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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Avisos

Amigos, comentadores, espreitadores, todos e qualquer um que aqui venham dar, este blogue mais a sua dona não fazem balanços. Passemos à fase seguinte. Diz que vem aí um ano novo a estrear. Até lá:

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Gatos e homens


Foi a segunda vez que me visitou. Hoje passeando-se pela manhã de sol de Inverno, anunciou-se do outro lado da casa onde o sol não bate nos dias de equinócio e o meu pai renasce no azevinho à porta de casa. Ouvi-o enquanto estendia roupa. Estes dias de sol são muitas vezes dias ou manhãs de lavar roupa. Alma solar, gosto da roupa lavada a cheirar a sol e a vento se o houver, e de a sentir levemente perfumada de luz e meio áspera ao toque. Ouço-o. Insistente. Os cães ladram furiosos. Alguém que os irrita. Contorno o quintal e encontro-o em cima do muro. De olhos verdes profundos fita-me e solta um miado mansinho. Chamo-o mas não vem. Os gatos nunca obedecem a uma ordem que os submeta a vontades alheias. Obedecem sempre e apenas à sua vontade. Vejo-o fugir, negro e tão luzidio, não sem antes brindar a vizinha do lado com um jacto viril para o muro, ela odeia gatos e eles sabem. Sabem-no muito bem. Na casa em frente a minha outra vizinha, dona de gatos e cães, amiga da bicharada. Trocamos palavras. Ela diz-me que o gato preto estava no passadiço rente à casa, lá onde se aventura quem é da casa e onde a sombra é rainha, Inverno ou Verão. E lembro-me. E pergunto-lhe Seria o meu gato? A insistência da visita deixa-me inquieta. Ela diz-me que não, ele não viria tão longe. Confirmo o olhar verde e o pêlo mais comprido. Digo-lhe, Pois, o meu tinha olhos de avelã e pêlo mais curto. O meu era um gato preto que um belo dia de Fevereiro se meteu dentro de uma carrinha aqui à porta de casa sem dizer nada a ninguém ou soltar um miado e quando a carrinha cumpriu o seu destinou e rumou a um lugarejo aqui perto, o gato faria a sua primeira e última viagem num silêncio profundo que lhe ditaria a má sorte. Ao abrirem a porta da carrinha, o gato fugiu assustado e nunca mais o vimos. Horas perdidas a chamá-lo em vão. No mato, entre os canaviais lá onde só há cheiro a terra e o cantarolar de pássaros e os ruídos de outras criaturas invisíveis são a única banda sonora possível. Dias e dias a chamar Chico! Dias e dias a rumar ao sítio maldito na esperança vã de que voltasse chamado pela voz que tão bem conhecia. Outra solução não houve se não arrumar lutos e deixar ir aquele dia malfadado de Fevereiro, treze por sinal, e o meu gato de casaco de veludo. Mas hoje voltou, voltou há uns dias à memória como voltam sempre as ausências antigas, assim em dias de sol de Inverno, soltando um miado baixinho e fugindo-nos sem que as consigamos apanhar e por instantes ter a sensação de que ali estão afinal. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Confissões vergonhosas em tempo de vacas magras

Para que tudo mude é preciso que algumas coisas nos dêem a ilusão de que são as mesmas e que por breves instantes nos entreguemos a velhos hábitos portadores de seguranças antigas e enlevos consumistas de que somos feitos. Pensarão por ventura que macaco me mordeu, que, como se diz por aqui na região saloia, 'levantei de ideia' ou que me esqueci de me enfrascar de prozacs e sucedâneos, bichos que não me passam pelo estreito  há quase duas décadas graças a muito trabalho de auto conhecimento e alguns momentos de esvaziar a mente ou fazer o que sempre faço face a momentos negros Vai passar, há-de passar. Nada disso. Serve isto pois para dizer que hoje pela fresca fui aos saldos, ao reboliço de mulheres afagando roupa e procurando incessantemente aquele tamanho e aquela cor, voltas e rodopios que se dão no espelho com uma nova pele. Enganos efémeros. Sou portadora de um casaco novo, que tanta falta me fazia, às mulheres faz sempre falta alguma coisa, e estou muito mais aliviada. Pronto. Era só isto

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Considerações verdadeiramente importantes sobre a mensagem subliminar de Natal do Primeiro-ministro


Já sabemos que a esperança não mora aí, não vale a pena enganar com essa gravata verde, muito feia, por sinal.


sábado, 24 de dezembro de 2011

Boas Festas



 

Esqueçamos por instantes o mundo lá fora, há alturas em que não é importante.
Feliz Natal a todos os que por aqui passam. 

Perdidos e achados


Não sou rapariga de perder coisas. Perco-as, é um facto e perco-as muito mas encontro-as a seguir. Sei que andarão por aí, escondidas entre livros ou nas pilhas de papelada que vou acumulando ao longo das semanas de aulas. Primeiro é o choque e a aflição Será que deitei fora? Mas eu não ia deitar aquilo fora, depois a constatação Tem de estar por aí, a seguir a busca que se inicia, papéis revolvidos, carteiras cuidadosamente inspeccionadas, estantes revistas, ajuda que se pede Ajuda-me aqui, perdi… e ajuda que se dá Quando foi a última vez que usaste/viste/leste (riscar o que não interessa)  e por último o reencontro Ah, estavas aí. Reposta a ordem, mantenho a existência tranquila até ao desaparecimento seguinte, porque tudo regressa afinal e não há necessidade de um stress acrescido por coisas que voltam sempre.
Hoje pela fresca, enquanto percorria mentalmente a minha checklist natalícia e acompanhava com um olhar em meu redor para confirmar se estaria tudo nos seus postos, pronto a abrilhantar-me a noite de consoada, não o encontrei. Estava lá tudo. Farinha, açúcar, ovos, leite, laranjas, mas não ele. Zero. Voltei a olhar, fui ver aos bolsos, procurei na carteira, lembrei-me até de ir ao frigorífico mas nem rasto ou cheiro. Custou-me 1, 45 euros, com desconto de cinquenta por cento no cartão, foi escolhido com carinho e comprado com antecedência para amadurecer, e pago. Isso sei e disso lembro-me muito bem. O que aconteceu entre esse momento último do pagamento e aquele instante em que dei pela falta do dito permanece uma incógnita.  Estará abandonado numa valeta, desvalido numa ribanceira, terá sido sequestrado por meliantes? Tudo é possível que, como se sabe, o mundo não está para brincadeiras e lá fora há uma selva que nos devora. Portanto, caros leitores e comentadores, se encontrarem por aí um abacaxi abandonado há uma grande probabilidade de ser o meu. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Dia primeiro

Dia primeiro de nada fazer. Dia primeiro sem obrigações, pautas, actas, papeladas inúteis que consomem tempo e energia. Dia primeiro sem balelas nem conversa mole nem obrigação de bons dias sem vontade. Dia primeiro de sentir os dias e o tempo, de abençoar o sol de inverno e de deixar à porta de casa o capote de dias pesados, a capa das incertezas. Dia primeiro de sentir Natal. Dia primeiro de sorrisos e carinho. Bem-vindo, dia primeiro. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E lá fora, o frio


Sou um bocado obsessiva nos gostos. Se gostar de uma camisola de determinado modelo tenho vontade de comprar mais duas de cor diferente. O mesmo aplica-se a outras peças de roupa, acessórios ou seja o que for do que gosto, à excepção de uma ou outra coisa que por decoro não vou aqui referir. Nessa mesma medida se gostar muito de uma cidade ou país tenho sempre vontade de voltar. Berlim ou Londres, Cabo Verde ou Brasil são destinos a que regressaria assim a vontade me permitisse, quase sempre portanto, e a partir de agora quase nunca, sendo que o ‘quase’ é um acessório absolutamente ilusório nesta minha nova condição de depauperada. Quando fui a Munique num Dezembro passado e descobri os mercados de Natal passei a ter uma nova obsessão: mercados de Natal. Sempre que chega esta altura do ano, lá para os fins de Novembro, cresce em mim uma vontade imperiosa de me aconchegar num cachecol, atafulhar-me em casacos felpudos, gorros e luvas e perder-me entre a multidão, beber um Glühwein bem quente, enquanto as pessoas se passeiam mercado acima mercado abaixo numa romaria colorida e perfumada, e deixar-me envolver por momentos nessa que se diz ser a magia do Natal. Nada disto pode parecer muito mal excepto se se souber que sou mulher de sol e luz, portadas abertas e janela no basculante até o sol se esconder e que encontra amparo em dias tépidos ou escaldantes, o bálsamo verdadeiro que afasta cansaço, stress, angústia. Muito. Quase tudo. Mas obsessão é obsessão e até ontem apetecia-me um mercado de Natal e até ontem porque quando pus o nariz de fora à noite e senti o vento cortante em frente à basílica numa noite de breu gelada e impiedosa  sem que cachecóis, casacos e gorros me pudessem valer, percebi de que são feitos os sonhos, de sonhos apenas. Manias revestidas de grinaldas de fantasia. A realidade é outra coisa.

domingo, 18 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Biscoitos de chocolate


As preocupações fora de portas e nada mais há naqueles instantes É como se o mundo parasse. Momentos de puro prazer, deleite, escapismo. O mundo seria mais fácil se tudo se reduzisse ao prazer ancestral de matar fomes e desejos e tudo se pudesse resolver à mesa entre aromas e palatos saciados. Pela janela há um dia de Dezembro bem claro, o sol que brilhou pela manhã apaziguando o crepúsculo de algo que se não sabe muito bem o que é, o mundo como o conhecemos talvez, algumas seguranças e garantias colapsam como baralho de cartas sem que nada se possa fazer se não aguentar. A roda da fortuna que cumpre o seu destino. Aguentar dias, anos, de verborreia moralista de crime e castigo, pecados alheios que agora temos de pagar. Não quero saber. Não agora. Não hoje. Deixo amolecer 250 gramas de margarina enquanto deito 125 gramas de açúcar mascavado na velha taça azul que me acompanha há anos nestes momentos de descontracção. Lá fora entardece mansinho. Um cão que refila, o mesmo de todos os dias feriado e fins-de-semana e uma das gatas espreita-me pela porta da cozinha. Bato energicamente o açúcar e a margarina até ficar um creme fofo e junto-lhe 225 gramas de farinha. Dezembro é mês de cozinha, de colo e de regresso, a casa, a nós mesmos, ao fim para que o início regresse. Envolvo bem a farinha e junto-lhe 100 gramas de flocos de aveia. E depois vario. Não há receita nas minhas mãos que não seja acrescentada, mudada, experimentada com umas pitadas imprevistas ao sabor dos meus dias e vontades, imprevisíveis também. Meia tablete de chocolate culinário cortada grosseiramente, pedaços irregulares a quem vou sem critério cortando mais aparas pontiagudas para  envolver na massa. E esperar. Uma hora de frio. Uma hora de silêncios tranquilos, o bálsamo necessário deste Dezembro que me traz agastada. Bolachas tendidas com o carinho de quem alimenta e de quem ama. O amor também se alimenta da alquimia de aromas e metamorfoses. E depois há o perfume do forno quente e do chocolate espalhando-se pela casa. Entardece. Recolho-me num biscoito e um chá aromático. Se tudo pudesse reduzir-se a prazeres simples. Às vezes pode. Hoje pôde.



A receita dos biscoitos foi inspirada nesta. Um beijo à Cristina Nobre Soares a quem prometi experimentar as bolachas de aveia.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

History repeating

Segunda-feira. Oito e trinta. Teste. Quando tudo se acalmou, se arrumaram nas cadeiras e mergulharam naquelas três páginas A4 rabiscadas de letras, de lá do fundo levanta-se um braço. Acorro lesta. Setora, dizem-me baixinho, O meu dicionário não tem esta palavra e aponta-me a dita. Atypical. Respondo Atípico. Atiram-me, Sim, mas o que é isso. Ouço um burburinho, cabeças que se viram na minha direcção e explico a todos o significado da palavra em português. Muito atípico no meio de um teste. 
Segundo round. Outro braço que se levanta. Acorro lesta como sempre, pronta a esclarecer as dúvidas, nada pior que ficar com dúvidas. A professora não quer os seus meninos com dúvidas. Sussurram-me outra vez, de dedo apontado à palavra rapioqueira, mais uma das malvadas que se esconde dos meninos da professora. Esta aqui, dizem-me. Quem disse que a história não se repetia mentiu profundamente. Neologisms? Neologismos! digo peremptória. Sim, setora, mas é o quê? 
Terceiro round. Fim da aula. Uma voz que se ergue. Setora, podemos inventar na composição? Podem, respondo, desde que seja verosímil. A meia dúzia de almas que restava irrompe numa sonora gargalhada. Se lhes tivesse contado uma anedota, teriam achado que era uma piada seca, diriam que a prof tem um sentido de humor estranho ou que se acha engraçadinha e certamente seria brindada com um sorriso amarelo. Era uma palavra. Uminha, sem segundas intenções. Questionam-me O QUÊ? O que é isso, setora? A professora esforça-se por explicar o que é verosímil numa linguagem acessível. Uns pedem, Diga lá outra vez! E tentam repetir Verobivel? Como é que é? Outra conclui Boa! Já aprendi uma palavra hoje, mas depois repete-a, tá bem, setora? Nada como umas palavras novas para animar uma segunda-feira cinzenta de Dezembro.

‎'Coisas' que se encontram na árvore de Natal