conflito étnico sangrento? Um duelo trágico na conquista de território? Saberia do AzulCuecaGate?, e respondeu Os nossos alunos não são nenhuns selvagens. Só faltou acrescentar Minha senhora alta individualidade, isso aqui não é a selva.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Convidados assíduos
O Salazar e o Rei eram convidados assíduos de lá de casa, pela hora de jantar, em tempo de vida da minha avó. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos do Salazar, é certo, que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a que pudéssemos ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. Acresce a isto o facto de a voz aflautada do Botas nunca ter sido do agrado de ninguém lá por casa. Por fim, o Botas arrastava-se, a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor, vinham-lhe umas tosses cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida a cores de meados dos anos 70. A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX, constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.
O Rei aparecia mais vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava. Acho que o Botas gostava do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada, o meu pai citava-lhe trechos d´ A Velhice do Padre Eterno do Guerra Junqueiro. Também me lembrei dele, quando um destes dias assisti a uma romaria na vila Olhem ali o nosso Padre Cura... Mas não sei o que era pior. Sei que num desses duelos, Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar. O Rei aparecia, por exemplo, a meio da tarde, vindo do nada Coitado do rei! Admite-se fazer uma coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha! Via-o lá por casa algumas vezes em amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio. O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de tratar todos por tu. O ar bonacheirão, contudo, devia inspirar-lhe confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o Sr. Dom Carlos, o meu pai achava-lhe piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre a monarquia, - a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas, o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos da ditadura, operava-se com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.
Texto reeditado e repescado da memória.
Pormenores
Adoro. Sem qualquer ironia.
Escola Secundária José Saramago
Quadros de Nuno Medeiros
Quadros de Nuno Medeiros
fotografia minha
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Os velhos que paguem a crise
Desconheço o nome da criatura. Apanhei-a pela manhã durante o pequeno-almoço, enquanto cumpria o vício e o ritual de me actualizar sobre o estado do país e do mundo. Dever-me-ei assustar com este gosto masoquista? Dizia então a criatura, e foi logo após as novas medidas do governo Sócrates, que os reformados deviam sofrer mais cortes e isto, segundo a dita comentadora, porque já não tinham encargos com a educação dos filhos e tinham uma redução de despesas. Portanto, e assim sendo, os reformados que não vivem declaradamente pobres ou no limiar da pobreza devem pagar a crise. Já que não têm filhos para alimentar nem para comprar livros nem gadgets nem roupa de marca nem saídas à noite, só têm é que pagar mais do que os restantes cidadãos. Argumento curioso, tão curioso quanto inane e injusto. Não interessa se os reformados, pensionistas ou como lhes queiram chamar, descontaram já uma vida inteira para a sua reforma, ou se já contribuíram com o melhor dos seus anos para este país. Nem todos vivem à custa de reformas chorudas de lugares ao sol por via de amigos, amiguinhos e amigalhaços. Há quem tenha trabalhado honestamente e muito, com dedicação e empenho, e cumprido a sua missão.
O que mais me encanitou, e se encanitou, foi, por um lado, o preconceito de que os velhos são mesmo velhos, seres a quem a força da gravidade foi lesta e os deixou de carnes dependuradas, desgraçadamente sem plásticas, e mentes toldadas pela neblina da memória embaciada, e que não têm vida própria nem o direito de, se lhes apetecer, ir a banhos para as Caraíbas ou ficar em casa a devorar os livros que não conseguiram durante a vida activa ou ainda fazer rigorosamente o que lhes der na gana. Por outro lado, esta ingerência na vida privada dos cidadãos não me deixou a mais calma das criaturas. E que temos nós a ver como e em quê os reformados gastam o dinheiro e que direito se tem de fazer inferências sobre a vida alheia apenas porque são velhos? E se não forem saudáveis e se precisarem de cuidados ou de pagar um lar? Nada disso interessa para a jovem e enxuta criatura, ainda com as carnes no lugar e a boca rápida em cuspir disparates. Neste país ser velho é igual a não ter qualquer dignidade. Pobre, destituído de tudo. Além de serem abandonados nos hospitais, vítimas de maus-tratos e de abusos têm também de pagar a crise. E por que não exterminá-los? Raio de gente.
também no Delito de Opinião
Notícias da escola azul cueca
Os estores pifaram com a ventania de ontem.
domingo, 3 de outubro de 2010
Né
E queria sempre que voltasses. Quando está sol, penso, Se ele tivesse visto dias destes nunca tinha feito aquilo. Às vezes queria ouvir-te chamar Ó Tio!, naquele jeito tão beirão e tão genuíno que tinhas. Queria o teu jeito arisco a chamar-me nomes na cozinha da vovó, lembras-te? Puta de merda e eu a responder-te no mesmo jeito arisco e intempestivo Puta é tua avó! E a vovó a entrar pela cozinha, coisas de pré adolescentes tolos e desbocados. Às vezes queria ver-te de novo a fazer birras, birras enormes à beira da água na Figueira, e que fria, que gelo, Né. Quatro ou cinco anos teríamos na altura. E queria sempre que voltasses, igual se continuaríamos a ser crianças ou adultos reconhecendo a passagem do tempo. Terias cabelos brancos também? Notar-se-iam as rugas de expressão? Queria sempre que voltasses. Queria sempre que nunca tivesses querido partir. Queria sempre que nunca o tivesses feito. E talvez nem te telefonasse hoje a dar-te os parabéns. Saber-te-ia contudo em celebração. Nada mais precisaria. Bastar-me-ia saber-te vivo.
Para o meu primo que faria hoje 44 anos.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Palavras proibidas
Na minha escola há duas palavras proibidas. Na minha escola há duas simples palavras, poderosas e inesquecíveis que se tentam a todo o custo esborratar, manchar, apagar, até que desapareçam da cabeça mesquinha das mentes obscuras e ignorantes. Pobres de espírito não sabem que os escritores não morrem e viverão muito depois de apagadas as palavras da porta da escola. Na minha escola há duas palavras pronunciadas a custo, ditas com raiva e ódio, envoltas na beatice das hóstias, améns e padres-nossos, bentas criaturas mais preocupadas em denegrir o semelhante do que praticar Cristo e do mundo limpo de pecados. Na minha escola há duas palavras para matar. Espezinhar. Esborrachar debaixo das solas fedorentas como se faz a baratas imundas. Na minha escola há duas palavras que se desrespeitam pelo esquecimento forçado, pelos quadros que se encafuam em arrumações, letras tão convenientemente esquecidas na azáfama da ostentação oca e provinciana. Na minha escola há duas palavras que o mundo respeita. Na minha escola recozem-se ódios antigos e conservadorismos bafientos. Na minha escola escondem-se os vestígios do que fomos para que sejamos outros. Na minha escola há duas palavras proibidas. E contudo, viverão. Sempre.
fotografia minha: Exposição "A Consistência dos Sonhos"
terça-feira, 28 de setembro de 2010
A escola zul cueca
Quando um dia me tiraram do sério, tinha chegado havia poucos meses à escola onde estudei e de onde tinha saído para sete excelentes anos no Superior, e elevei a voz e disse quase tudo o que tinha a dizer a quem me traiu e trucidou uma amizade que contava à altura com vinte e um anos, prometi a mim mesma que não mais me apanhariam noutra. Obviamente não porque me julgue imune a traições futuras, embora duvide que se repitam com aquela dimensão, mas porque, uma vez expressa a minha indignação, passei a ser olhada de lado, um estigma que me perseguiu, às vezes acho que ainda persegue. E doeu. E não é pelo estigma que tomei a decisão de engolir indignações sucessivas, embora a solidão dos anos seguintes não tenha sido a mais fácil, mas pela parte de mim por que agradeço que ninguém me pegue, o orgulho. Não me ouvirão mais assim. Ora dito isto, andava já no meu quinto ano após este episódio, quando ao chegar à escola pela manhã, e era segunda-feira, avisto algo estranho. Cruzei-me com aquele objecto curioso uma série de vezes, tinha um ar antigo, antigo digno de antiquário, a patine de anos, décadas passadas, encerrava em si uma parte da História. Ficou na Escola, aquando da criação da mesma, uns dois ou três anos antes do vinte e cinco de Abril, quando era ainda a Secção do Liceu D. Pedro V, e foi deixada pelos padres, já que a escola foi instalada num antigo Seminário. Esta que terei de apelidar de minha escola, como se sabe, foi uma das intervencionadas pelo Ministério da Educação, no programa de Requalificação das Escolas. Enquanto o povo não se coibiu em ais de admiração pela ostentação de um espaço que pouco me serve e que nada me diz, fui e continuo céptica, não sei se é uma costela germânica, uma parte de pragmatismo, a racionalidade dos Gémeos ou tudo junto ou apenas eu. Nessa mesma segunda-feira, anteontem portanto, a minha voz ergueu-se e bradei aos céus quando vi o feito. Não é que pegaram no bengaleiro dos padres, uma peça de museu, um pedaço da História da escola e o pintaram de azul cueca para melhor condizer com a #$%&;/” da escola nova? E não é que pintaram uma cómoda e outro armário igualmente vetustos? Instalada a indignação culpa-se o arquitecto. Foi ele, diz que foi ele. Portanto, assim vamos, pintam-se os móveis antigos de azul cueca, azuel cueca, ouviram bem, para condizerem com as portas, os rodapés e os azulejos da escola nova. Pintemo-nos todos. Estou até a pensar em ir de azul cueca à inauguração da escola para não destoar ainda mais. E foi aí que a minha voz se ergueu.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Milagre!
Consegui requisitar um projector e o auditório. Não sei se agradeça à Senhora da Nazaré ou abra uma garrafa de espumante.
Vantagens da República (2)
Não ter de suportar a Maria Cavaco Silva até dar uma coisinha ao Cavaco Silva. São só mais cinco meses de Capadócia e fatiotas do Fundão.
Vantagens da República (1)
Não ter de aturar Cavaco Silva até lhe dar uma coisinha. São só mais cinco anos.
sábado, 25 de setembro de 2010
Recostada na arte de viver
Certo dia, andava eu às carnes, salvo seja, no supermercado, indecisa entre as costeletas de borrego e o teclado de porco, oscilando entre as bifanas de porco preto e o bife da vazia quando a recentemente beata e dada às lides eclesiásticas se abeirou de mim. Tinha ficado sem o meu pai há algum tempo, não muito, mas o suficiente para saber que, apesar da dor e da ausência irreparável, o rochedo inabalável da minha adorada mãe continuaria firme e com vontade de levar a vida para a frente. Contudo, a morte de quem amamos é sempre um estigma para quem nos olha de fora. O constrangimento, o embaraço, a pena no rosto das pessoas. Desta feita, o ser beato propôs-me que a senhora minha mãe voltasse a dar aulas numa universidade da terceira idade. A minha sábia mãe, depois de uns quarenta e três anos de ensino e de dedicação absoluta à escola e aos alunos, decidiu que a escola para ela seria como o antigo slogan contra as colónias, e, se nem mais um soldado para Angola, nem mais uma aula para coisa nenhuma. Coisíssima nenhuma. Diga-se que a apoiei e apoio incondicionalmente nesta decisão e, portanto, quando a beata se me aproximou ente as carnes, cruzes credo, olha lá o pecado da dita, e me abordou, ainda não percebi esta aliança, igreja - santa casa da misericórdia - universidade da terceira idade – dadores de sangue, a resposta seria um rotundo não. E assim foi. Aos agradecimentos, cumprimentos e palavras agradáveis, informei que, pelo que sabia, a minha mãe não estava interessada, mas que lhe iria comunicar o convite naturalmente, ao que a beata respondeu Mas é bom, olha que faz bem, é bom para estas pessoas que estão encostadas, assim sempre estão ocupadas. E vem isto a propósito das recentes férias da minha mãe. Os telefonemas sucederam-se mas nunca numa base frequente, há mundo para ver e coisas para fazer Olha, estamos aqui em Vouzela, viemos comer um pastel. E depois A seguir vamos a Sul, e depois fomos aqui, ali e acolá. E a comunicação Ainda não sei quando vou. A última que recebi dela contava Aqui vamos no teleférico.
Encostada é vovozinha.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Ide-vos lixar
Quinta-feira. Uma e meia da tarde e uns pozinhos. Entro em casa aliviada e com a sensação única de poder finalmente sentar-me depois da manhã inteira de aulas e de pé e aguçar o dente para um opíparo arroz de feijão com umas pataniscas de bacalhau, o delírio para o meu colesterol e para as minhas malfadadas ancas. O telefone toca. Um número do Porto reincidente nos últimos tempos. A voz nortenha do lado de lá pede-me para falar com a minha mãe. Nada de novo. Resposta negativa. A seguir pede para falar com o genro. Resposta negativa. Nenhum dos dois se encontrava presente. Afirmo, Só pode falar comigo. Sou a filha. A voz do lado de lá eriça-se impaciente e atira-me Mas porquê? Ora, eu sou rapariga furiosa quanto a incursões não autorizadas na minha vida privada e familiar. Não conhecendo o animal de voz feminina do lado de lá e entendendo que não tenho de prestar contas a ninguém, rigorosamente a ninguém, sobre o paradeiro de ambos, quer estejam a banhos nas Caraíbas ou terem ido buscar as minhas adoradas pataniscas e acrescendo o facto de desconhecer por completo a credibilidade do bicho do lado de lá, respondi-lhe com o bom humor que me é característico quando me erguem a voz e dei-lhe com um Desculpe mas não tenho de lhe justificar a minha vida privada e não lhe vou dizer porquê. E não é que a voz, habitueé cá por casa em pedir dinheiro insistente e inoportunamente para os desvalidos, tem a distinta lata, o topete, a arrogância de se me atirar e verborrear sobre faltas de educação? Avisou que iria desligar o telefone ao que lhe respondi Pois é isso mesmo que eu quero. Assunto encerrado. Aguardam-se novas incursões mas garanto que da próxima vez não serei meiga com as palavras e, já que é normal que no mundo do futebol se atirem impropérios, pode ser que também o passe a ser por aqui, e reformule o eufemismo do título. Não há paciência.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Dezassete minutos na vida de uma mulher
Dezassete. Número cabalístico. Número ligado à matriz deste local: dezassete freguesias, dezassete anos a construir o Convento, o biorritmo, seja lá o que isso for, é o dezassete, dezassete degraus para a Basílica, e dezassete coisas mais, tentativas por exemplo de D. João V engravidar a sua real esposa no seu real leito com uma cópula real mas não uma real cópula, outras tantas escapadinhas à Madre Paula em Odivelas e por aí fora. As duas últimas são da minha autoria mas com tanta estorieta, também eu tenho direito à minha. E regressemos aos factos: dezassete freguesias e dezassete locais de poso para a santa da devoção aqui do pedaço, a Nossa Senhora da Nazaré. Ora, a Nossa Senhora da Nazaré funciona como um calendário oculto e mais um motivo para o fado, é que nunca se sabe se da próxima vez cá estamos. Os lamentos surgem sempre e repetidamente, podiam até ser cantados em loas, vila fora, e quando regressa a santa o povo descansa de alívio com os dezassete anos vividos mas choraminga-se, lamuria-se, chora-se e lamenta-se, porque os dezassete vindouros são a incógnita e trarão certamente demónios indomáveis. Há lá coisa melhor? Façamos, portanto tudo por tudo para receber a imagem mínima de mais uma representação da mãe de Cristo. Ele é fatos novos, ele é vestidos novos, chapéus e farpelas, ele é cavalos e charretes, ele é dinheiro gasto a rodos para se ser mordomo, juiz e outras hierarquias socialmente relevantes para os festejos, que se dane o povo com fome se se pode passear ufano e imponente pelas ruas da vila nos cortejos da santa.
E como Portugal não deixa de ser Portugal lá porque a Senhora da Nazaré visita a freguesia, houve um quid pro quo, uma alteração no percurso da procissão que, para minha imensa aflição, se lembrou de passar à porta da senhora minha mãe, rapariga pouco dada a sacristias mas crente em coisas que não creio. E manda a tradição que se ponha uma colcha à janela ou duas ou três ou quatro. Assim sendo, houve que cortar caminho do centro da vila até casa da minha mãe, apressar o passo, espreitar se lá vinha o cortejo, apurar o ouvido para cornetas e bombos, e subir rapidamente para salvar a honra da senhora minha mãe, ausente em parte certa, a gozar o prazer de ter um livro para ler e não o fazer. A colcha. Era a colcha. Faltava a colcha. Ora, fiz contas E onde é que ela guarda as colchas? O tempo urgia, a procissão de beatos, tementes, crentes e curiosos aproximava-se e eu, impotente e desolada com a incapacidade de salvar a janela da nudez absoluta e a honra da minha progenitora que o povo leva isto a sério e lá se ia a reputação, quem sabe lhe lançariam uma fatwa. E que colcha? Que colcha mais? A da cama, já se vê. Pega de um lado, pega do outro, janela aberta e pronto, já está. Ei-la engalanada para a ocasião solene. É que daqui a dezassete anos não sei se os bicos de papagaio, as cruzes, o bucho virado e outras enfermidades me permitirão a veleidade de acarretar com a colcha.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Manifesto
É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo. A partilha Olha aqui, o que encontrei. E as memórias Este comprei-o em Salvador, lembras-te? Um pedaço de história de vida encerrada em páginas e lombadas carinhosamente preservado como testemunho de momentos felizes Foi o primeiro livro que comprei no Rio. Os presentes e quem os ofereceu. São os autógrafos dos escritores,as letras desenhadas à sombra dos jacarandás com o Tejo em fundo. E andar com eles na carteira ou entre os dossiers. E são isto os livros. São as dedicatórias. O meu nome bem legível na primeira página, data e local, a marca indelével de posse e a afirmação de território São meus. E isto jamais poderá ser substituído por uma geringonça electrónica. Isso não são livros. Esses não serão nunca os meus livros.
sábado, 18 de setembro de 2010
London calling
Eu sou muitas e, nas muitas que sou, tenho sido assaltada amiúde pela viajante turista inquieta que em mim habita e que não me deixa descansada a menos que o meu outro eu que alberga estas almas múltiplas esteja doente, o que felizmente é ocorrência bianual. Tendo em conta que já esgotei a minha quota para o ano que corre lesto a caminho do fim e que o sol me tem iluminado a alma, dou por mim em viagens sortidas, como se fossem um saco de rebuçados de fruta, que sabor vou escolher hoje?, e com uma vontade incontrolável de sair daqui para fora, ver outras cores, sentir outros cheiros. Ir. Partir.
E assim faria, caso me bafejasse o tempo. Apanhava um avião em Lisboa, tenho um problema grave de enfado instantâneo com viagens de carro e rumava a Londres, o sabor eleito do dia. Tirava uma tarde ou uma manhã para me afogar em livros na Hatchard´s ou na Waterstone´s de Piccadillly. Acho até indecente alguém idealizar e ter aberto ao público uma livraria de seis andares de livros, seis, nada mais, nada menos. Seis andares repletos de livros a cheirar a novo, ainda com o perfume de recém-chegado da impressão, as páginas invictas, as capas sem amolgaduras ou vincos, coroadas como o autocolante mágico 3 for 2, a perdição absoluta para bibliófilos bulímicos, outra das múltiplas que me inferniza o juízo, e para qualquer carteira comum.
Abandonava a livraria a contra gosto, é sempre assim, provavelmente chamada insistentemente Anda!, quem sabe arrastada metaforicamente pelas melenas, Anda lá! e fazia pés à estrada, aconchegada em casacos e cachecóis, atafulhada em luvas e mitenes em camadas como casca de cebola para afugentar o frio. Descia Whitehall de encontro ao Big Ben, atravessava a Westminster Bridge e largava-me margem abaixo até à Tate Modern apenas para tomar um café ou mais provavelmente um chá acompanhado de um muffin de chocolate, na varanda em frente ao Tamisa. E aí ficaria enrolada no meu cachecol, o tempo subitamente suspenso, a vê-lo passar indiferente como todos os rios, majestoso com uma grande parte dos que beijam algumas capitais europeias. Do outro lado Saint Paul’s Cathedral e os turistas com formiguinhas trabalhadoras em vai-vém sobre a Millennium Bridge, há algo de estranhamente magnético naquela ponte.
Ficaria até me começar a gelar o nariz embalada na música da cidade em fundo para descer ao andar térreo e fazer-me à rua mais uma vez. Atravessava a Millennium Bridge, apanhava o Metro e eis-me em Covent Garden para sentir o bulício da tarde a cair, gosto de bulício do fim de tarde e da agitação de cidades policromáticas. Um passeio a pé com passagem em Charing Cross e uma espreitadela na Blackwell´s, há sempre um livro em falta, e uma olhadela a Leicester Square. Talvez agora fosse tempo de tomar uma cask ale num pub, passar em revista as vistas percorridas pelos pés e pela alma e entreter-me com mapas e caderninhos.
Ao outro dia, Portobello Road, não há Londres sem Portobello Road. Deixar-me encaminhar pela multidão em peregrinação e meter o nariz em tudo o que é banca para me inundar de rebuliço, aromas e cores e o resto do dia para fazer exactamente o que me passasse pela cabeça, talvez uma espreitadela ao Museu Britânico, morro de amores pelo Great Hall e pela Pedra da Rosetta. E assim seria. Sem a pressa de quilómetros a calcorrear ou checklists de símbolos para preencher. Apenas eu e a cidade para rever e redescobrir.
também no Delito de Opinião
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Ah é verdade...
e também não há projectores, há dois, doizinhos, para a escola toda. Viva o Choque Tecnológico!
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Blá blá blá
Lindo. Maravilhoso. Desde que no fim do ano passado começaram as obras na Escola que um dos argumentos para o que nos esperou durante o tormentoso ano a acarretar com livros de ponto, computadores, projectores, leitores de Cds e os habituais manuais, era de que a escola iria ficar bem equipada. Linda. Maravilhosa. Nova. Bem equipada. Na verdade, estive-me literalmente nas tintas para o argumento. Tendo alguma dificuldade em projectar-me no futuro, aquele presente pareceu-me pesado e longo. As caminhadas quase sem intervalos entre os edifícios que nos restavam e o campo de jogos onde tinham sido plantados os moderníssimos monoblocos, com chuva e frio, e se choveu no Inverno passado, a ameaça da Gripe A, a vigilância constante de espirros e tosses, diarreias e febres não me tornou na mais optimista das criaturas embora tivesse feito o que qualquer alma pensante faz: esperado até que passasse e dado alento aos queixumes dos alunos desanimados. E à medida que as obras avançavam os ais de admiração ecoavam por aqueles que sentadinhos com os burocráticos rabos em cadeiras burocraticamente requintadas se espantavam pelo andamento das obras e os resultados que só elas veriam. Eu por mim, continuava a acarretar tudo às costas, a correr entre edifícios e monoblocos para recolher e devolver livros de ponto, e absolutamente cega perante tão maravilhosas maravilhas da arquitectura escolar e que trariam a luz às pobres almas cegas e cansadas preocupadas com a tarefa de fazer e dar o seu melhor para que os alunos não saíssem prejudicados com o alvoroço. E este ano redobraram-se os ais e os uis perante a obra acabada. Ai que bonita está a tua escola! A escola ficou espectacular! E tudo isto estaria tudo bem, mesmo resvalando na minha carapaça de rapariga céptica, se uma vez chegada à Escola não me tivesse deparado com salas mais pequenas do que antes, salas onde não conseguirei circular entre os alunos para os ajudar e o ambiente se torna pesado de tantas almas a respirar, a sala de professores é exígua para tantas almas ensinantes, o gabinete não tem uma única janela que se possa abrir para o exterior e para cúmulo, quando vinha lampeira para casa e me dei à extravagância de pensar Eh pá, amanhã vou pôr os putos nos computadores para fazerem um quiz e procurarem informação e blá blá blá, seguiu-se um corropio de actividades possíveis prenhes de eduquês a cuja descrição vos poupo, e me abeirei deste bicho de que vos escrevo e esbarrei com as maravilhas da escola nova: não há salas com computadores disponíveis naquela hora. Nem hoje nem amanhã nem depois nem depois de amanhã nem na próxima semana nem no próximo mês ou período. Nada. Niente. Nicles. Regressarei pois ao bom e velho manual, às vetustas fotocópias, aos métodos caducos de dar aulas. Belo choque tecnológico. Belas obras. E é por isso que não quero saber das obras e da escola nova. Dêem-me condições e depois falaremos. Até lá continuarei a não querer saber.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Beginnings
Foi hoje. Pela fresca, o aroma de Verão logo na saída de casa. Nada que me abençoe mais os dias e me acalme a alma. Sou verão. Sou sul. Sou calor. A janela aberta e as notícias do dia. Mick Jagger canta-me algo ao ouvido. Um belíssimo presságio para este ano ainda menino e que carrego no colo com carinho. E depois chegar. Oito e vinte marcava o relógio no meu pulso inequivocamente bronzeado pelos dias de estio. Entrar e admirar a escola renovada que tantos gostam em alardear, as maravilhas do que se vê por fora, o sentimento tão portuguesinho de ostentação sempre tão presente em nossas vidas. Diz que é tudo novo ou quase. Não quero saber. E lá fui. Ajeito a saia. Estou bem assim? O estômago mais aliviado do que o habitual, nada de nervosismos mesmo sabendo que iria encontrar caras novas e que também deste primeiro encontro dependeria grande parte dos próximos nove meses, quem sabe mais nove depois. Olás e sorrisos sinceros. Um rodopio de alunos e professores à descoberta do seu novo poiso. Foi hoje.
domingo, 12 de setembro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Divagações de uma professora após um conselho de turma
Há gente que nunca foi adolescente, nunca fez disparates, nunca faltou a uma aula. Uns tristes, portanto.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Sempre
Naquele dia foi diferente. Naquele dia ia bem-disposta, acompanhada duma amiga e, quando lhes dei passagem uns metros antes da passadeira, brincou e disse-me Nós é que estamos erradas… Ora merecem tudo, respondi e rumei para a tarde estival que se adivinhara na tarja de mar brilhante e céu azul. E nesse mesmo dia apaguei por momentos um outro encontro fortuito que distaria daquele um mês apenas. O semblante carregado, a roupa escura e a mágoa tão presente mesmo volvidos quinze sobre a morte do seu filho num acidente estúpido, uma vida de vinte e três anos colhida numa madrugada gélida de um Outubro que havia de se espelhar em todos os meses vindouros dos anos que se seguiram. E estranhamente infeliz naquele dia, questionei Está de luto? Olhou-me com os olhos que eu vira tão bem naquela manhã de Outubro e noutras que se seguiram de sofrimentos mudos expressos apenas no olhar silencioso e respondeu Estou sempre. E recolhi-me nas ausências que me enchem o coração. A vida continua, tento convencer-me.
O momento tão serenamente violento arrumou-me as palavras naquele dia. Mas ouço-as. E sinto-as. Estou sempre. O luto que se instala e que ninguém vê. Os momentos de ausência, do que já não está, a ausência de ti, meu pai, de te contar a vida. E já não são os espaços que deixaste, não o sofá vazio, agora principescamente usurpado por um felino imponente, que como tu, passa pelas brasas, lembras-te? Agora és tu. Agora é chegar aos sítios mais ridículos e pensar O papá é que me comprava pêssegos grandes, ser outra vez a tua filhota, igual se com quatro décadas e meia de vida, a tua filhota sempre, e ficar com a voz embargada, Ridículo, que ridículo, chorar por causa de uns pêssegos. E esconder os olhos com os óculos de sol e engolir as lágrimas. A vida continua, diz-se, a vida continua, eu sei. E rio-me, sou feliz, bem-disposta, arrumadas as lágrimas e varrida a ausência. E sim, é tudo verdade, a vida continuou sem o meu pai, cinco anos volvidos sobre o dia em que a morte o libertou daquela cama de hospital. Há vida, há esperança, há felicidade, mas uma parte de mim ficou de luto, uma parte de mim está sempre de luto, uma parte de mim ficou de luto para sempre.
Para o meu pai.
Para o meu pai.
domingo, 29 de agosto de 2010
Bestas de duas patas
E estava tudo a correr bem. Férias, sol, fim-de-semana. Algures pela manhã quando fomos alimentar o cão do vizinho, o Hélder apurou o ouvido e disse Há por aí um gato a miar. Apurei também eu o ouvido e havia. Um miado fininho e insistente. Não parava nem acalmava. Findas as festas no cão, rumámos ao encontro do som e foi aí que nos deparámos com uma gatinha mínima, tigrada e tricolor de orelha grande e olhar assustado. Ao primeiro movimento da nossa parte escapuliu-se por entre os canaviais e, sem nada mais que pudéssemos fazer, rumámos a casa, convictos de que a bichana andava perdida da mãe e que certamente depois de tanto miar a progenitora a viria buscar. Ao longo da tarde os miados não paravam e decidimos, por fim, ir levar-lhe comida. A bichana estava muito assustada, e à medida que me fui metendo nos canaviais o miado assustado respondia à minha voz. Ora, um amante de animais e gatos em particular não fica indiferente e fui-me adentrando cada vez mais para ajudar a pequenota. Se não a tivesse visto pela manhã, teria ficado menos incomodada, mas eu vi o olhar assustado e o ar desprotegido. Depois de muitas manobras de charme consegui finalmente agarrá-la e trazê-la junto ao meu peito até casa. Comeu, miou, refilou e, maldade das maldades, ronronou-me no colo e se há coisa que me entra pelo coração sem qualquer solução ou defesa é esse sinal de contentamento e paz, o ronronar, a barriguita para o ar e por fim a tranquilidade. Mas eu não posso ficar com ela, tenho três gatas adultas e muito senhoras do seu nariz. Resta-me a satisfação de a ter poupado a morrer esfaimada e a passar mais uma noite desorientada. E depois de sentir o comportamento dela cá em casa e junto a nós, tenho a certeza que esta gatinha estava habituada a humanos. Algo me diz que foi abandonada por algumas bestas de duas patas.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Sem justificação
Desde que se começou a aventar a hipótese de se fazer uma revisão ao Estatuto do Aluno, até ela ser efectivamente feita e finalmente promulgada pelo Presidente da República que não se fala de outra coisa. A bandeira principal, a pólvora, a panaceia que poria fim a todos os males do mundo, assim como uma banha da cobra que iria erradicar as enfermidades do mundo educativo estava aí, prestes a surgir e a repor a verdade do mundo e a justiça do universo: a distinção entre faltas justificadas e injustificadas. Da esquerda à direita, os líderes, sub-líderes, assessores dos líderes, amigos dos líderes e animais domésticos dos líderes políticos encheram as balofas bocas com palavras doutamente ignorantes e o povo cordato e obediente regozijou em júbilo com a mais esparvoada das mentiras. A distinção entre faltas justificadas e injustificadas existia no antigo Estatuto do Aluno. Os pais, encarregados de educação e/ou quem os substitui, conhecem muito bem as folhinhas brancas A5, modelo do distinto Ministério da Educação onde escrevinham dias, horas, datas e causas da ausência dos seus educandos e que por vezes acompanham com atestados médicos ou declarações médicas. E para quê? Para que as faltas sejam justificadas naturalmente. E o que acontecia se assim não fosse? Acontecia que as faltas não eram justificadas e, não o sendo, os alunos teriam de realizar Prova de Recuperação quando ultrapassassem o dobro das horas semanais da disciplina a que faltou. Se as faltas fossem justificadas, apenas quando ultrapassassem o triplo teriam de se sujeitar a esse bicho burocrático e inane conhecido como Prova de Recuperação e que, convenhamos, terá ajudado muito às estatísticas socráticas que como sabemos é a sua preocupação principal. E depois da mesma mentira repetida como eco sempre que se aborda o assunto, fica claro que os nossos líderes e outros precisavam de uma Prova de Recuperação para recuperarem as aprendizagens, sim, o pleonasmo impõe-se, é para isso que serviam. Algo me diz que não recuperariam, mesmo com o Plano XPTO, para se porem ao fino. É sempre mais fácil pegar em chavões do que averiguar a verdade. O povo gosta.
Também no Delito de Opinião
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Momentos
Um livro, uma camada generosa de protector solar, uma garrafa de água, biquíni e havaiana no pé. E rumo à tarja prateada que me brinda todos os dias da janela da cozinha, do terraço também. Cabelos ao vento, o aroma indefectível do Verão e praia enfim. Sol que me abraça e beija. Às vezes é tão ser fácil ser feliz.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Confissões de uma criatura insólita
A tarde já ia longa. Finalmente a brisa desejada ao longo do dia beijava os corpos engalanados para a ocasião solene. Ao redor da mesa petiscando uns opíparos camarões cozidos com um vinho verde branco, os convivas destruíam barreiras e entregavam-se à festividade do dia, arrumado por fim o reencontro emocionado de anos de separação, mágoas e corações com cicatrizes de sofrimentos passados. E foi aí que na troca de palavras sobre os ofícios que nos dão o pão que surgiu vindo de algures Ela é professora ou terei eu mesma proferido Sou professora. E eis que paira entre os copos de vinho e a degustação dos camarões um misto de incredulidade, compaixão, pena, algo que se instala no ar estival por efémeros momentos e que me faz sentir um bicho raro, um animal estranho, uma criatura insólita. Valeu-me a descontracção do Verão e a degustação de um copo de vinho, o gole bebido com o vigor de quem não se quer recordar. E não me lembro de a minha profissão se ter tornado nisto, neste misto de estupefacção Ah como é forte para aguentar aquilo e de pena paternalista Coitada! Coitadita! É professora… que se há-se fazer. E sei que houve melhores dias para a profissão, dias em que os professores tinham o mínimo de dignidade, dias em que os professores eram respeitados como cidadãos correctos, dias em que os professores se davam ao respeito, dias em que ninguém chateava ninguém: o professor com o seu olhómetro a classificar os alunos a seu bel-prazer, vidas inteiras de incompetências encapotadas, dias em que os pais tinham a capacidade de olhar a adolescência como a mais difícil das etapas, a mais perigosa, a mais passível de omissões e imposturas, alunos que aceitavam a autoridade como algo natural nas relações pedagógicas. E mesmo mudando-se os tempos e as vontades e não sendo uma nostálgica do passado, dói. A pena dói. O descrédito dói. Ser professor dói.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Hoje há...
giros e talentosos aqui. Desta feita um vintage do século passado.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Fúria...
arrumadeira é o mal que me acometeu desde que o terraço ressuscitou. O blogue vai ter de esperar até conseguir encafuar tudo nos sítios certos e desfazer-me do passado que me resta em pedaços de papel.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Estupidamente optimista
Depois do terraço acabado, o roupeiro montado, o trabalho no fim e uma notícia que me tranquilizou o coração é como me sinto: estupidamente optimista.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Como o Vinho do Porto
A música aqui é um mero pretexto.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
O princípio do fim
Acaba de começar a minha última semana de trabalho deste ano lectivo.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Recordações da casa amarela
Desta vez não foram os livros. Desta vez as citações dos livros ficaram arrumadas lá pelas gavetas em peças albergadas em corredores e secções. Desta feita foram os filmes. As citações que me iam bailando na cabeça ao ritmo da empreitada num dia de calor tórrido. E foi isto porque sendo adepta fervorosa de self-services em algumas ocasiões, uso-os frequentemente no pagamento do supermercado para não aguentar as caixas contrariadas, dirigi-me a um desses locais que todos conhecem mas cujo nome me recuso a escrever aqui para não oferecer publicidade gratuita aos senhores nórdicos, para ser fiel proprietária de uma série de objectos de arrumação que me faltam no lar. Assim sendo, passada a primeira incursão no corredor 1 secção x, onde se encontravam os inofensivos varões, deparei-me com uma outra onde os volumes além de imensos, pesavam toneladas, e foi aí que me ocorreu a primeira frase, logo que tentei mover um enorme rectângulo de cartão recheado de madeiras e aglomerados. Perante o pesadelo dos bichos encaixotados, logo dois, quilos e quilos de materiais recicláveis que me hão-de salvar do caos doméstico e de acordo com a cábula levada e cumprida meticulosamente, ouvi vindo das profundezas da minha alma May the force be with you. Bem precisa foi. A seguir vieram oito gavetas, uns animais mortíferos que se recusavam a encaixar na arrumação previamente feita no carrinho. Podia ser na vertical ou na horizontal sobre os monstros que jaziam indefesos. Fácil não era e urgia a rearrumação das peças. Que outra frase que não esta Houston, we have a problem? Logo depois e mediante a irresolubilidade da questiúncula, lá vieram as linhas de um dos filmes da minha vida – mau, eu sei, por esta hora estarão a pensar mas por que carga de água gosta ela daquilo? Gosto, confesso, gosto muito – mas soaram, ai soaram, soaram Look, I guarantee there'll be tough times. I guarantee that at some point, one or both of us is gonna want to get out of this thing. E queríamos, claro que queríamos. Um ou dois ou um de cada vez ou os dois ao mesmo tempo. Quanto mais depressa melhor. Por último, lá pela canícula do meio-dia, com as compras feitas, transporte e montagem contratados, extenuada, exaurida, exausta, transpirada, uma tarde de trabalho intenso à minha espera na escola e com uma garrafa de litro e meio de água na mão, ainda suspirei Esta loja não é para velhos. E pronto, era só isto que queria dizer. Until then, good night!
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Notícias do terraço previamente desvalido
Está quase, quase, quase.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Comentários de fêmea cinéfila
Tadinho. Tanto mal que lhe fizeram.
Odisseias de um terraço desvalido
Ora portanto, são onze da manhã de um Sábado que me parece ensolarado, depois de uma noite óptima a ver Buena Vista Social Club com a grande Omara Portuondo no Jardim do Cerco aqui na terra, e eis-me agarrada ao computador ainda em pijama e gadelha desgrenhada, de óculos, é verdade sou míope e uso óculos aqui na intimidade. E perguntarão porquê. Que raio faz uma mulher logo pela manhã de um dia que se queria de descanso, de sol ainda por cima, depois de uma semana de caca que lhe sugou bulicamente energia a teclar furiosamente como se não houvesse amanhã.
O meu terraço que metia água e que me fez passar um Inverno de alguidares na cozinha e sentir-me a viver numa barraca como se estivesse no Feios, Porcos e Maus, apesar de ninguém me ter pedido para chegar para lá na cama que trazia uma amiga para a pernoita, o tal que me vai custar euros e impropérios, está em fase de reconstrução. Reconstrução acarreta marretadas, maçaricos e claro o teste. O teste consiste em meter água no terraço e esperar para ver. Ora ontem nem foi preciso esperar para ver, porque logo passado uns minutos, calculo, a água começou a entrar lampeira pela cozinha, logo após estendeu-se à sala. Mediante as evidências, houve que tentar reparar o arranjo que afinal não estava assim tão bem. Depois de nova tentativa e de nova reparadela, enche-se o terraço de água e hoje lá pela fresca, estima-se que ainda nem o sol tinha dado acordo de si, eis que a água entra, pior, a água entra agora também na sala, umas manchas ovaladas que me decoram o tecto. Adivinha-se um processo longo e ilustre, tentativa sobre tentativa até ter a casa num lago. A sorte é ter este blogue, ai meu querido blogue, ai blogue da minha alma, se não prevejo os danos colaterais: ou procuro o psiquiatra que em tempos me tratou do coração estilhaçado e alma em cacos ou recorro ao supermercado mais próximo e vou experimentando um por um, unzinho por unzinho, os sabores que me piscam o olho do lado da lá das câmaras frigoríficas. Ontem era um de nougat, mas também lá há de chocolate branco e frutos silvestres, de maracujá, demasiado inofensivo para este mal que me atormenta, o de canela e bolachas, razoavelmente calórico, este, e a seguir recorro ao meu dietista. Uma alegria.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Expansão vocabular
Há sempre aqueles momentos na nossa vida em que o vocabulário aumenta. Há uns tempos foi o encunicado que veio completar o meu tesouro de palavras, tradução literalíssima do germânico Wortschatz, ontem apaixonei-me pelo pensageiro, da autoria de Mia Couto e que me chamou na capa de um livro, quando ia às cenouras e às febras, anteontem, porém, acrescentei mais uma ao meu caríssimo vocabulário: sanca. E foi isto porque, depois de marteladas e marretadas no terraço, a sanca do tecto da cozinha suicidou-se lá do alto. Estatelou-se no chão sem dó nem piedade e jaz agora dentro de um saco plástico algures na cozinha. Sanca, portanto. Quando no telefonema da noite anunciei à minha mãe o suicídio da sanca, ela perguntou Sanca? Não sei o que é uma sanca. E foi aí que continuou a expansão vocabular e dei asas à professora que há em mim, pôr por miúdos o ininteligível à primeira. Fui-lhe dando instruções. ´Tás a ver aquela barra entre a parede e o tecto? É isso. Ah respondeu, mas aqui não tenho nada disso. Acrescentei, No fim da parede entre a dita e o tecto há assim uma barra, tipo um remate, é isso. Coisas das casas modernas. O meu medo é que me ponham uma cheia de arrebiques para compor a falta daquela. Não me pareceu convencida e dei por encerrada esta tarefa de me pôr a explicar nomenclatura de construção ou engenharia. O outro vocábulo que me entrou pela casa dentro foi OSB. Utilizado com frequência pela vizinhança nos oráculos e adivinhações quanto ao estado calamitoso e apocalíptico do terraço, era sempre lançado com gravidade o OSB deve estar todo podre e depois a finalização e é caro, deve ser caríssimo. Ora ontem, quando pelo fim da tarde me aproximei do jardim para expirar o dia de trabalho dei por uma placa castanha, assim um contraplacado forte, algo que nos meus tempos de criança se chamava platex ou contraplacado. Pelos visto hoje, mais sofisticadela menos sofisticadela, é OSB. A última palavra não foi propriamente uma descoberta, foi mais uma constatação e foi isto logo após a descoberta do enigmático OSB. Constatei, contornando a minha casa pelo lado direito, que o meu estendal de resina estava estraçalhado, acidente nas obras, desculpas para lá e para cá, tenho o estendal num caco, parece que lhe passou um rolo por cima, mas acredito que está ainda para vir, e a coisa está para breve, a utilização adequada ao contexto de uma série de palavras danadas e furiosas, asneiras e palavrões, quando me apresentarem um papelito com a conta do OSB mais a sanca mais o cerâmico, a impermeabilização, o isolante, a tela e sei-lá-mais-o-quê, horas e horas de trabalho que o meu terraço leva. Tudo isso em euros. Não há vocabulário que me chegue.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Momento sitemeter (23)
A quem veio dar a este blogue à procura de tatuagem no pénis a gerência informa que não temos, nem um nem outro.
domingo, 18 de julho de 2010
sábado, 17 de julho de 2010
Curiosidade...
de saber quem linkou este post no Facebook. Tem sido um corropio de visitas. Aos novos visitantes as boas-vindas mesmo que tenham vindo aqui parar por um motivo tão triste.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Angústias de uma dona de casa irada
No dia exacto em que uma contrariada dona de casa decide fazer uma barrela nos cortinados para lhes mandar fazer bainha e porque convém que sejam lavados naturalmente, chove. Chove em Mafra. Mau grado o aquecimento global eu até andava feliz nos últimos anos, porque aqui o tempo se tinha tornado normal e havia dias de sol normais em que se podia ir à praia, sair sem casacos e fazer a vida quase normal da gente normal numa estação normal. Errado. Voltou tudo atrás. Ele há neblina matinal, neblina no ocaso, frescura nos ossos que obriga a um agasalho, vento e, como se não chegasse, hoje há chuva. Chuva, chuvinha, morrinha, chão molhado, pingos que me cumprimentam da glicínia à saída de casa e as gatas que chegam de pêlo húmido depois do passeio matinal. Já pensei em atracar-me nos prozacs que sou fraquinha dos nervos no que toca a assuntos domésticos mas preferi vir para aqui desanuviar. Logo à noite ainda posso vingar-me em duas bolas de gelado generosas com um barquilho de baunilha, até porque não tenho prozacs em casa mas dá jeito aqui para o post. Raios. Caca de tempo.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O mundo a meus pés
O meu problema, um dos, é ter o vício de querer viajar sempre, sempre mais, sempre tudo, sempre sempre. Num desses momentos femininos de encantamento total por um par de sapatos, sandálias ou qualquer outra coisa que lhe queiram chamar, de uma marca conhecida muito na moda e que, para cúmulo, combina o melhor de dois mundos, voar e a capital britânica na denominação, dei por mim a fazer o raciocínio de sempre enquanto os virava e revirava, cobiçava, desejava: cem euros de sapatos é muito dinheiro, cem euros por isto? E o remate costumeiro, a conversão imediata Cem euros é uma viagem de ida e volta a Edimburgo. Uma passagem de avião daqui para fora. Podia ser Londres também ou Paris ou Roma ou Milão, Milão ainda mais barato, mas não gosto muito de Milão, ou Berlim. E pronto, ando nisto há meses. Agora com os saldos e promoções embarateceram um bocadito, as ditas chanatas, mas continuam a ser uma viagem a Londres nos pés a arrastar por esse chão imundo e é claro que tirando os breves instantes de ver o pezito de cinderela quarentona encaixado na perfeição na sapatola da moda, uma viagem a Londres é sempre uma viagem a Londres. Ele há livros, há mercados, há musicais, há gente na rua de todas as cores, há Londres, ponto final. Aguardo ansiosamente que desçam para metade do preço. Nesse caso seria só a viagem de ida, o que nos tempos que correm não me caía nada mal.
imagem: Beryl Cook
Contente, contente, contente
Os meus alunos tiraram boas notas no exame.
domingo, 11 de julho de 2010
Tentáculos e oráculos
Odeio, odeio de raiva e fúria, água gelada e mar frio, não tanto as ondas, porque tendo aprendido a nadar na Figueira da Foz e sendo frequentadora assídua das praias que tenho aqui a dez minutos de casa, não há como não me ter habituado ao mar batido e furioso. Mas o frio. O frio é que me mata. Matava, passemos então a usar o pretérito, porque depois do cefalópode germânico, Paul de seu nome, ter adivinhado o resultado de todos os jogos onde os audazes rapazes teutónicos se envolveram com outros onze rapagões, nas vitórias e nas derrotas, incluindo o recentíssimo infortúnio holandês contra nuestros hermanos, sou eu mesma, eu mesminha da silva, que me porei no encalce de um polvo adivinho nestas águas gélidas da Ericeira. Com os políticos que temos prefiro acreditar em polvos e com as presidenciais quase à porta há que precaver o futuro. Assim que tiver novidades sobre os desígnios deste país darei novas. O pior que pode acontecer é convidar-vos para um opíparo arroz de polvo.
Também no Delito de Opinião
sábado, 10 de julho de 2010
Só para informar...
que a cataplana de amêijoas estava divinal.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
A vida...
a banhos é tão melhor.
sábado, 3 de julho de 2010
Ai não vais não
Se entrar numa livraria não tenho este problema. A certeza de que só vou encontrar livros prepara-me para o que vou encontrar e quase intuitivamente separo os títulos e autores e corro ao encontro do desejado, pode ser apenas um desejo súbito e arrebatador, se o autor me agradar, a capa for apelativa e o título sugestivo. Contudo se me encontrar com os livros num hipermercado, no que desgraçadamente frequento encontram-se na entrada logo à direita, nutro por eles um sentimento diferente. É claro que não resisto a um olhar cirúrgico à procura de novidades, dão cabo de mim as novidades, mas de seguida separo a Nora Roberts, a Jodi Picoult e o Nicholas Sparks, às vezes tenho até vontade de os rearrumar nas estantes e os separar da Toni Morrison e da Doris Lessing, não sei porquê, mas acho que não ficam bem ao lado uns dos outros. Hoje, por exemplo, havia uma biografia no meio dos livros do Mia Couto e não me pareceu bem aquela intromissão. Também já estive para chamar a assistente e explicar-lhe que não, que Em Busca da Felicidade, um dos livros que mais me arrependo de ter comprado, não é um livro de auto-ajuda, ouviu? E que o Nagib Mahfouz também não tem nada que ombrear com as espiritualidades, ainda não entendi porque o colocam sempre ali. Outros dias embirro com as celebridades que deram em escritores e escritoras. Toda a gente sabe, muita pelo menos, que nada daquilo interessa ao mais pintado, mas também toda a gente sabe que o autor vende e não há quem resista aos esgares da Fátima Lopes perante os pobrezinhos e desvalidos do mundo que se adivinham entre as páginas. Mas hoje foi diferente. Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
O mundo estranho do futebol
Para uma leiga como eu, o mundo do futebol é um mundo estranho, muito estranho, tão estranho que se torna difícil decifrá-lo. É que não é só o facto de vinte e dois homens correrem como desalmados atrás duma bola, com mais um ou dois ou três a fiscalizar o seu comportamento, não vão fazer traquinices, não é só o mistério do balneário que freudianamente imagino coroado de homens em trajes menores, bem menores, benzós deus, com os corpinhos atléticos e esculturais, ainda luzidios da prática do desporto viril e que contraditoriamente com o faro de perdigueira com que vim equipada de origem me causa até vómitos só de pressentir os odores acres a machos exaustos. Não é só o futebolês, essa linguagem única, cheia de prognósticos depois do jogo ou quadrados que se fazem com três. O que me inquieta neste desporto que há quem diga rei, não é apenas isso, porque como se sabe sou uma republicana empedernida e sou contra cargos que não sejam eleitos por essa massa desalmada chamada povo.
O mundo estranho do futebol caracteriza-se por linhas de orientação onde a palavra pode será sancionada, cortada, calada, proibida. Vejamos Deco. Deco não jogava na posição costumeira, Deco não estava habituado, Deco diz que não estava habituado com aquele seu ar doce de cachorrinho abandonado. Ora se isto fosse num mundo normal não havia nada de mal, o rapaz nunca tinha jogado naquela posição e ao afirmá-lo reportou-se apenas a uma evidência facilmente comprovável, sim, eu sei que reina por aqui uma redundância, mas apeteceu-me. Errado. Deco teve de retratar-se como se tivesse caluniado alguém o Almighty Queiroz, esse Obi Wan Kenobi do futebol luso, o Gandalf dos esféricos lusitanos. Outro exemplo: Hugo Almeida. O jovem e viril rapaz diz que não estava esgotado quando o Queiroz Almighty o substituiu. Contudo, o contraditório surgiu e Queiroz, o Grande, afirmou “Quando eu digo que um jogador está cansado, é porque está cansado.” Livrai-vos pois rapazes de afirmações análogas. Deve ter sido o que aconteceu com Nani “Quando eu digo que tens uma lesão na clavícula, tens uma lesão na clavícula” e por aí fora. Preocupante. Muito preocupante. Imagine-se o que poderá acontecer com todos estes rapazes à mercê das vontades queirozianas e restringidos a duas palavritas apenas Heil Queiroz!
E sendo Queiroz quem é, o Timoneiro da Redondinha, cabem-lhe as decisões técnico-tácticas, reparem nesta propriedade de linguagem, portanto se põe os rapazes a jogar onde não devem, tira os que estão a render e põe os coxos, quando a coisa não corre bem, de quem é a responsabilidade? Pois, desse mesmo. Todos sabem mas ai de quem ousar atravessar essa tormenta da verbalização do óbvio. Coube desta feita ao nosso rapagão que quando questionado por uma justificação para a faena letal dos nuestros hermanos respondeu “Perguntem ao Carlos Queiroz”. Ai dele! Ai de todos nós! Até esse rapaz valoroso que vende pequenos-almoços por insignificantes quantias, o tal que algures em 2002 terá ameaçado sair da selecção do seu país porque tinha um nome a defender, veio apunhalar o derriço da mulherio, a mascote que transpira testosterona e põe os estrogénios em desvairo. Se o futebol não é um mundo estranho, não sei o que é, mas democrático não é com toda a certeza.
Também no Delito de Opinião
Still...
terça-feira, 29 de junho de 2010
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (15)
Volta Scolari!!!
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (14)
Coisas que se ouvem cá em casa: 'o Queiroz devia ser sodomizado por uma zebra' e não foi a minha mãe que disse para que conste...
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (13)
Os miúdos sem pêlos parecem galinhas depenadas. Credo.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (12)
Sócrates, filho, acabou-se-te o sossego.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (11)
Eduardo a Santo já, ou, pelo menos, Beato.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (10)
Rais parta os miúdos.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (9)
Ó miúdos, pá, têm oito minutos para marcar um golo!!!!
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (8)
Estou desolada! a minha vida jamais será a mesma depois de ter largado um impropério à frente da minha mãe.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (7)
Se eu podia ver a bola sem o Facebook e as minhas amigas? Podia, mas jamais seria a mesma coisa!
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (6)
'Ó Hugo Almeida, pá!!' transcrição fiel do que se ouve cá em casa.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (5)
O Poyol já cortava aquele cabelo, parece o Peter Frampton.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (4)
O Ronaldo é feio mas é um grande cavalão, benzó deus como o miúdo cresceu.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (3)
'O canhoto da Figueira da Foz' é bem.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (2)
Os nossos miúdos são mais giros que os espanhóis, excluindo o Bruno Alves.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola: (1)
O Carlos Queiroz é giro.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola
E o que é uma mulher faz quando vinte e dois valorosos rapazes se degladiam em frente a um bola? Vejamos as hipóteses:
- Lê
- Vai às compras empanturrar-se de coisas que não precisa para coisa nenhuma.
- Senta-se em frente da televisão com tremoços e bejecas e comenta furiosamente como se entendesse alguma coisa de futebol.
- Fecha-se na cozinha e prepara uma jantar opíparo para o seu consorte.
- Grita desalmadamente pelos jogadores, chama-lhes nomes e incentiva-os, tudo a seu tempo.
- Agarra-se ao Facebook e vai debitando disparates.
Parabéns, se assinalou a última resposta. Seguem-se os desvaires de uma gaija que nada entende de futebol. Com muita pena minha não constam os comentários das amigas que me acompanharam ao longo destes 90 minutos de negregura lusa.
sábado, 26 de junho de 2010
Alívio
Nada como levantar-me a um Sábado pela fresca e não ter que pensar que ainda tenho uma acta para acabar, um relatório para concluir, aulas para preparar, formulários para preencher e gente que não interessa a ninguém, não os meus alunos, para aturar. Um alívio. Um alívio completo. Para ser perfeito só falta sol e calor.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Receita de leitura
a quase última deste ano lectivo aqui.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Ufa!
Quase a emergir dos papéis, relatórios, reuniões e actas.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Pérolas lexicais
Nada faria prever que num simplérrimo voo Madrid –Lisboa eu fosse aprender uma palavra que me tem dado tanto jeito e que hoje se me apresenta como uma verdadeira revelação. Algures nos lugares traseiros do avião, também conhecido aqui e ali por aeronave, e depois de umas horas num outro vindos de Istambul, fui atacada por um bando de turistas. Traziam às costas uma mochila indicadora de que vinham em grupo, uma peregrinação, apurei depois, e falavam aquela linguagem típica do português típico quando faz viagens típicas acompanhado de portugueses típicos a sítios típicos. Pareciam ter comprado este mundo e o outro, já que além da mochila cor-de-laranja da magnânima agência de viagens que os levou a ver o sítio onde a Virgem nasceu e Petra, imagine-se, e Israel, não querem lá ver, desdobravam-se em sacos e malas que a custo queriam fazer caber nos overhead compartments – gosto disto, nada como uma palavritas em inglês para condimentar a coisa. Quando finalmente assentaram arraiais a conversa deslizou fluida com um sem número de queixumes que incluía, por exemplo, o passeio de burro, Nunca mais! Balha-me Nossa Sinhora! e a escala manhosa em Madrid Ai quem dera a minha casinha! e ainda uma tal de mulher de quem ouvi frequentemente dizer E depois eu disse-lhe, bem à laia de reprimenda e remoque, como quem esgrime um combate. E estava a coisa a correr bem, tudo sentado, à espera de partir, quando de repente a ocupante do lugar à minha frente se lembrou, achou, sentiu, pressentiu e teve a certeza que o seu banco, esse mesmo onde ia sentada, estava com as costas demasiado rebatidas. Fazendo uso do seu habitual desenrascanço sentou-se no banco, agarrou as costas do dito vigorosamente e começou a abaná-lo com igual intensidade. É que para este ser o material não tinha sempre razão, logo havia que repor, a bem ou mal, a ordem das coisas. A companheira do lado com quem partilhara a viagem de burro pela Terra Santa e os queixumes da vida malvada ainda tentou avisar que não valia a pena. Em vão, contudo. Quando ela alegou que íamos apertados ali atrás, ainda esbocei um sorriso e larguei umas palavras Deixe estar, não incomoda nada, mas o mais divertido foi quando se virou para o passageiro a meu lado e disse Oh coitado do sinhor! Até bai aí todo encunicado!. E pronto, lembrei-me desta magnífica palavra, uma verdadeira pérola lexical, porque julgo ser esse o problema dos nossos deputados para viajarem em executiva, primeira ou outra presunção manhosa tão típica dos povos do Sul, em voos longos. Não querem ficar encunicados lá entre os bancos do povão, o mesmo povão que lhes paga as mordomias.
Também no Delito de Opinião
Constatações
Estou tão cansada que até estou deprimida. Raios.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Desabafos
Ora aqui estou eu respirando fundo, ao ritmo de uma dessas panaceias modernas, inspira, expira, contando até mil, esperando que me passe esta raivinha cega contra gente mal formada, ansiando ardentemente o momento da justiça final em que os maus são castigados e os bons têm um lugarzinho catita, sem PEC, nem austeridade. Pronto, agora que desabafei um bocadito, vou ver se prossigo com a minha vida e faço alguma coisa de jeito que não seja usar o blogue como arma de arremesso contra papa-hóstias badochas.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Da inutilidade dos ginásios
domingo, 23 de maio de 2010
As legítimas
O mulherio fazia fila para a caixa, não só mulherio, atrás de mim um senhor menos jovem, de pé pequeno pelo que disse, uma mãe entediada com os caprichos da filha adolescente, uma mulher indecisa com a escolha dos brilhantes a aplicar e em torno do quiosque, quiosque talvez, havia um corrupio constante, uma roda imparável, pedidos de números e cores, homens e mulheres experimentando o tamanho e a cor exacta, a cor exacta, jamais aleatória e terá que condizer com as inúmeras fatiotas veraneantes, esvoaçantes ou coleantes que dão cor aos roupeiros lá em casa e a que o sol permite finalmente dar uso. Podia até parecer uma réplica manhosa do Sexo e a Cidade: em vez das quatro magníficas às compras na senda dos últimos Manolo Blahnik ou Jimmy Choo, uma horda de mulheres na capital lusa, pontilhada aqui e ali com a presença masculina na procura dos seus objectos de desejo para um Verão que se prevê tórrido. Assim era o mulherio desvairado com aquilo que não é necessário mas que sendo acessório se pode tornar fundamental e necessário na vida de uma mulher. Acontece a todas ou a quase todas. Acontece-me a mim, por exemplo. Acontece-me ter uma fixação nas mais simples e aparentemente democráticas sandálias que o mundo conhece, esses mesmo que congregaram uma multidão de dimensões moderadas num Sábado pela manhã numa loja da capital. Esta que vos escreve tem uma paixão assolapada pelas sandálias de enfiar o dedo de produção brasileira conhecidas em todo o mundo, um objecto quotidiano transformado em culto, o supra-sumo da liberdade e a afirmação peremptória de que as obrigações estão longe e de que posso finalmente andar sem qualquer salto, arrastando ligeiramente os pés e sentindo-me indescritivelmente livre. Sem horários a cumprir e tarefas a executar, igual se de férias ou de fim-de-semana, as havaianas fazem parte da liberdade a que me permito e representam momentos do mais puro prazer pautados pela entrega ao que melhor me aprouver. E depois vêm as cores, os padrões, os modelos: top, joy, slim, slim season, slim stripes, high, estampadas, florais, hibisco, cartunistas. Nego-me a contar os pares de que sou feliz proprietária, a bem da minha sanidade mental e da manutenção da imagem de que não sou uma mulher frívola e que, ao contrário de uma esbanjadora consumista, não possuo pares que dão para uma equipa de futebol, treinadores e adjuntos incluídos. Se recontar ainda se arranja um par para o apanha-bolas.Naquela cena do filme Notting Hill em que Anna vai ter com William à livraria em Portobello Road podia perfeitamente usar umas havaianas slim. Ficariam a matar com o casaco de malha e a saia direita e em perfeita sintonia com a cena tão simples mas tão carregada de significado I'm just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her. E depois vem a publicidade no Brasil. Reynaldo Gianecchini, ele mesmo, sem mais apresentações, passeia-se num shopping usando as legítimas. São precisas mais razões?
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