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sábado, 29 de dezembro de 2007

Pode

parecer que desapareci, mas não, ando só à procura de um post consentâneo e, enquanto isso, ando para cá, para lá, passo o ano em revista, as viagens que fiz - que para o ano seja igual-, os livros que li - para o ano mais-, as conquistas, o que fiz e não fiz, o que ganhei - quilos, rugas, cabelos brancos- e o que perdi - tempo e alguma inspiração para escrever alguma coisa de jeito que não isto.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

As boas festas


E agora digam-me se não tenho razão quando aviso que, se estiver doente, me levem ao veterinário em vez de ao médico? É que os médicos, mesmo depois de verem, reverem, apalparem, espreitarem, remexerem, estatelarem, amassarem, e, concomitantemente, esvaziarem a carteira, são incapazes de um singelo Boas Festas. Já o veterinário é como se vê.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A minha casinha no Natal

A minha casinha no Natal continua a ser amarela com portadas verdes. A minha casinha no Natal é igual à minha casinha dos restantes meses do ano, épocas festivas ou estação estival, apenas com mais ou menos luz, assim ordenará o astro-rei. No Natal, a minha casinha tem uma árvore de Natal, artificial, por amor ao ambiente, uma decoração pendurada à porta, duas árvores pequenas intercaladas com frutos secos, aromatizadas com paus de canela e meias rodelas de laranja seca, papel de embrulho ocasionalmente pela sala, fitas já em bouquet rotundo e farfalhudo, postais da época aqui e ali. Na minha casinha o Natal foi pautado pela tranquilidade do tempo que se quer de recolhimento, sem exuberâncias, sem corridas, sem pressas. Também por isso eu gosto muito da minha casinha, por isso e porque na minha casinha o Natal foi passado à margem do zeloso cumprimento das regras castradoras que pululam por esse país fora e isto porque a minha modesta casinha amarela de portadas verdes é zona interdita PROIBIDA A ENTRADA aos extremosos zeladores das que se dizem regras da terra dos mexilhões. Na minha casinha a cozinheira não usou touca, bateu os sonhos com as mãos depois de ter aconchegado os ingredientes com colher de pau, de resto só há colheres de pau nesta casinha amarela, o azeite para a ceia da consoada foi servido em galheteiro de vidro, o mesmo aconteceu ao vinagre já se vê, uma desgraça, portanto, e o café, já se sabe, tomado naturalmente em chávenas de porcelana. E depois se tivesse visto o primeiro-ministro ainda podia maldizê-lo, comentar as sobrancelhas excessivamente depiladas, o discurso padresco com tiques e laivos passados, aqui na minha casinha posso fazê-lo e claro, também por isso, gosto muito mas muito da minha casinha, que é a amarela, tem portadas verdes e uma porção incomensurável de liberdade lá dentro.

imagem: minha

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Os sonhos

E os sonhos de que são feitos? Penso nisso enquanto o dia se aconchega na noite e a tarja de mar prateado cintila lá longe pela janela da cozinha. Será Natal do outro lado do mar? Um tacho, claro, largo, como todos os tachos, preto e pesado, naturalmente. Um copo de leite, uma pitada de sal, uma colher bem cheia de manteiga. Manteiga, jamais margarina. Deixar ferver sob olhar vigilante. Os sonhos são caprichosos, qualquer desvio pode derrotá-los ainda meninos. Retirar do lume. Acrescentar a medida do leite em farinha. A tarja de mar desaparece-me no horizonte entretanto. Levar ao lume outra vez e envolver vigorosamente todos os ingredientes com uma colher de pau, enquanto o calor se encarrega de os ligar. Deitar para um recipiente largo e, quando começar a arrefecer, ir juntando ovos inteiros: um, dois, três, quatro, cinco, seis. Os ingredientes de que os sonhos são feitos devem abundar em quantidade e qualidade, é sabido. Escureceu de repente. Da janela da cozinha escuro apenas. Momento improvável para acalentar sonhos. Depois as mãos na massa, os sonhos que se querem sonhos querem-se batidos com o vigor da vida, amassados com as próprias mãos, já se sabe. Com perseverança, sem desistir, até chegarem ao ponto exacto, difícil de explicar na palidez do ecrã para que escrevo e na noite que ouço lá fora, silenciosa e soturna. Depois a fritura. Aquecer o óleo e ir deitando pequenas porções na fritadeira. O óleo nem muito quente nem muito frio, um dos segredos mais bem guardados. E eis que se avolumam e crescem. Os sonhos devem crescer, pois claro. Envolver com açúcar e uma quantidade muito generosa de canela. E assim são os sonhos, envolvidos com carinho, batidos com robustez e saboreados com a doçura do açúcar e o exotismo da canela. O aconchego possível para a noite imensa que se pôs lá fora.

Também no Geração Rasca

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Silencio

No silêncio

Jede Sprache hat ihr eigenes Schweigen.
Elias Canetti

O silêncio é a língua que melhor falo. Sem declinações, casos, tempos verbais, conjugações ou gramáticas espartanas. Não tem vírgulas, hífens ou apóstrofes. No silêncio não há recriminações, desconhecem-se acusações, ignoram-se lamentos. No silêncio as lágrimas correm silenciosas e mudas, não se calam à primeira ordem. No silêncio não há tons de voz estridentes ou palavras desconjuntadas, articuladas em amálgama com as lágrimas. Apenas no silêncio digo exactamente o que quero dizer.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Faltas tu

Na sala, do lado direito, a árvore voltou ao lugar de sempre. No canto, encostada à parede, como sempre. As fitas de sempre, douradas e vermelhas, apenas duas grinaldas, uma de cada, simplicidade, dizias. Estrelas douradas intercalam com as vermelhas. Um ou outro anjo, perdido no labirinto dos ramos artificialmente verdejantes e viçosos, discrepantes do azevinho lá fora no jardim, este ano tímido. Ornamentos trazidos com carinho dos mercados de Natal mais a Norte, enquanto palavras em línguas ininteligíveis se cruzavam com o perfume do Glühwein, o travo mais retemperador que os invernos austeros conhecem e as almas natalícias desejam. Os presentes quase todos comprados. As aulas que acabaram e o ano que resvala para o precipício final. Tudo se compõe neste tempo que se quer de Natal. Só faltas tu, papá.

sábado, 15 de dezembro de 2007

On my side

O tempo. Um verdadeiro luxo nos tempos contemporâneos, o luxo de poder usufruir dele, fazer com ele o que quisermos, se quisermos. Queixa-se o Pedro da falta dele mas que, não obstante, a Curva da Estrada conta com as suas visitas. Uma grande honra, naturalmente, que retribuo com a minha banda preferida de sempre. Desta vez o tempo está do meu lado.

Postal ilustrado III

Budapeste
foto: minha

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Estreia

Ei-lo na blogosfera!

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

Álvaro de Campos

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Fukitol

Aqui no Curva da Estrada, não há hipocondria. Tirando uma levíssima cefaleia, um catarro, uma miopia e uns quilos a mais, temos passado bem, obrigada. Mas nada ficou como antes, depois de termos descoberto esta pílula milagrosa que a Sinapse nos apresentou do outro lado do Atlântico. Grandes males, grandes remédios.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Ó Robinson Crusoe, isso faz-se?

O burburinho habitual antes da acalmia desejada. Que tinha sido ela. Ela o quê? Furou uma orelha na aula de Filosofia. Valha-me deus. Credo. Quando chegarem ao Nietzsche ainda me fica como o Van Gogh. Furar uma orelha? Isso faz-se? Foi ao lado de um furo que já tinha. Com um alfinete de ama. Mas que coisa. Que disparate. Atão, setora… Bem, cuidado com as brincadeiras, meninos. Faz favor de não fazer disparates e toca a desinfectar tudo como deve ser. Pois. Sabem que podem apanhar infecções. Pois. E os piercings, setora? Cuidado. Cuidado com piercings e tatugens. O pai não deixa fazer. Outra não gosta. Outra não quer. Ah pois, mas já sabem que podem apanhar doenças, nomeadamente contrair HIV, se não for feito com todas as condições de higiene. Sabemos. Juízo! Vão só a sítios de confiança. Pois. Mas, ó setora… Sim, Setora?! Sim, é que eu já ouvi dizer uma coisa. Ouvi dizer que a sida veio dos macacos. E? E… se veio dos macacos… O olhar subitamente comprometido. Que nojo, setora, só de pensar nisso… A repugnância no olhar, a cara de asco. Ca porcaria. Mas foram mutações genéticas!. Mutações genéticas? Mas se veio do macaco para o homem… E pronto, se virem por aí o imundo, nojento, porcalhão, perverso, obsceno e depravado que se foi ao macaco, façam favor de comunicar na caixa de comentários, é que há uma adolescente inquieta com esta questão de enorme importância para a humanidade. Há lá direito, logo com um macaco.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Lux facta esd

Disse José Saramago hoje à Rádio do Concelho de Mafra que aceitará, “em nome do povo de Mafra”, a Medalha de Mérito Municipal, votada em unanimidade esta sexta-feira na reunião de Câmara. O escritor adianta que “está curioso para saber qual a argumentação que a Câmara Municipal de Mafra irá utilizar para justificar a atribuição da Medalha de Mérito depois de todos estes anos de insultos”. Após catorze anos de contenda, fez-se luz no executivo camarário, a luz que tem lugar nas sociedades civilizadas, esclarecidas e tolerantes, naturalmente, motivo de enorme regozijo.


foto: minha

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Adeus

Se agora não tenho tempo para bloggar, esperem até regressarem à escola para fazer exame e alindar as estatísticas socráticas todos os que, desde de 1967, não conseguiram acabar os estudos.