Dia primeiro de nada fazer. Dia primeiro sem obrigações, pautas, actas, papeladas inúteis que consomem tempo e energia. Dia primeiro sem balelas nem conversa mole nem obrigação de bons dias sem vontade. Dia primeiro de sentir os dias e o tempo, de abençoar o sol de inverno e de deixar à porta de casa o capote de dias pesados, a capa das incertezas. Dia primeiro de sentir Natal. Dia primeiro de sorrisos e carinho. Bem-vindo, dia primeiro.
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Se perguntares o que podes fazer pelo teu país...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
E lá fora, o frio
Sou um bocado obsessiva nos
gostos. Se gostar de uma camisola de determinado modelo tenho vontade de
comprar mais duas de cor diferente. O mesmo aplica-se a outras peças de roupa,
acessórios ou seja o que for do que gosto, à excepção de uma ou outra coisa que
por decoro não vou aqui referir. Nessa mesma medida se gostar muito de uma
cidade ou país tenho sempre vontade de voltar. Berlim ou Londres, Cabo Verde ou
Brasil são destinos a que regressaria assim a vontade me permitisse, quase
sempre portanto, e a partir de agora quase nunca, sendo que o ‘quase’ é um
acessório absolutamente ilusório nesta minha nova condição de depauperada. Quando
fui a Munique num Dezembro passado e descobri os mercados de Natal passei a ter
uma nova obsessão: mercados de Natal. Sempre que chega esta altura do ano, lá
para os fins de Novembro, cresce em mim uma vontade imperiosa de me aconchegar
num cachecol, atafulhar-me em casacos felpudos, gorros e luvas e perder-me
entre a multidão, beber um Glühwein bem quente, enquanto as pessoas se passeiam
mercado acima mercado abaixo numa romaria colorida e perfumada, e deixar-me
envolver por momentos nessa que se diz ser a magia do Natal. Nada disto pode
parecer muito mal excepto se se souber que sou mulher de sol e luz, portadas
abertas e janela no basculante até o sol se esconder e que encontra amparo em
dias tépidos ou escaldantes, o bálsamo verdadeiro que afasta cansaço, stress,
angústia. Muito. Quase tudo. Mas obsessão é obsessão e até ontem apetecia-me um
mercado de Natal e até ontem porque quando pus o nariz de fora à noite e senti
o vento cortante em frente à basílica numa noite de breu gelada e impiedosa sem que cachecóis, casacos e gorros me pudessem valer, percebi de que são feitos os sonhos, de sonhos
apenas. Manias revestidas de grinaldas de fantasia. A realidade é outra coisa.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Coisas que se nos entram pela alma...
e não saem. Em replay desde ontem nos meus ouvidos.
sábado, 17 de dezembro de 2011
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
Domingo
Uma chávena de chá e testes para corrigir.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Biscoitos de chocolate
As preocupações fora de portas e nada
mais há naqueles instantes É como se o mundo parasse. Momentos de puro prazer,
deleite, escapismo. O mundo seria mais fácil se tudo se reduzisse ao prazer
ancestral de matar fomes e desejos e tudo se pudesse resolver à mesa entre
aromas e palatos saciados. Pela janela há um dia de Dezembro bem claro, o sol
que brilhou pela manhã apaziguando o crepúsculo de algo que se não sabe muito
bem o que é, o mundo como o conhecemos talvez, algumas seguranças e garantias
colapsam como baralho de cartas sem que nada se possa fazer se não aguentar. A
roda da fortuna que cumpre o seu destino. Aguentar dias, anos, de verborreia moralista
de crime e castigo, pecados alheios que agora temos de pagar. Não quero saber.
Não agora. Não hoje. Deixo amolecer 250 gramas de margarina enquanto deito 125
gramas de açúcar mascavado na velha taça azul que me acompanha há anos nestes
momentos de descontracção. Lá fora entardece mansinho. Um cão que refila, o
mesmo de todos os dias feriado e fins-de-semana e uma das gatas espreita-me
pela porta da cozinha. Bato energicamente o açúcar e a margarina até ficar um creme fofo e junto-lhe
225 gramas de farinha. Dezembro é mês de cozinha, de colo e de regresso, a
casa, a nós mesmos, ao fim para que o início regresse. Envolvo bem a farinha e
junto-lhe 100 gramas de flocos de aveia. E depois vario. Não há receita nas
minhas mãos que não seja acrescentada, mudada, experimentada com umas pitadas
imprevistas ao sabor dos meus dias e vontades, imprevisíveis também. Meia tablete de chocolate
culinário cortada grosseiramente, pedaços irregulares a quem vou sem critério cortando mais aparas pontiagudas para envolver na massa. E esperar. Uma hora de frio. Uma hora de silêncios tranquilos, o bálsamo necessário deste Dezembro que me traz agastada. Bolachas tendidas com o carinho de quem alimenta e de quem ama. O amor também se alimenta da alquimia de aromas e metamorfoses. E depois
há o perfume do forno quente e do chocolate espalhando-se pela casa. Entardece. Recolho-me
num biscoito e um chá aromático. Se tudo pudesse reduzir-se a prazeres simples.
Às vezes pode. Hoje pôde.
A receita dos biscoitos foi inspirada nesta. Um beijo à Cristina Nobre Soares a quem prometi experimentar as bolachas de aveia.
A receita dos biscoitos foi inspirada nesta. Um beijo à Cristina Nobre Soares a quem prometi experimentar as bolachas de aveia.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
History repeating
Segunda-feira. Oito e trinta. Teste. Quando tudo se acalmou, se arrumaram nas cadeiras e mergulharam naquelas três páginas A4 rabiscadas de letras, de lá do fundo levanta-se um braço. Acorro lesta. Setora, dizem-me baixinho, O meu dicionário não tem esta palavra e aponta-me a dita. Atypical. Respondo Atípico. Atiram-me, Sim, mas o que é isso. Ouço um burburinho, cabeças que se viram na minha direcção e explico a todos o significado da palavra em português. Muito atípico no meio de um teste.
Segundo round. Outro braço que se levanta. Acorro lesta como sempre, pronta a esclarecer as dúvidas, nada pior que ficar com dúvidas. A professora não quer os seus meninos com dúvidas. Sussurram-me outra vez, de dedo apontado à palavra rapioqueira, mais uma das malvadas que se esconde dos meninos da professora. Esta aqui, dizem-me. Quem disse que a história não se repetia mentiu profundamente. Neologisms? Neologismos! digo peremptória. Sim, setora, mas é o quê?
Terceiro round. Fim da aula. Uma voz que se ergue. Setora, podemos inventar na composição? Podem, respondo, desde que seja verosímil. A meia dúzia de almas que restava irrompe numa sonora gargalhada. Se lhes tivesse contado uma anedota, teriam achado que era uma piada seca, diriam que a prof tem um sentido de humor estranho ou que se acha engraçadinha e certamente seria brindada com um sorriso amarelo. Era uma palavra. Uminha, sem segundas intenções. Questionam-me O QUÊ? O que é isso, setora? A professora esforça-se por explicar o que é verosímil numa linguagem acessível. Uns pedem, Diga lá outra vez! E tentam repetir Verobivel? Como é que é? Outra conclui Boa! Já aprendi uma palavra hoje, mas depois repete-a, tá bem, setora? Nada como umas palavras novas para animar uma segunda-feira cinzenta de Dezembro.
sábado, 3 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Sol de inverno
Hoje. Segundo tempo da manhã. Dia de sol de inverno. Chego à sala. Furiosa com as faltas insistentes e largo um sermão irritado. Sei que o vêem. Sei que o sentem. Conhecem-me muito bem. Do meu lado esquerdo, enquanto escrevo o sumário e ajeito os livros na secretária, a insistência de uns olhos castanhos de súplica emoldurados por uma longa e cuidada cabeleira castanha. Stora, ouça-me, por favor. Vocifero que não pode ser, que não, que não aceito mais justificações de faltas fora de prazo. Não aceito. Não pode ser. A súplica continua, setora, não me grite, stora, por favor ouça-me. Insisto que estou a ouvir mas que não pode ser. Não vou fazer mais isso. Estendo-lhe as duas folhas A5, com ar assertivo. Não pode ser. Ela senta-se, resignada. Quase no fim da aula chama-me do lugar e pede-me que mais uma vez lhe dê atenção. Atenção. A atenção que todos precisam, pode ser um sorriso, uma festa no cabelo, uma risada em comum ou apenas a dúvida esclarecida na intrincada gramática alemã. Dou-lhe atenção. E ouço. Setora, a minha mãe está a trabalhar no Algarve. Só a vejo raramente. O meu irmão arranjou uma namorada e passa os dias com ela. Fico sozinha. Só quando eles vêm a casa é que me podem justificar faltas. A voz começa a tremelicar, os olhos castanhos de súplica mostram-me uma fragilidade que nunca tinha visto antes naquele corpo escorreito, sempre aperaltado e pronto a disparar se a importunarem muito. Os olhos subitamente brilhantes, lágrimas que espreitam e o lamento Que culpa tenho eu? Agarro-lhe a mão e tranquilizo-a. Nenhuma, digo, vá não chore. Tudo se resolve. E levo os papéis A5 de coração apertado. Muito bons são eles.
Momento sitemeter (24)
A quem procurou por 'blog a curva da estrada' e chegou aqui espero que não tenha ficado desiludido. Este blogue já teve melhores dias, pobrezinho.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (5)
Três semanas para escrever meia dúzia de linhas e ainda refilam se lhes é perguntado pela prosa. Não há paciência. Ainda menos para eu me deixar irritar com uma coisa destas.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Estou a ler 'Meine russischen Nachbarn"
O penúltimo dia de Agosto
brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e
precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver,
deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por
entre a multidão e sentir, respirar, ver.
Subo a rua. O passo mais rápido
pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em
cada visita. E entro na livraria.
Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros
baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de
virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um
livro.
Os olhos recaem sobre o mais
recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse
que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito
ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.
Meine russichen Nachbarn, os meus
vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente
ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures
em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias
depois da Queda do Muro em Novembro de 1989.Andrej e Sergej encetam uma nova
vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros
físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando
os trinta anos, Andrej de Leningrado,
hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na
vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A
porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej
luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina
exemplares d 'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do
grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.
E ambos teriam tido uma vida
anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que
Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas
que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de
forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma
narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e
despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União
Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova
pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os
tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que
não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos
modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na
cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de
222 páginas em tom humorístico e divertido.
A leitura implica um tu com que
se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se
ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande
pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama
literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha
e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por
cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores
editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra:
"Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando
tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço '. ‘Mas eu não
gosto de morangos com natas’ responde o aluno. 'Não interessa', esclarece o professor,vais comê-los na mesma,
quer gostes quer não".
Também no Delito de Opinião
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Limites
Em Março último, Cavaco Silva afirmava que havia limites para os sacríficios exigidos aos portugueses. Além dos limites aos sacríficios devia haver limites à paciência dos portugueses e ainda limites à distinta lata do primeiro ministro. E depois querem convencer-nos de que não há alternativa à austeridade. Esqueceram-se de um adjectivo possessivo de extrema importância. Não há alternativa à nossa austeridade, já que a vossa, senhores governantes, vai continuando a ser uma miragem. Tenham vergonha.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Às vezes
Lareira acesa.
Um copo de vinho tinto.
A noite que se recolhe lá fora.
Pacificação possível numa noite fria de Outono.
Um copo de vinho tinto.
A noite que se recolhe lá fora.
Pacificação possível numa noite fria de Outono.
sábado, 19 de novembro de 2011
Um murro no coração
A cada ausência sua dor. Hoje não foi a revolta. Não foi o choro descontrolado. Apenas a sensação de ficar cada vez mais só e ver o mundo como o conheci partir lentamente à minha frente. Um por um.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Outono
Às vezes sinto-me como uma árvore sem folhas a quem, um a um, vão cortando ramos. Cortes fundos. Pedaços a menos.
À memória da minha tia de quem herdei o gosto pelo vermelho e com quem aprendi a fazer sonhos.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Confissões de uma mulher perdida
Descobrimos que só pensamos no mesmo quando até nos momentos tranquilos do quotidiano encontramos marcas, indícios, evidências da nossa nova condição de depauperados e humilhados. E não, não se pense que foi quando passei por uma montra decorada de Natal cheia de bolas reluzentes e pais natais pachorrentos e me impus o treino forçado para combater o próximo Natal e o outro, talvez ainda o outro e quem sabe todos os Natais doravante. A recusa determinada em não ver, não entrar sequer, ignorar por completo e não ter a mínima das tentações. Assim como quando acabamos uma relação e cortamos com tudo o que faça lembrar o dito cujo, um vai morrer longe enérgico um chega pra lá catártico, quero mas é esquecer que existes, ó Natal. Nada disso. Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá. Quando num insuspeito poema de Rainer Maria Rilke sobre o Outono, o défice, a ajuda externa e a Troika estão presentes já não me resta mais nada. Estou perdida.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (4)
I R R I T A D A
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Segunda pela fresca
Testes na mão prontos a entregar. Uma pergunta final atrás dos óculos, olhos excitados e apressados, o teste sobre a mesa com a caneta em riste Stora, é preciso pôr o país? Respondo Não, não é. Um rosto entrepõe-se na conversa, alto e espigadote, a adolescência tão presente no rosto sarapintado de ameaça de barba. Remata Estás ver? Não é preciso pores o país. Confirmo, Sim, pode deixar omisso. Ao meu lado, a resposta rápida como o meu eco Ouviste? A stora diz que podes deixar omisso. Arrumo os testes, preparo-me para sair. Mas eu não sei o que isso é, de sorriso largo e encaminhando-se para a porta. Só faltou perguntar se era com h.
sábado, 5 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Apetece-me não
Estão a ver aquela banha da cobra contemporânea de que temos todos de ser felizes, ó tão felizes, levar um vida saudável, largarmo-nos em caminhadas, comer fruta e vegetais, espantar o stress, levantar os rabos dos sofás e mexê-los, gastar menos e ter uma vida toda ela sorrisos, ursinhos com flores e citações muito fofinhas e dar graças aos deuses pelas ninharias do dia-a-dia? Pois. Excluindo espantar o stress não me apetece nada. Nada de nada. Apetece-me o sofá e um chá quente, biscoitos se biscoitos me apetecer. Apetece-me não ir, não andar, não fazer. Apetece-me não. Posso?
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Pão-por-Deus
Lá fora há um dia de sol que me cumprimenta pela janela da sala. Melros que se penduram na vedação ou rasam a relva depenicando aqui e ali. A gata deitada a meus pés no tapete e a quietude que me retempera dos dias de alma gelada, acontecem esses dias, têm acontecido muito dias desses. E os cães ladram. Um ladrar díspar subitamente insistente. Vem aí gente, gente desconhecida. A gata inquieta-se como se cão fosse. Vem gente. Eu sei que eles hão-de vir. A campainha estridente. Vêm aí. Apuro o ouvido enquanto caminho para a porta. São eles. Em escadinha e de rostos sorridentes aparecem-me ao portão e olham com curiosidade quem os chama da porta de casa Venham cá! E vêm. Abrem os sacos de pano para onde vou depositando rebuçados, chupa-chupas, moedas de chocolate e línguas de gato, irmãmente distribuídos para cada um dos sacos e atentamente supervisionado pelos olhinhos brilhantes e bochechas rosadas. E lá vão arrastando os pés, chilreando como só eles e verificando a safra Já tenho muitas coisas ou Obrigada ou soltando verbalizações impensadas de que só as crianças são capazes Esta casa é muito engraçada, Finalmente alguém que nos abre a porta e um lamento Senhora, seja boazinha para nós que este é o último ano. Regressam os que no ano anterior vinham com as mães e tias, agora em bandos chilreantes, outros que assumiram o papel dos progenitores e orientam os mais pequenos na tradição. Alguns mais afoitos dão-me um beijinho e relembro-os Para o ano há mais! Tradição cumprida. Para o ano há mais. Lá fora há um dia de sol que me cumprimentou pela janela da sala. Cá dentro faz sol.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Estados de espírito dominicais
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
It´s now or never
Eu sei que é sexta-feira, o dia está bonito e o povo prepara-se para desabar no sofá ou dar passeios tranquilos no fim de semana mas este país não me dá tréguas. Enquanto esses malucos milionários que ousadamente ganham acima de 1000 euros vão ser extirpados para todo o sempre dos seus subsídios de férias e de Natal, o povo entendeu muito bem a mensagem de ontem, há gente a ganhar por mês o que daria para alguns funcionários. Atentemos nestes chorudos ordenados: Fátima Campos Ferreira, 10 mil euros mensais, Catarina Furtado, 30 mil euros, Fernando Mendes, 20 mil euros, José Carlos Malato, 20 mil euros, Maria Elisa 7 mil euros, Jorge Gabriel 18 mil euros, Sónia Araújo, 14 mil euros, João Baião, 15 mil euros, Tânia Ribas de Oliveira, 10 mil euros ou Sílvia Alberto, 15 mil euros. Acresce dizer que estes e outros senhores da estação pública não sofreram a redução do ordenado quando, em Janeiro, esse bicho que dá pelo nome de filósofo grego se lembrou de dar uma ripada nos ordenados. Era esperado que antes de cortar desalmadamente, o Governo tivesse considerado estes casos antes. Diz que vai ser agora. Veremos.
Também no Delito de Opinião.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Entregar neste blogue sff
Perdi a minha vontade de escrever-me e tenho saudades dos textos longos de palavras desenhadas e sentidas. Agora há raiva. Há fúria. Há ressentimento. Um muro de incertezas entre mim e a vida e eu que me perdi pelo caminho.
domingo, 23 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Legalidade e ética
O Primeiro Ministro Passos Coelho, esse mesmo que vai extirpar alguns portugueses de um vida condigna por uns anos, atribuiu subsídio de alojamento a nove governantes por não terem “residência permanente na cidade de Lisboa ou numa área circundante de 100 km. Acontece que Miguel Macedo, segundo o que se diz aqui e aqui, tem casa própria em Algés e é nela que habita durante a semana. Levantada a polémica a assessoria do Ministro diz que a atribuição do subsídio é legal. Nada de novo, isso sabemos nós. O que sabemos também é que legal não significa eticamente correcto e que, nos tempos que correm e em qualquer outros, o Ministro está a fazer o que muitos outros fizeram antes dele e que contribuiu para este estado misérável de coisas: aproveitar-se indecentemente do Estado, de todos nós, do nosso dinheiro. O que se exige numa altura destas é que Passos Coelho faça o seu trabalho, respeitando tudo e todos e acabe com isto. Já.
Nós também estamos muito chateados, Sr. Ministro.
Também no Delito de Opinião
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (3)
Dia inteiro na escola. Aulas das oito e meia à uma e meia. Outro trabalho em mãos das três às seis e meia e três horas e meia perdidas num ficheiro informático que fiz o favor de não gravar não me deixaram na mais optimista das criaturas. Espero que a noite de sono me reponha os níveis desejados de optimismo. Só assim conseguirei.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Conclusões
Desde o tempo do cavaquismo que não andava tão politicamente furiosa.
They laugh
Estantes e gavetas:
ai portugal portugal,
com mundo dentro
domingo, 16 de outubro de 2011
Os professores
"O mundo não nasceu
connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os
sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente;
depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por
fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o
suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os
professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu.
Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da
nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.
O material que é trabalhado pelos
professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com
suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos
assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os
professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo,
com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que
aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que
acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse
material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos
professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.
Basta um esforço mínimo da
memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto
devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes
muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é
transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores,
os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de
trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual
ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram
há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais
aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se.
Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma
palavra que tendemos a esquecer.
Um ataque contra os professores é
sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os
professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar
forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência,
mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que
todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da
sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo
que ainda respire, já morreu.
Envergonhem-se aqueles que dizem
ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena
lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para
ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue
atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o
mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o
entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas
teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo,
sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que
existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar.
Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão
que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que
disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não
possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.
Recusar a educação é recusar o
desenvolvimento.
Se nos conseguirem convencer a
desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não
será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão
fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a
capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos
pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a
lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os
professores. Tenho esperança."
José Luís Peixoto, "Visão", 13/10/2011
sábado, 15 de outubro de 2011
Adeus, sapatos novos. Au Revoir, casacos e camisolas. Auf Wiedersehen, colares e anéis!
O meu boicote pessoal e privado. Estão a ver aquelas coisitas que podíamos comprar, de que não precisamos mas que fazem uma mulher feliz, tipo roupa e sapatos e que são capazes de ajudar numa ínfima parte a que este país não morra? É que a partir de agora já eram. O meu guito não levam. Tenho roupa e sapatos que chegam para uns tempos. Amor com amor se paga. Adeus.
Uns e os outros
Se és funcionário público, és um merdoso manga-de-alpaca, proxeneta de todos os trabalhadores honestos e cumpridores deste país. Não fazes nada, faltas sempre que podes, recorres a atestados médicos falsos, tens regalias sem limites, vais passar férias para as Caraíbas com o dinheiro do vizinho, tens casas, carros, telemóveis, ganhas acima da média e, mau, funcionário mau e ranhoso, filho da puta mor, culpado de todos os males deste país, tens o que mereces agora. Se te reduzem o salário é porque o mereces, se te roubam o subsídio de férias e subsídio de natal por tempo que se prevê indefinido, é bem feito. Querias o quê, ó chulo de merda? Não interessa que tenhas filhos ou compromissos, sim quem te mandou, ó presunçoso projecto de gente que ainda tem o topete e a ousadia de ter vida como os outros? Reduz-te à tua insignificância de capacho onde a elite produtora deste país limpa os cumpridores pés.
Se trabalhas para o privado, és um lindo cumpridor, chegas a horas, um modelo de pontualidade e eficiência, não vais para o Facebook e blogues em tempo de trabalho, arfas e abanas o rabo à passagem do chefe, trabalhas com afinco e empenho, és eficiente e produtivo, ajudas e participas na construção deste país, não vives acima das tuas possibilidades, carregas contigo um velho telemóvel dos anos 90, e és tu, meu lindo menino, coisinha linda da mãe, ó minha fofurinha eficaz, séria e competente, que estás a levar o país para a frente e a acarretar com essa massa indigna e rasteira de funcionários públicos, os tais que merecem tudo o que têm e ainda mais.
E no meio destes dois não há mais nada. É fácil conclui-lo pelas caixas de comentários deste blogue. Lamentavelmente.
Também no Delito de Opinião.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Post sem eufemismos - parte 2
Puta que os pariu a todos.
Remate de uma noite de merda
Comer dois scones com manteiga e doce para afogar as mágoas e ir para a cama para não dizer mais disparates.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Post sem eufemismos
Ai que estou tão fodida.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Champions League
terça-feira, 4 de outubro de 2011
'Coisas' que se encontram quando se vai fazer a cama
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (2)
São vinte e duas e cinquenta e seis e acabei agora o meu dia de trabalho.
Estantes e gavetas:
muro das lamentações,
ossos do ofício
domingo, 2 de outubro de 2011
Lixo Extraordinário
sábado, 1 de outubro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Adjectivos, depressa!
Se alguém estiver em posse de adjectivos fortes, sem eufemismos e bem expressivos, é favor entregá-los ao Ministro Nuno Crato e a este Governo. Digam que vão da minha parte. E avisem-nos que é feio, muito feio, criar expectativas e a quarenta e oito horas do Dia do Diploma falhar redondamente ao compromisso. É muito tranquilizante saber que o Estado não é uma pessoa de bem e que está parco em valores e palavra. E por favor, poupem-me ao discurso de que o país não pode, blá blá blá, que estamos pobrezinhos, que sim, a economia, os mercados, e o diabo a sete e de uma vez por todas levantem os rabos do encosto cómodo que não lhes permite vislumbrar os dois milhões de pobres que existem neste país. Quinhentos euros podem fazer a diferença. Tenho a certeza de que fariam.
Também no Delito de Opinião
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
domingo, 25 de setembro de 2011
Apetites
Nunca me tinha acontecido.
Aconteceu-me um destes dias enquanto andava displicente de cabeça no ar,
admirando salas e pormenores como se fosse a vez primeira que punha pé ali
dentro e me aventurava além das fachadas imponentes, as mesmas que me
acompanham há décadas, cobertas de neblina, tão góticas e tão misteriosas e adentrava torreões e claustros prenhes de santos monumentais em esgares místicos. Assim,
de repente, vindo do nada, e sei que foi enquanto andava mesmo de cabeça no ar,
a vertigem breve da admiração de sempre Mas
como? Como é que aqueles gajos naquela altura fizeram isto? pensamento recorrente
sempre que me encontro com obras além do seu tempo. E terá sido aí que me
apeteceu um livro. Apeteceu-me um livro como apetece uma peça de fruta lustrosa
e voluptuosa, um naco de bolo de chocolate húmido, um copo de vinho tinto degustado
à lareira em dias de invernia, e apeteceu-me tanto. Devorar palavras, galgar
páginas, deglutir vírgulas e pontos e sentar-me depois tranquila e digerir o prazer de
palavras e mundos. Era um vez uma vez um rei que fez promessa de levantar um
convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez.
sábado, 24 de setembro de 2011
Book fresheners
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Missão cumprida
Primeira semana de aulas concluída.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
O que farei com estes 30 cêntimos?
Ainda a saga dos manuais escolares: Para as famílias do escalão 1 do abono de família, a comparticipação sobe entre 30 e 50 cêntimos no 1.º ciclo; 1,5 euros no 2.ºciclo; dois euros no 3.º ciclo e 70 cêntimos no secundário. Fiquei atónita com tamanha generosidade. Vejam lá, agora que estão cheios de dinheiro, não vão fazer férias para as Caraíbas.
também no Delito de Opinião
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (1)
O ecrã do meu computador pifou. Andava a fazer uns barulhinhos, assim uma patanisca fininha, e agora à tarde, enquanto deixei o computador a fazer actualizações, entregou-se sem piedade desta pobre desvalida ao mundo das trevas. Está mais negro que noite lua nova. Malvado. Traidor. Logo agora.
domingo, 18 de setembro de 2011
Straight from the heart
Era rebelde. Quando queria era doce e educado mas quando
estava virado do avesso com uma vida que nem sempre lhe sorria tinha um feitio
difícil e irascível que me levou a pô-lo na rua e a mandar chamar a mãe. No ano
passado não conseguiu entrar na faculdade. Mandou-me uma mensagem a dar conta
do acontecimento. Estava triste e cabisbaixo. Eu sabia que ter ficado para trás
em relação aos colegas lhe teria deixado marcas, é orgulhoso e não gosta de
perder. Este ano passei a vê-lo com frequência na escola. Preparava-se para
melhorar as notas e apesar de nem sempre ter aproveitado o que a escola tinha
para lhe oferecer, inquieto e revoltado com a vida que lhe passara uma
rasteira, estava agora mais adulto e quase parecia apaziguado com as feridas.
Nunca falámos sobre elas. Ele sabia que eu sabia, mas com o respeito que me
merecem todos os que preferem devotar-se ao silêncio em momentos lunares, havia
um entendimento sem palavras, assim como só os homens sabem fazer. E mandou-me
uma mensagem há pouco. Respeitoso e feliz, cumpria o que me havia prometido o
ano passado. Tinha entrado desta vez. E fiquei feliz. Que mais pode um
professor desejar?
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Movimento Verde
Eis que se abre uma excepção neste blogue cuja dona tem como cor preferida o vermelho. Falo do Verde Movimento. Ora espreitem aqui e já agora o perfil no Facebook.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Vida de professor
Desde que regresso ao trabalho e ainda mesmo antes das aulas começarem, passo o dia a fazer 'coisas', a preencher formulários, escrever papéis, avaliar isto aquilo e aqueloutro, que obsessão, meus deuses, esta de avaliar até o ar que respiramos e que me sufoca, cumprir desígnios sabe-se lá de quem e para quê. Em suma passo o dia a fazer merdas, que me desculpem os mais sensíveis e os que acham que tais palavras não devem sair da boca de um professor, mas assim é. Merdas que na prática não servem para nada se não para acumular resmas de papéis inócuos e que me roubam tempo e espaço para o que gosto de fazer e para o que devo fazer. Assim não vamos longe. Enquanto não admitirem isso passaremos o dia a fazer merdas.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Devaneios terapêuticos
Enquanto o povo estrebucha com os cortes de tudo e mais alguma coisa, exactamente no dia em que se soube um filho vale a generosa quantia de uma dúzia de euros quando chegar a altura de nos levarem o subsídio de Natal, mantenho-me estupidamente a tentar pensar noutras coisas. Se assim não for não chegarei sã ao Natal e não tenho dinheiro para gastar com maleitas da alma que eu própria poderei evitar se inverter a tendência suicida de ter pensamentos catastrofistas e derrotistas e outras coisas mais em -istas. Neste meu devaneio terapêutico arredo furiosamente a hipótese de uma ilha tropical, na verdade nunca foi possibilidade mas apetece-me dizer isto, e entretenho-me a pensar na tentação imensa desta rentrée – odeio esta palavra- literária. Este mês de Setembro faz-me ter vontade de um Outono aconchegado, refastelada no sofá, enquanto não tenho de o penhorar para pagar a luz e a água, e rodeada das novidades. Ah, as novidades! Perdoem-me esta exclamação inflamada mas eu sou rapariga que gosta de novidades, desde que não seja o Vítor Gaspar a dar-mas evidentemente. E o que vem aí é muito tentador. Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe que se converteu às maiúsculas, logo agora que já me tinha habituado às minúsculas e José Luís Peixoto andarão por aí a espalhar a palavra escrita aos leitores com títulos muito sugestivos, Quando o Diabo Reza, O Filho de Mil Homens e Abraço respectivamente. Sairá ainda Comissão das Lágrimas de António Lobo Antunes e Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo que me deixou curiosa. Isto para não falar de mais um livro de contos de José Eduardo Agualusa. Nos escaparates dos livreiros, sim, também gosto de acalentar esta ideia peregrina de que há livrarias à antiga com estantes de madeira até ao tecto e silêncios apenas entrecortados com o restolhar dos casacos e o virar das páginas, brilharão as capas novinhas em folha ainda perfumadas de tinta. Haverá melhor? Dream on.
Imagem: Quint Buchholz
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Como os gatos
Entrou em casa com o ar aflito de
sempre, os olhos de misericórdia que nos levaram à certa quando já tínhamos
decidido que duas gatas era lotação esgotada nesta casa, miou com a voz de
sempre, de menina desamparada à procura de protecção, e depois de ter bebido
água e comido um biscoito, decidiu que hoje havia de mudar de poiso. Que não se
pensasse que ficaria para sempre confinada ao espaço de quase reclusão que
escolheu quando a Julieta aqui chegou e começou a ter focinho empinado. Durante
a manhã já havia prometido e em vez do canto reservado do olhar de todos, um
verdadeiro abrigo contra intrusos e outros chatos, optou pelo sofá. Agora mesmo
está ali sentada num cadeirão encostada à gata mãe que apesar de muito refilona
tem paciência. Há sítios mais cómodos, mas nenhum lhe pareceu tão apetecível
como aquele, encostada à mãe, negociando mais um pedaço da almofada laranja, conquistando território. E é isso que gosto nos gatos. A inconstância após longos períodos de hábitos instalados, a mudança
inesperada, exactamente na medida dos seus humores repentinos, Agora já não quero isto, uma existência
verdadeiramente livre dos constrangimentos do social, Não, não vou ronronar, dos embaraços das ofensas
bacocas Desculpa lá não me ter sentado ao
teu lado, Desculpa lá hoje
apetecer-me outra coisa. Esta forma tão própria de ser, de não querer saber e afirmar-se em tudo. A inveja de também eu sentada no sofá poder entregar-me ao pecado sem culpa de ser apenas eu. Como os
gatos.
| Lolita e Guidinha |
domingo, 4 de setembro de 2011
Chegar
Chegar não é meter a chave na fechadura, largar as malas à porta de casa, abri-las e esventrá-las, desabar-se em trabalhos múltiplos de máquinas de roupa imensa para lavar e arrumar as tralhas, souvenirs e traquitanas, sacudir a areia ainda entranhada na bagagem, se o destino tiver sido de praia, ou arejar o perfume do protector solar agarrado em abraço às mais ínfimas peças de roupa, se houve exposição solar.
Chegar não é só abrir as janelas de par em par para arejar os odores acumulados. Chegar não é descarregar as fotografias para o computador, mostrá-las aos amigos, enviar uma ou outra por e-mail. Chegar não é apenas contar as peripécias da estadia órfã de trabalho e trabalhos, sem horários a cumprir, maldizer o guia de viagem, se guia de viagem houve, blasfemar contra a carestia de vida a sul ou a norte, injuriar a água porque estava muito fria ou elogiá-la porque estava muito quente, insultar o mar porque estava muito bravo ou muito manso, maltratar a nortada que leva tudo pelos ares. Chegar não é a nostalgia do que se deixou, a depressão pós-férias ou pré-trabalho, mistérios incompreensíveis da pressa de catalogar estados de alma cinzentos.
Chegar é o doce sentimento de entrar por uma vida que nos espera vindos de uma que não se esgotou nos momentos efémeros de prazer e que reviverá, por certo, em palavras escritas, impressões trocadas com cheiro a maresia e a clorofila. Chegar é abrir portadas e janelas e cumprimentar os vizinhos, fazer festas ao cão Cãozinho lindo, tiveste saudades minhas? Abafar as gatas com festas Quem é a gatinha da dona, quem é? E depois calçar os chinelos e sair pela porta de trás. Descalçá-los de novo e assentar a planta dos pés sobre a relva, dar uma olhadela na passiflora Como cresceu! Seguir a ronda pelo maçaroco Dará mais flor este ano? E rumar à gardénia, espera-se ainda viçosa e perfumada. E chegar é espreitar o mar lá ao fundo, uma tarja brilhante, uma língua prateada ainda mais flamejante em tempos de Verão final, partilhar um gin tónico na quietude do dia salpicado de palavras e silêncios. Reencontrar os livros, pôr em dia leituras ocasionais e deambular sem destino fixo entre lombadas expectantes. Chegar é retomar a vida que se deixou antes de partir e transformá-la numa vida nova, uma sucessão de chegadas e partidas, um movimento pendular entre o ir e o vir, chegar e partir. Chegar é pertencer.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Tu e eu
Sentada no sofá, no mesmo sofá em que soube que jamais serias o mesmo e o corpo te havia traído, encostei a cabeça. Naquele dia também o terei feito incrédula, disparando perguntas que não me sabiam responder. Hoje não havia perguntas. Era uma sexta-feira de Abril, o dia estava cinzento, eu não tinha aulas e deixei a alma e o corpo resvalar na indolência de nada fazer. Um luxo. Um luxo verdadeiro na ligeireza de mais um dia tranquilo. Ligo a televisão.
E encostei a cabeça. Uma lágrima estúpida. Que parvoíce, penso. Que disparate tão grande. A chorar para a televisão. Sacudo a lágrima. Vou até à porta como se enxotasse a dor e varresse porta fora a saudade súbita que me entrou de repente, tão inesperada e imprevisível. Que estúpida, penso, a chorar para a televisão. Sento-me de novo. Talvez a ida breve à porta para respirar o ar cinzento e húmido me tivesse chamado à razão. Espantado a dor, apagado por instantes esta memória que me apanha sempre de surpresa. Esperança vã. Sento-me e choro. Soluços. O coração em solavancos. Atento na transmissão televisiva. A noiva sobe agora a igreja com o pai e aquele pai e aquela noiva, sou eu e tu, Papá. Sou eu e tu que caminhamos lado a lado, és tu que sorris em volta, é o teu braço quente que sinto ainda, a tua presença tão forte, meu querido pai, o teu sorriso tão feliz. Aquele pai e aquela noiva, sou eu e tu, Papá. Serei sempre eu e tu. Seremos sempre nós.
Ao meu pai. No dia em que o sofá ficou para sempre vazio.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (6)
E no último dia o sol brilhava sobre o Moscovo, estava aberto e não havia fila. Uma última manhã e uma última oportunidade. Diz Kaminer mais uma vez que só os estrangeiros lá vão. Os holandeses também dizem o mesmo dos coffee shops e outros povos dirão o mesmo dos que lhes provoca embaraço ou desconforto. À minha frente estava a oportunidade de ver o morto mais famoso do planeta, aquele que é levado para que lhe façam a manutenção, pobre Wladimir, nada como tinha desejado, e que também já foi objecto de controvérsia. A última vez que vi um morto assim venerado, mas por outras razões milagreiras, foi a Santa Maria Adelaide, uma vez que a minha avó paterna se cobriu de fervores religiosos, mas não me consta que lhe façam manutenção, pobre mulher. Seria rápido, estar na fila para ver mortos nunca foi meu lema e mataria -verbo curioso, logo aqui - de uma vez alguma curiosidade mórbida. Sim, é verdade. Malas, carteiras, máquinas fotográficas e telemóveis extirpados dos visitantes e eis que me vou aproximando do lado de dentro dos muros do Kremlin, lá onde via desfilar as paradas a preto e branco encimadas por Brejnev e outros camaradas. A memória colectiva de que sou feita. Instantâneos da História. O mausoléu é um monstro de basalto negro no interior e que tem a capacidade de nos fazer sentir pequenos, mínimos, assim que descemos as escadas. E ei-lo. Iluminado no centro da sala, o boneco de cera mais famoso do mundo: Vladimir Ilitch Lenin. Alguém achará que ali ainda está o homem? Saio do mausoléu e entretenho-me a ver as pedras tumulares dos falecidos, um esforço sobre humano, este de decifrar o cirílico, um enigma que ao longo dos dias se foi desvendando e que alimenta a aura de uma cidade que não se deixa possuir, orgulhosa e imponente.
E está sol. A Catedral de São Basílio em contra luz, é quase meio-dia, e os turistas juntam-se em busca do ângulo certo, é sempre assim no mundo. Saio pela mesmíssima Porta por onde terei entrado há uns dias atrás. Há bancas de matrioskas e chapéus de pêlo. Experimento um vermelho, giro e exótico, e penso, Mas onde é que eu vou com isto? O rapaz que os vende arranha inglês, pergunta-me a nacionalidade e solta umas palavras em português. Igual, afinal, igual a todos os comerciantes do mundo.
E está sol. A Catedral de São Basílio em contra luz, é quase meio-dia, e os turistas juntam-se em busca do ângulo certo, é sempre assim no mundo. Saio pela mesmíssima Porta por onde terei entrado há uns dias atrás. Há bancas de matrioskas e chapéus de pêlo. Experimento um vermelho, giro e exótico, e penso, Mas onde é que eu vou com isto? O rapaz que os vende arranha inglês, pergunta-me a nacionalidade e solta umas palavras em português. Igual, afinal, igual a todos os comerciantes do mundo.
E digo adeus a Moscovo. Irei voltar?
fotografia minha
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vêm aí os russos
sábado, 27 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (5)
Foi acaso puro o que naquele dia de Dezembro gélido me levou a estar frente a frente com os frescos na Karlskirche em Viena. A igreja estava a ser restaurada e havia andaimes. Podia chegar-se bem perto, ver com outra acuidade. Esta subida aos céus, entre anjos e a mãe de Cristo, deixou-me inquieta. Havia algo de sensual naquelas imagens que se queriam bentas, talvez por serem gorduchas, a antítese da imagem quase assexuada que fazem passar de expressões sempre piedosas e infelizes. Em Moscovo não precisamos de subir aos céus para nos deixarmos surpreender. Ao contrário de muitos outros sítios, em Moscovo há que descer às profundezas e adentrar as entranhas da cidade. Lá onde o povo segue as suas vidinhas, iguais a todos as outras, longe da luz e do sol, onde todos podem usufruir da arte e do sublime. E contudo tão assombrosamente belo. O Metro, pois claro. O Metro de Moscovo é um daqueles lugares que devíamos ver uma vez na vida. Mandado construir por Stalin, foi inaugurado em 1935 e ultrapassa tudo o que por aqui se poderá dizer. Há lustres, painéis de azulejos e vitrais, abóbadas trabalhadas, tectos com medalhões, estátuas. Já estive em museus mais feios e com mais fama. E eles lá passam, os russos, ensimesmados com as suas interrogações. Tê-las-ão? Lá andam nas suas vidinhas, passando para cá e para lá com um destino definido. Indiferentes. Nem um olhar sequer. Aqui é muito fácil detectar os estrangeiros. Viram as cabeças para o ar, fazem voltas de trezentos e sessenta graus, e deixam cair o queixo literalmente, uns convictamente de máquina fotográfica em punho, outros com elas esquecida, como um pedaço inútil que lhes cai do braço. Impossível abarcar tanta sumptuosidade. Quanta beleza. Mas não para os moscovitas. Não querem saber da Kievskaya. Caminham sem um olhar na Mayakoskaya e a mantêm as carrancas inexpressivas na Novoslobodsakaya. Abrem apenas uma excepção para os cães da Ploshchad Revolyutsii. Dizem que dá sorte fazer uma festa no focinho dos cães de bronze que acompanham as estátuas do povo soviético ali retratado. Eles cumprem, quem diria, e os focinhos estão reluzentes. Por via das dúvidas também eu fui lá dar uma afagadela, gosto de cães, até dos de bronze, isto na impossibilidade de me ter alongado horas perdidas de estação em estação, tanta harmonia, quase apetece dançar uma valsa na Komsomolskaya. Belo. Belo. Belo. Tudo ao nosso alcance, apenas com um simples bilhete de metro, tão barato e tão para todos. Muito bem. Estes russos não param de me surpreender.
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vêm aí os russos
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (4)
Diz Wladimir Kaminer no seu último livro Meine russischen Nachbarn, ‘Os meus vizinhos russos’, infelizmente não traduzido para Português, que eles, os moscovitas, podem ser simpáticos, educados e inteligentes. Só não podem sê-lo todos os dias. Naquele dia não era o dia. Talvez no dia seguinte ou no anterior. Aquele não. Quando me dirigi ao balcão que indicava em parangonas, também em Inglês Turismo da Cidade de Moscovo, a russa do lado de lá, loura e de olhos cristalinos, espetou-mos como uma farpa. Arranhando um inglês bárbaro, mostrou-se indisponível assim que lhe estendi o mapa para que me indicasse algo. Não podia, agora não. Irritada perguntei-lhe se não era o turismo da cidade de Moscovo. Que sim, blá blá blá. Que eu fosse à recepção. Enquanto isto e depois dos episódios anteriores arranquei-lhe o mapa das mãos, furiosa quase irada, e fui à minha vida assustada. Estaria a ficar como eles do convívio? Nem eu me reconhecia. Kaminer também diz que queixar-se de Moscovo tem uma grande tradição e que entretanto se tornou numa evidência. Ele lá saberá. O escritor entretanto de nacionalidade alemã mas russo de nascimento, foi para Berlim no início dos anos 90 e lá ficou a contar as suas histórias na cidade alemã. Sabe bem do que fala.
A vida moscovita também é feita de prazeres. Passear no GUM é um prazer. Aos fins-de-semana, os moscovitas, neste aspecto tão parecidinhos com uma certa camada de lisboetas, rumam ao Centro Comercial. Não que não o frequentem durante a semana mas ao fim-de-semana é muito concorrido. O GUM não é apenas um centro comercial, dir-me-ão. Certo. Centro comercial fica numa outra praça ali bem perto num espaço subterrâneo e tem detector de metais à porta. Que encorajador. Construído nos anos vinte do século passado, o GUM é deslumbrante e luminoso. Faz lembrar uma estação de comboios com os tectos abobados e translúcidos. Surpreendente que num país que se queria comunista houvesse a preocupação deste fausto, sendo o mesmo válido para o Metro. O povo merecia o melhor. Pena que o ideal se tivesse desvanecido com o tempo. Os moscovitas aproveitam o GUM para várias coisas, fazer compras é uma delas, assim haja rublos que aguentem, a outra tirar fotografias ao lado de um carro de alta cilindrada ou lá o que era que estava em exposição lá dentro, coisa mais disparatada, e a outra deixar-se fotografar em poses várias, de preferência nas pontes que unem os vários corredores quase em mezanine. Muitos levam fotógrafo, par, ramos de flores e desabrocham em caras e carinhas, sorrisos não, as mulheres exibem as suas poses mais sensuais como se quisessem seduzir a máquina fotográfica e em qualquer momento lhes lambessem a lente. Tudo devidamente registado para mais tarde recordar. E casamentos. Depois de um breve périplo pela Praça Vermelha para a fotografia da praxe há que rumar ao GUM para se deixar fotografar, noivo, noiva e convidados num número nunca superior a cinco, com a Dior lá no fundo, a Furla, ajudem-me que sou pouco entendida nessas marcas da moda. Sim, os russos gostam da moda, do fausto, da afirmação e da ostentação. Quem diria que poderiam afinal ser parecidos com os portugueses.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (3)
Estava sol, dizia eu, e a primeira vez que pus o pé na Praça Vermelha, senti a natural felicidade que os turistas encontram quando finalmente se vêem frente a frente com os seus objectos de amor ou de desejo. Podem ser praças, estátuas, quadros, monumentos ou pedaços seja do que for desde que no seu universo de gente inquieta funcionem com um íman que geralmente arrecadam com convicção em pedacinhos de papel brilhante ou ficheiros em cartões de memória. A Praça Vermelha funcionava como um íman. A Praça Vermelha e a Catedral de São Basílio. Saídos do metro foi só virar à esquerda, felizmente desta vez mantivemos as bocas fechadas e seguimos o mapa, não fossem descompor-nos logo no primeiro dia. E sim, a Praça Vermelha é a Praça Vermelha. Imensa e imponente, ladeada pelo Kremlin e pelo GUM, os anteriores Armazéns do Povo. Estonteante e contraditório. Belíssimo. Impossível não gostar. Do lado direito o Museu da Cidade, um lindíssimo edifício em tijolo vermelho, não é daí que advém o nome da Praça, e do outro lado, uma igreja muito pequena mas venerada por quem passava à porta. Com três dedos os russos faziam o sinal da cruz mesmo sem entrar na igreja. Beatões, portanto, muito religiosos. Há que compensar o tempo perdido do materialismo soviético. Entrei na igreja, de cabeça coberta, esta que vos escreve é desbocada mas respeitadora, e pasmei com a beleza dos ícons e pinturas douradas bizantinas. Havia de me acontecer o mesmo no Kremlin. Um espanto completo, não que a religião me esmague, não me esmaga nunca, mas a arte bizantina é estranhamente acolhedora. Não há estátuas de santos condoídos, imagens terríveis de sofrimento , esgares de dor ou fervores mistícos a que as igrejas católicas me habituaram. Os serviços religiosos nas igrejas ortodoxas são sempre de pé, provações que os bentos e crentes terão de passar, se o forem verdadeiramente, e as mulheres têm sempre a cabeça coberta. E era quase Páscoa. As igrejas tinham muita gente. Que beatos, estes russos. Curioso, penso quando ponho pé na rua e respiro o ar refrescante desta manhã de sol moscovita. Mas voltando atrás. A Catedral de Kazan alberga o ícone da Nossa Senhora de Kazan e é uma das mais importantes igrejas na Rússia e esteve ali desde o século XVII até aos anos trinta do século passado. Algures por essa altura, Stalin, esse rapaz que não era russo mas era soviético, precisava de espaço para os desfiles militares. A Catedral estava-lhe no caminho, uma maçada, a Catedral e as portas por onde tínhamos entrado, a Porta da Ressurreição. E que outra solução se não demolir? Só nos anos 90 os moscovitas voltariam a ver a Catedral na Praça Vermelha. Não admira pois a devoção. Aqui e em todo o lado, pela mesma razão: os anos 90. A mesma sorte de negregura e ressurreição teve a Igreja de Cristo Salvador. Uma igreja branca enorme de cúpulas douradas fulgurantes. Avista-se à distância em alguns pontos da cidade e foi reconstruída de raiz com o dinheiro do povo. Também. Monumental mas demasiado estridente para o meu gosto ou não fosse obra de Zurab Tsereteli, o controverso arquitecto que parece viver à margem do 'less is more'. Por dentro e por fora a igreja impõe-se demasiado. Esteve a mais também. Depois da morte de Lenine iria ser erigido ali o Palácio dos Sovietes, justamente naquele lugar, exactamente naquele sítio. Uma pena a igreja estar no caminho.Teve azar, portanto, a igreja original construída no Século XIX como agradecimento por Napoleão se ter retirado e esperou-lhe a mesma sorte que a Catedral de Kazan e a Porta da Ressurreição. Saiam-me da frente. Igrejas, pessoas, monumentos. É surpreendente que a Catedral de São Basílio tenha sobrevivido a estes ímpetos. Safou-se por pouco, sabe-se. E se o destino a tivesse trucidado, os russos modernos te-la-iam erigido dos escombros em busca dos seu passado. Ai, os russos, os russos.
Catedral de Kazan.
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vêm aí os russos
Vêm aí os russos (2)
A manhã estava agradável. Céu azul, não muito frio, nada que um cachecol e umas luvas não resolvessem, mas os russos não são rapazes que se deixem impressionar pelo sol e céu azul. Colhi esta impressão logo pela fresca, quando decidi dar um salto à Praça Vermelha. Não era longe, tinha lido, umas três ou quatro estações de metro, uns quinze minutos de viagem. A Partizanskaya não é a mais bela das estações de metro, uns dias à frente perceberia na plenitude por que é que o Metro de Moscovo é tão famoso, mas era monumental e grandiosa e reparei, quando desci pelas escadas, que tinham deixado cravos vermelhos nas estátuas erigidas aos soviéticos que resistiram aos nazis. Afinal têm coração, os russos. Terão sorrido? A mulher que estava a vender bilhetes nesta estação não sorria. Era cedo e estava uma manhã bonita, mas ela permanecia carrancuda lá no casinhoto escondido e quando os três espanhóis à minha frente, duas mulheres e um homem, pediram bilhetes, ela desabou em ira. Gritos, raiva, esbracejar. Os pobres espanhóis pareciam cada vez mais pequenos e atarracados perante a explosão de fúria da mulher que usava uma bata de empregada doméstica. Atrás de mim, alguém se impacientava e depois de vociferar algo, fugiu para outro guichet. Bem-dispostos e pacientes. Quando chegou a minha vez, usei da táctica já usada no dia anterior no restaurante e com os dedos indiquei o número de bilhetes. Nem bom dia nem sorriso. Nem obrigada nem por favor, das poucas palavra em russo que tinha treinado em casa. Conseguimos. Há que ser bruto portanto. Quando cheguei à Ploshchad Revolyutsii ia cansada do episódio matinal, tanta ira e impaciência, e pensei que raio de gente, sim que raio de gente aquela.
Pensei isto outra vez numa outra manhã. Desta vez não foi no metro. Desta vez meteu-se-me na cabeça que para vencer distâncias talvez não fosse má ideia ir de autocarro. Saquei do inefável Top10 Moscow e confirmei, sim, ali, na parte de baixo da Catedral de São Basílio, antes da ponte, passava o autocarro que nos levaria ao destino, desta vez sem estação de metro perto. Chega o autocarro. Uma carripana velha com um homem magro e seco de cabelo grisalho ao volante. Estendemos-lhe o dinheiro e eis que irrompe num episódio de ódio sem precedentes. Mais vociferar, mais berrar, mais esbracejar. Uma verdadeira sorte não perceber russo, o que não sabemos não nos pode magoar, mas pressenti que não nos estivesse a elogiar, sim, que manias tinham os estrangeiros de visitar Moscovo. Depois de lhe darmos mais dinheiro, o ser vociferante e irado calou-se. Quanto ódio. Tanta ira até lhe faz mal. Os russos não gostam de estrangeiros. Nem de manhãs.
Partizansakaya.
fotografia minha
Estantes e gavetas:
com mundo dentro,
vêm aí os russos
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (1)
Os russos, querida Io, os russos.
Da janela do avião avisto as palavras inconfundíveis como um frenesi inesperado, uma pequena centelha no coração, o passado que nos cutuca. As palavras que durante a minha puberdade e adolescência apareciam amiúde na televisão a preto e branco, sempre a preto e branco, lia-as agora ao vivo, mas não a cores, um manto cinzento cobria o céu sobre Moscovo indiferente às palavras da adolescência e ao pequeno frenesi de mais uma vez me encontrar com a memória e cumprir um desejo antigo. Москва. Seguindo fielmente as indicações de sites e livros, guias e outros pedaços de escrita, reservámos pela net um táxi. Do lado esperava-nos um homem jovem, talvez nos quarenta, com um cartaz com o meu nome. Cumpridas as formalidades, cumprimentos e boas tardes, seguiu à nossa frente, impávido, sem um sorriso ou algo que pudesse indiciar, sei lá, como lhe chamar, um contacto amistoso, o sorriso tão comum entre outros povos deste mundo em ebulição. Nada fez mover o russo. Uma verdadeira parede de aço. Nem sequer um gesto cordial para ajudar nas malas. Não que fosse antipático ou grosseiro, não, ainda não. Uma total ausência de emoção, de sentir, de tudo o que tivesse a ver com a parte sensorial da vida, os músculos da cara hirtos, não sei se também o coração. A russa seguinte com a qual contactei, era uma mulher pequena, algures nos cinquenta anos, de olhos azuis e cabelo louro e não falava uma única palavra de Inglês. O facto de se estar numa zona turística, com alguns hotéis em volta, tão soviéticos como soviético se pode ser, ou não tivessem sido erigidos para albergar os atletas das Olimpíadas de 1980, as tais em que o Mischa foi estrela. Ao entrar no restaurante e meter a cabeça perguntei Do you speak English? A mulher sorriu, uma lança em África tendo em conta o russo anterior, a parede de aço impassível durante quase duas horas pelos arrabaldes de Moscovo, e respondeu No English. English Menu! Pronto estava safa. Quando veio o "English Menu", apenas uma parte estava traduzida e como! Portanto restava-nos um ou dois pratos de galinha, salmão e pouco mais. O sítio era aprazível, pequeno, cheio de fumo, essas modernices da Europa ainda não chegaram à Rússia, com mesas de madeira e um ambiente acolhedor. A língua não era problema ali. Bastava-nos um sorriso, o dedo indicador sobre o palavreado que nos iria saciar a fome depois da viagem longa, e mais dedos para indicar a quantidade, um, dois, três. Havíamos de voltar.
fotografia minha
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Oitenta páginas depois...
acabei a minha avaliação. Não vou ser melhor profissional, não vou ser promovida, não vou aprender nada, nem sequer uma palmadinha nas costas, uma festa no cachaço ou um biscoito crocante delicioso Good, good girl! Nicles. Não vou receber mais. Zero. Dias perdidos apenas em gabarolices estéreis. E uma frustração. Uma enorme frustração de ter estado a trabalhar para coisa nenhuma. Horas perdidas. Tempo estúpido.
O meu vizinho, o copromanta
Os livros, ah os livros! Companheiros de jornada e deslindadores de mistérios, chaves para os enigmas do mundo. Penso nisto enquanto saio de casa e a presença daquele monstro que vem despejar a fossa se me atravessa ao caminho e cumpre a função para que foi chamada: esvazia a caca da vizinhança. Vou pensando que terá sido feito dele. Vivia algures lá na outra aldeia que me acolheu madrasta durante um ano mal medido, tempo a mais para sítios hostis, e de vez em quando avistava-o da janela. Depois de dar umas voltas ao quintal de sua casa, verificando de caminho, abóboras e feijão verde, favas se fosse tempo delas e couves caso o Natal estivesse perto, parava junto à fossa. E olhava. Sendo adepta de que quanto mais se mexe na caca pior cheira, aquele comportamento permaneceu durante um tempo um enigma insondável. Que diabo. É que havia um campo em volta. Ele havia flores, silvestres e das outras, estrelícias, por exemplo dão-se muito bem por aqui, ele havia passarinhos, cães a ladrar, galinhas a cacarejar, patos a grasnar e perus, se o Natal surgia lá ao fundo na curva de Novembro. E havia o silêncio tão próprio do campo, sem carros nem trânsito, ausente dos bulícios das urbes endiabradas. E a fossa, o entretêm preferido deste peculiar habitante da aldeia. Quando vinha o homem da fossa, com a carripana para purgar o bicho, o homem observava com acuidade o processo, mantendo-se perto. Mas estava tudo lá. Naquele livro que terei comprado algures no Brasil, estava escarrapachado o deslindar do mistério, já que Jonas, a personagem principal, era um copromanta. E que será isso? Ora, um copromanta é alguém que lê o seu futuro nas próprias fezes, sim, muito nojento, mas o que era o meu vizinho se não um copromanta? Está para se saber se não lhe terá saído o Euromilhões depois da copromancia dedicada nas sucessivas observações à sua querida fossa ou se terá por estes dias um programa de televisão a adivinhar o futuro alheio. Os livros, ah os livros, dizia eu.
Estantes e gavetas:
na aldeia,
papéis pintados com tinta
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Leonor à rasca
E aqui estou numa noite de Agosto, agarrada ao computador, escrevendo, reescrevendo, apagando, cortando, acrescentando. E podia ser um texto interessante, uma historieta das que me saltam ao caminho quando estou de feição e bem-disposta. Mas não. Descodifico nacos de prosa burocrática como 'O docente revela uma atitude informada e envolve-se de forma participativa e interveniente face às políticas educativas' e pergunto-me como raio quererão eles que eu prove isto. E faço isto? E é importante para que um professor seja um bom professor: consciente, atento, competente? Escrevo pois o meu relatório de auto-avaliação, uma pérola de gabarolice, não há outra forma de o fazer, ah, boa, tão boa eu, tantas coisas que fiz, a antítese de se ser professor. Sou eu que tenho de fazer os meus alunos brilhar mas não sou que tenho de brilhar. Eles. Eles é que são o importante. Se serei melhor professora depois disto ou se terei qualquer recompensa por fazê-lo, sei que não, fá-lo-ei, contudo, linda e obediente, a abanar a cauda sem latidos nem uivos. Good good girl.
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