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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Corre Maggie corre

Look, I guarantee there'll be tough times.
I guarantee that at some point, one or both of us is gonna want to get out of this thing.
But I also guarantee that if I don't ask you to be mine, I'll regret it for the rest of my life,
because I know, in my heart,
you're the only one for me.

Ike Graham in "Runaway Bride"

Os filmes que povoam as nossas vidas nem sempre são obras-primas, clássicos, filmes de culto ou de autor. A minha vida tem alguns desses, poucos, no entanto. É certo que vi o Música no Coração algumas vezes, vê-lo-ia de novo, mas passei o Grease em branco, bem como Dirty Dancing e Footloose. Admito, não obstante, que também me humedeceram os olhos com Ghost – O Espírito do Amor, à data recentemente desamada pela mão impiedosa do destino que apaga as vidas como velas, ou lá como chamam a essa tal coisa do destino.
As almas erráticas dificilmente encontram consolo em filmes recatados de ambientes cosy – palavra difícil de traduzir esta- e preferem a inquietação miudinha que nos vai fazendo cócegas no estômago e nos leva daqui para ali, Ali parece melhor, dali para outro lado, Afinal ali não era tão bom como aparentemente parecia, e mais uma volta e mais um perfume, um sabor, algo mais, sempre. E depois os compromissos, um ror de gente a fixar-nos, a medir-nos de alto baixo e a dúvida que se instala Será? Será desta? É desta, sim! E passo a passo se vai até se descobrir, Não, ainda não é desta. Desculpem o incómodo. Os cabelos ao vento, os saiotes esvoaçantes. Noutra altura, noutro lugar. E de novo um outro rosto, passado algum tempo, uma outra vida e o pensamento Agora sim! E outra vez a igreja, os convidados, os vestidos alvos e fluidos, etéreos como os sentimentos, leves como as sensações. Não, ainda não.
Assim se repetiria indefinidamente, caso a química não fizesse das suas – como gosto de usar a química nesta ocasiões- e Ike e Maggie não se perdessem de amores um pelo outro. Ela entrega-lhe os ténis, depois de ter decidido que preferia ovos Benedict, casam-se longe dos olhares impúdicos e são felizes para sempre, julga-se. Secretamente ainda espero a sequela, quem sabe afinal se foram felizes para sempre.

imagem daqui

Fui desencantar este post para responder à Ana Vidal que me desafiou para nomear os meus filmes preferidos, cinco apenas. Os outros deambulam entre Mar Adentro, O Enigma da Casa de Música, Música no Coração, Fala com ela, Adeus, Lenin! e decididamente Buena Vista Social Club. Cinco é tão pouco, tão pouco que já ia em sete.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

De post no bolso

E enquanto arrumava os despojos do jantar -gosto da palavra despojos- a mente resvalava-me inquieta ainda na ressaca do dia que se fez longo Só gostava de saber quem foi o energúmeno que inventou a nova avaliação dos professores. Quem terá sido o parvalhão? Vou até ao frigorífico guardo o frasco dos espargos -também gosto de espargos- e de novo Quem terá sido o animal que pariu tal coisa? De regresso à banca Isto dava um post. Começo a escrever o texto Gostava de me encontrar cara-a-cara com o energúmeno que se lembrou desta avaliação dos professores… Reconsidero Não, energúmeno não. É muito forte. Ora deixa cá ver. Tento reescrevê-lo do ponto de partida. Não gosto do início e a palavra energúmeno deixou-me na dúvida. Burro? Anormal? Idiota? Parvalhão? Mentecapto? Dado o adiantado do dia foi-se-me a tampa da caixinha de eufemismos e, antes que lhes pudesse valer, fugiram-me noite adentro. Voltarão pela manhã como um gato regressado das noites de vadiagem. Energúmeno, pois claro. Revejo os sinónimos possíveis no dicionário mental à mistura com detergentes e esponjas da louça, lanço um olhar fugaz à noite escura pela janela. Não consigo vislumbrar os eufemismos, nem um só, e nenhum adjectivo me parece tão adequado como energúmeno. Esqueci o texto, portanto, e guardei o post.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Meditation

Nine Miles, Jamaica
foto: minha

No smoking

He causeth the grass to grow for the cattle, and the herb for the service of man.
Psalms 104:14


O Joseph, por exemplo, o Joseph era rapaz apara concordar com a lei n.º 37/2007 de 14de Agosto. Fumar? Que é lá isso? Chega para lá, ó malcheiroso. Nine Miles, umas dez da manhã. Sabe-se lá, em tempo de férias, que horas são, que dia é, a única referência temporal é a proximidade do dia de partida, o afastamento do dia de chegada e o sol nascente e poente. Tudo o resto são momentos de indizível prazer e evasão. Sabe-se apenas, dizia então, que o dia começara cedo, com um céu absurdamente azul e límpido, uma acalmia retemperadora no Caribe, sem turistas, veraneantes, animadores de hotel, apenas as gadanhas do limpa-areias desenhadas em arabescos no areal minúsculo, o murmúrio suave do mar na areia e o mar espelhado reflectindo as linhas de ouro que o beijavam ao de leve.
Pela quantidade de caminho trilhado de Negril, na costa oeste da Jamaica até St. Anne e Nine Miles, teriam passado umas boas horas. Algum sono pelo meio, muitas ravinas, muitos quilómetros percorridos nas estradas estreitas e esburacadas, muita vegetação e pequenos-almoços inevitavelmente regurgitados depois, a casa de Bob Marley estaria a romper a qualquer momento. Quando finalmente chegámos ao local de descanso final do grande rei do reggae, Robert Nesta Marley, e também local de inspiração de temas que me acompanham desde a adolescência, o sol estava alto e impiedoso, no zénite. O calor húmido entrepunha-se como uma película invisível entre o corpo e a roupa. Primeiro à direita, a escola fundada por Cedella Marley, depois o estacionamento num local preservado da curiosidade local e por fim, o momento que terei esperado toda a minha vida, mesmo sem o saber. A casa onde Bob Marley viveu, onde nasceu e onde descansa encontrava-se à minha frente.
À nossa espera estava Joseph, jamaicano, rastafari. Um homem de nariz largo, olhos negros e barba, com uma t-shirt alusiva ao lugar e uma boina com as cores da religião rastafari. Seria o nosso guia por aqueles momentos que afinal me pareceram tão fugazes. Após o cumprimento respeitoso Respect de punho fechado com os nós dos dedos a tocarem-se e os sapatos tirados, as solas dos pés bem assentes no solo escaldante, entrámos na casa. Primeiro a cama que partilhou com Rita cantada no imorredoiro Is this love, a almofada de pedra em Mount Zion, onde a inspiração surgiu, ponto eleito para a meditação do profeta do reggae, e, por fim, o local do descanso final. Dizia Joseph que lá dentro repousa Bob Marley com a cabeça virada para o sol nascente, iluminado aos primeiros raios de luz que atravessam o mausoléu pela estrela de David, a sua guitarra e o charro His joint, mon. A canícula no auge era apenas atenuada pelo canto das crianças do lado de fora da cerca, o coro perfeito para a banda sonora que Joseph ia trauteando à medida que passávamos pelos locais imortalizados nas letras e músicas de Bob Marley. A visita chegava ao fim, tão breve, afinal e, para a finalizar, que tal um cigarrinho? Vou fumar um cigarro, ouviu-se. Enquanto se tomava o momento de descontracção longe dos restantes visitantes, Joseph desabafou peremptório e sem cerimónia I don´t smoke! Tendo em conta que faz parte da religião rastafari fumar marijuana e não fumar tabaco nem beber álcool ou comer carne, saiu-me sem querer You don´t smoke cigarettes then… Joseph confirmou tudo. Replicou que não, não fumava tabaco, No cigarretes, mon! que era veneno, que fazia mal, e que não gostava do cheiro mas adiantou sem reservas But I smoke ganja for 31 years now, ufano e triunfante. O Joseph, dizia eu, era rapaz para concordar a lei n.º 37/2007 de 14 de Agosto.


Nine Miles, Jamaica
foto: minha

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Sem ti


Duas das três pessoas presentes nesta fotografia fazem agora parte da mágoa ingrata que me trespassa cada dia que vivo: o meu primo que me dá o braço e o meu pai que tirou esta fotografia. Idos os dois por esta ordem, primeiro o meu primo, a morte pela sua própria mão, depois o meu pai, ausente e partido também com a ausência do meu primo nele e a pergunta sempre por responder, a manhã alvoraçada com a aflição da minha mãe e choro convulsivo por essa viagem voluntária do meu primo numa manhã cinzenta de Janeiro. Quatro anos passam hoje, quatro anos de cogitação, quatro anos de incerteza, quatro anos de mágoa, rais parta, Né, não podias ter antes bebido uns copos, dito uns disparates e esperado por dias sorridentes? A vida continua sem ti, já sabes, os dias sorriem, as árvores floriram de novo, ano após ano, a macarronada da madrinha continua deliciosa, o tio já não mora aqui, tu sabes, mas nada é igual sem ti, Né, e disso também tu sabias.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Na rota dos livros

Logo agora que estou danada para me ir daqui para fora – a propósito, alguém me arranja um emprego longe do ensino?- esta notícia, que percorreu a blogosfera e a que os bibliófilos não ficaram indiferentes, ofereceu-me um belíssimo roteiro apadrinhado pelo sonho e alimentado por duas das minhas preferências: viagens e livros.
Por exemplo, podia ir daqui ao Porto, para visitar a Lello, e com a quantidade de voos low cost a sair da Invicta não seria nada difícil partir para outro local da Europa. Talvez Glasgow, muito embora a livraria me deixe algumas dúvidas. Depois seguiria para Bruxelas – olá Carlota e Pitucha- para espreitar a Posada, até porque não encontro uma imagem e sou um espírito curioso. A cidade seguinte seria Maastricht. A Boekhandel Selexyz Dominicanen é um deleite também pela simbologia da religiosidade e espiritualidade que os livros podem encerrar. Naturalmente isto sou eu a divagar, porque os amigos holandeses são rapazes pouco dados a estes devaneios espírito-religiosos. Depois de me refazer de tanta beleza, rumaria decididamente a sul numa das minhas ansiadas viagens: Buenos Aires, que obviamente depois desta descrição, ficou decididamente inscrito no meu roteiro de viagens futuro, espero que não muito. De volta, e porque não estamos longe, daria uma saltadinha fugaz à mais bela cidade do mundo, o Rio de Janeiro e entre coisas várias e tão simples como uma água de coco no Calçadão de Ipanema com o Morro Dois Irmãos do meu lado direito se contemplasse o Atlântico ou o Cristo Redentor a erguer-se no morro se voltasse a costas ao mar, difícil é escolher a vista na Cidade Maravilhosa, iria direitinha à Livraria da Travessa na Visconde de Pirajá, para celebrar o meu primeiro livro comprado em terras de Vera Cruz. Voltaria depois a casa, a mala prenhe de livros e a alma a transbordar. Sentar-me-ia por aqui a empanturrar-me de livros e a digerir tanta beleza. Sonhar não custa.

Imagem daqui

Também no Geração Rasca


A trabalheira de se ser infeliz

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.

Mia Couto, Mar me quer.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Palavras difíceis

Nem sempre escrevo da mesma forma, há momentos de silêncio, de procura incessante de palavras, textos que se perdem sem nunca voltar, luta com palavras. Contudo escrever, apenas escrever, é bem mais fácil do que agradecer e cabe-me mais uma vez a tarefa de fazê-lo, a mais um Pedro, desta vez ao Pedro Correia do Corta-fitas por ter gostado desta crónica. Obrigada, Pedro, mais uma vez.

Momento sitemeter (3)

Gajas despidas com cuequinhas
não temos por aqui.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O suicídio da queijeira

O CSI era rapaz para resolver a coisa, muito embora me pareça que dada a inexistência do projéctil malvado, talvez seja assunto para o Sem Rasto, sabe-se lá onde pára o malfadado, desditoso do demónio, por outro lado, e tendo em conta que alma viva testemunhou a ocorrência, Eu? Não vi nada! quem sabe a Médium me poderá ajudar, se bem que pela limpeza com que se sucederam os dramáticos acontecimentos talvez deva recorrer aos Casos Arquivados ou será que, em última análise, terei de recorrer ao professor Caramba? Uma coisa é certa: quando saí pela manhã, estava tudo intacto, a queijeira repousava tranquila na estante da despensa, o local que ocupou há tantos anos quantos os que habito na minha casinha, e quando regressei ao fim da tarde, o sol já posto, a casa a brilhar pela passagem da minha dona francisquinha a campânula da queijeira tinha um buraco violento, cruzes canhoto, que era aquilo? Na minha queijeira de design nórdico, um presente acarinhado e estimado, os estilhaços rapioqueiros descansavam na tábua que durante anos foi suportando queijos vários à medida dos convivas, comensais e gourmets. O telemóvel depressa. Dona Francisquinha em linha. E a conversa O que é aconteceu à queijeira? Nada. Nada? Mas a queijeira tem um buraco, ficou toda estragada, agora é para o lixo, soltei numa voz esganiçada entre o desgosto e a lamúria. Eu não vi nada. Mas foi enquanto a senhora cá esteve, quando saí de manhã não estava assim. Só se foram elas, e, por elas, entenda-se as gatas. Não pode ser exclamei. E a pergunta Mas a queijeira não é de plástico? É de plástico mas parte-se. Estão, portanto, a ver por que razão só a equipa do CSI me poderá ajudar, uma vez que coisas estranhas acontecem na minha ausência e na presença da guardiã dos espanadores, ou isso ou terei de aceitar que a minha queijeira tem vida própria e auto-mutilou-se pela manhã -credo, imaginam lá o buracão- tendo posteriormente optado pelo suicídio, não lhe restava outra solução tendo em conta o orifício categórico na barriga. Já nem nas queijeiras se pode confiar, quanto mais deixá-las em casa sozinhas enquanto se anda lá fora a lutar pela vida.

Fintar Hades

Dezembro. Frio. Cinzento. Húmido. O combustível de que se alimentam os estados de alma sombrios que atraem as maleitas do espírito, sugam o entusiasmo de dias vindouros e eliminam a esperança de céus azuis de dias cálidos e bondosos. E se a invernia tem algum propósito, será apenas o de contraste bruto, para que os dias bons sejam ainda melhores, os mais solarengos ainda mais luminosos, os mais cálidos ainda mais abençoados.
O augúrio de acontecimentos tenebrosos começou naquele mesmo dia com a passagem à porta da mercearia. Um sinal inequívoco no portão que dava acesso para um pequeno pátio interior, guardião maioritariamente de laranjas e maçãs, ocasionalmente de abacaxis e mangas e, aos Sábados, de coroas imperiais e gerbérias, indicava que a senhora da foice tinha feito das suas, ceitoura na mão, recolhida no manto, e colhido algum dos entes queridos das três gerações de mulheres administradores, gestoras, empregadas, limpadoras e zeladoras do estabelecimento. As palavras depois, no regresso a casa, Morreu a Avó Paulita. O tom de voz descendente tombado por um lamento, humedecido pelas lágrimas que ninguém viu. Morreu? Como morreu a avó? Sei lá. Morreu. Passei à porta e estava lá um sinal, um anúncio daqueles da casa funerária. Ora essa. Ainda ontem vi a mulher, retorqui Não pode ser. Como se a morte se fizesse sempre anunciar Vou aí. Vou passar por aí. E por saber ficou se houvera aviso de recepção para o infeliz acontecimento. Anunciara-se de facto, a senhora da foice? E se não o fizera, como se atrevia, desavergonhada e intrometida? Alguém a houvera chamado, por acaso? E assim se continuou no ano soturno que findava, e assim se prolongou a cogitação Mas como? Pobre avó Paulita. Determinou o destino a ausência do lugar malfadado por uns dias, dias em que rotunda senhora permaneceu na mente, defunta e enterrada, vestida de negro e sisuda, um rectângulo de cetim branco rematado com renda sobre o rosto finado e a meia dúzia de filhos, outra meia de netos e uns quantos genros desgarrados em prantos vários Ai minha rica mãe! Ó minha rica mãezinha. Pobre mulher. Parecia tão saudável. E assim era. Mais saudável que simpática. Mais vivaça que magra. Mais rija que sorridente. A avó Paulita era um daqueles seres únicos, benza Deus, agora falecida, coitadinha da senhora, que nos orgulhávamos de conhecer. Além de pôr as filhas na ordem, duas pelo menos, o filho doente que era um c***s no dizer da filha do meio, e ter umas mãos de ouro com que amassava o pão, um verdadeiro deleite para os habitantes da aldeia, quente e perfumado e, à semelhança da sua progenitora, forte e resistente, detinha o cargo indestrutível e firme de matriarca respeitada a quem bastava um olhar severo e umas duas palavras para se fazer obedecer. Também por isto, a avó Paulita deixara saudades, muitas saudades, e a certeza de se regressar à mercearia de olhar pesado, as palavras trôpegas na garganta e alma pesarosa na ausência. Algum dia seria, porém, que na morte sempre se diz que tem de se andar para a frente, andar, já se vê, que só os mortos morrem e retomar os afazeres para que a ausência se amacie e se esbranquice depois como uma nuvem de fumo distante. E assim foi. A mercearia repleta empurrava os fregueses para a saída, enquanto as duas filhas, a mais velha e a do meio, aviavam a freguesia turbulenta. Pobre avó. Logo havia de se finar. Um ouvido apurado. Seria? No burburinho da mercearia congestionada três letrinhas sobressaíam inequívocas MÃE? Mãe, pois. Um pescoço que se ergue, os olhos interrogativos que se procuram e eis que, vinda do além, surge a avó Paulita. Impassível. Caramba. A admiração subiu a pique. A avó Paulita fintara a senhora da foice Julgas que és mais teimosa que eu? e regressara triunfante da batalha com a cadavérica, embatucada, enfezada, mafarrica, malfadada ou isso ou tinha sido a mãe da avó Paulita que se finara. Quem disse que eram apenas três gerações de mulheres? A avó Paulita ficou na história como a única pessoa que regressou do além. Quem derrota Hades deve morar no Olimpo mesmo que o Olimpo esteja sito na mercearia da aldeia.

foto: minha

outras crónicas

domingo, 20 de janeiro de 2008

Ainda do silêncio

Eu é que agradeço um post tão elogioso, Pedro. O silêncio é mais fácil do que as palavras que uso para agradecer, elas são sempre mais pequenas, menos eloquentes e menos profundas mas sempre sentidas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Mar (3)

Morro de São Paulo, Brasil
foto: minha

De manhã, o choro

Chorar de manhã é pior do que chorar à noite. O choro da noite liberta o azedume do dia passado, a negritude da alma encontra o par perfeito na escuridão que a noite oferece, o corpo embalado na almofada, curvado sobre a cama, recolhido sobre si mesmo na reminiscência do que se foi. E depois o sono embalado no choro, uma noite mais, o dia que amanhece lavado nas lágrimas da noite, limpo, contudo, os olhos limpídos para a luz do dia, o corpo aliviado da inquietude destilada nas gotículas salgadas. O choro da manhã é violento e tumultuoso. Um aperto no coração. Um torniquete na alma. O corpo acordado subitamente aos tropeções pelo choro, a alma não se deixando espreguiçar, a luz do dia turvada pelas lágrimas e o rosto disforme à luz do dia é ainda mais disforme, desproporcionado com a claridade dos dias luminosos. A minha aluna chora de manhã: o corpo esguio e magro tolhido com as lágrimas matinais, os olhos turvos de pálpebras inchadas, o rosto ainda amassado da almofada, subitamente entumescido, ruborizado por vezes. A minha aluna chora pela manhã, enquanto os adolescentes ensonados oferecem sorrisos envergonhados, libertando-se devagar ao ritmo da chegada da manhã, progressivamente mais soltos, livres, felizes, despreocupados, prontos para acolher o dia. Enquanto isso ela chora, o rosto agora mais pálido, a cabeça encostada na parede, vencido pelo tormento das lágrimas indesejadas e intrometidas. Tanto cansaço pela manhã que se queria bela e tranquila.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Mar (2)

Negril, Jamaica
foto: minha

Maior que as palavras

Somos o que escrevemos ou escrevemos o que somos? Na viagem pendular entre as duas premissas fica a certeza de que a Carlota me descreve sempre maior do que sou e por isso deixo aqui um agradecimento maior do que o que escrevo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Língua de papel

Meses a fio o recorte de jornal tombou da estante da sala como uma língua, preso numa moldura de sorrisos abertos algures do outro lado do Atlântico. Pendia da secção de literatura portuguesa e reclinava-se sobre a de literatura brasileira. Uma língua, a mesma, ou uma ponte que une as margens de uma só língua, em cada extremidade a sonoridade tão distante, separada pela língua, -ou seria o oceano?- e unida pela mesma. Um recorte de jornal apenas. Terá sido numa altura de pintura da sala que tudo aconteceu, é sabido que as infiltrações são geradoras dos maiores males, numa outra ocasião não se propiciaria o ímpeto arrumador, até porque, por aqui não impera a obsessão por arrumação, impera a obsessão por ter à mão livros, papéis e recortes de acontecimentos passados. Algum tempo depois surgiu o arrependimento amargo deste impulso furioso. O conteúdo do pequeno rectângulo voltou a estar na ordem do dia e assim fiquei: desfalcada do pedacito de informação que dava conta dos erros que opuseram Miguel Sousa Tavares a Vasco Pulido Valente na querela que tanta tinta fez correr. E irritada Mas porquê? Porquê? Às vezes num crescendo Mas há tanta porcaria que fica por aí… logo aquele. Que raiva! Quando a querela reloaded se instalou prometi a mim mesma que não ficaria, desta feita, desfalcada do pedaço de papel, umas quatro páginas do jornal e guardei-o em cima do sofá, à espera de melhor destino, impossível que era deixá-lo que nem uma língua entre as estantes. E tudo estava a correr bem, a leitura do livro prometida para quando a pilha de livros a ler emagrecesse, o pedaço reservado para posteriormente averiguar a veracidade das acusações, de leitura feita e livro nas mãos, tudo bem, dizia eu, tudo muito bem até o frio ter apertado e as páginas centrais do jornal, exactamente, precisamente as tais, aquelas e não outras, terem sido arrancadas sem mais e usadas para combater o frio, -sabe deus, alá e jah como o odeio o mafarrico- e acender a lareira. Tanta verborreia e questiúncula talvez não merecessem mesmo outro fim.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O blogue

Depois da faixa 24, temo seriamente o destino deste blogue, ou devo dizer o meu próprio destino? Tomou-se de razões comigo, logo eu que lhe dei vida, diz que está farto de conversas intelectualóides, livros, crónicas e historietas de vão de escada, cansado de tanto viajar, saturado de dores várias, queixumes, que já não pode ouvir falar do Sócrates e que se eu não me emendar, vai chamar o Tibúrcio, fazer queixas à Ministra da Educação ou recorrer à panca do lado. Anda uma pessoa a criar um blogue para isto.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Faixa 24 (e porque não?)

E porque não piratear este sítio? Tirar-lhe o cor-de-rosa e pintá-lo de vermelho Benfica – ultimamente meio desmaiado e visualmente violento, com dedos no ar e tudo -, falar aqui de futebol, de música que não apenas os “calhaus rolantes” e as gardénias (é hoje que durmo na rua). É possível surpreender alguém sempre? Acho que não, mas também acho que para os homens é mais fácil fazê-lo, nós somos basicamente umas crianças grandes, para nós é fácil cantarolar a música dos reis magos do anúncio da TMN no meio do supermercado ignorando os olhares reprovadores dos restantes compradores, os sorrisos complacentes e divertidos dos empregados e a vergonha óbvia de quem está ao nosso lado. Nascer dividido entre o palhaço e o “Incrível Hulk” é uma especialidade que devia estar disponível em mestrados nas nossas universidades e que, digo eu, se na medida certa, pode ainda mudar este país cinzento chamado Portugal.
Assim de repente, e porque tenho a honra de ser o primeiro gajo a escrever no blogue desta Mulher, vou tentar não ser o palhaço bruto do dia-a-dia, antes tento encarnar um bruto palhaço, ou um rei mago, ou um palhaço, ou um rei mago… Qual será a última coisa que a dona deste espaço poderia esperar aqui, agora e neste momento?



Yupi-ai-ai-yupi-yupi-ei, tcha tcha tcha, yupi-ai-ai-yupi-yupi-ei, tcha tcha tcha… digam lá que não é viciante?

Coisas Sérias: Depois de meses de angústia soube-se hoje que Portugal continua a ter o seu tamanho normal, o deserto do Sul continua nosso, de todos nós e no final disto tudo fica apenas o camelo Jamais, estrela de um outro deserto que mora ali para o centro de Lisboa.

P.S. Hoje esta coisa é assinada pelo clown de serviço, H Franco, dado que corri com a minha cara-metade para uma panca aqui ao lado.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Momento sitemeter (2)

Por aqui já houve coisas grandes, outras que nem foram grande coisa mas o maior cenoura do mundo, lamento, não temos.

Perfume de baunilha

Estava pensando nela, de manhã.
A sua outra, a sua inantingível outra, a das pernocas, a da baunilha. (...)
Enquanto faziam amor, ele tentava imaginar que ela era a outra.
Mas o cheiro do sabonete atrapalhava.

Luis Fernando Veríssimo, Sexo na Cabeça.

Nos dias em que a literatura me faz sonhar, gosto ainda mais dessa arte mágica e alquímica de dar forma, sentido e sentir às palavras agrupadas em carreirinhas como uma interminável serpentina colorida. Nos dias de sonho acredito que sim, acredito, por exemplo, que sim, que aquela mulher ao acordar é bela e apetecível, com olhos papudos, dentes por lavar e o perfume da noite anterior nos braços de Morfeu, que dizia ele, tinha um toque a baunilha. E o corpo, o corpo diferente, mais redondo, de perna grossa. Com o decorrer do dia tudo se perdia. Bastava a ida à casa de banho. O cheiro ia-se, a forma voluptuosa do corpo cálido desaparecia, os olhos retomavam a forma normal. Modiglanizava-se, dizia. Mas essa da manhã permanecia a fonte insondável de desejo e surgia como a outra, a outra que ela queria acima da aprumadinha, perfumada, delgada e de rosto desinchado, pestanas reviradas, e, claro, de dentes lavados. A da manhã era esquiva também por isso tão desejada, a intangibilidade torna o objecto desejado ainda mais intenso e fervorosamente querido, cobiçado, desejado, apetecido. E por tudo isto gosto da literatura. Porque ninguém cheira a baunilha pela manhã, homem ou mulher, porque ninguém é mais belo, irresistível ou desejado com o corpo disforme da noite arrumada nos dias passados, -credo, alguém gostará do rosto marcado da almofada? -porque aos impulsos matinais do corpo são dadas formas e perfumes, como se de desejo se tratasse e não apenas da fome irresistível do corpo alheio, da inteira responsabilidade da natureza, essa grande perversa, que ao contrário da literatura, tem sempre uma explicação lógica sem a doçura das palavras com perfume de baunilha.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Receita de leitura

Dose de Amostra

Dei então por mim a conversar com o cão, sempre que estávamos sós. Digo bem: conversar. Porque se ele nunca chegava, como pretendia, à enunciação, não tenho dúvida de que compreendia a humana fala. Pelo menos a nossa. Falava-lhe das caçadas que podíamos ter feito e não fizemos. Tentei explicar-lhe a magia da pesca, mas isso foi coisa que ele nunca aceitou. Quando voltei a caçar, normalmente na companhia do meu filho do meio, contava-lhe as proezas de cada um. Também lhe falava de versos, é verdade,como às vezes não tinha ninguém a quem ler de imediato um poema acabado de escrever, lia-o ao cão. Ele gostava. Não sei se do poema. Mas de que lho lesse. Ou do ritmo,do som, fosse do que fosse. Não que uivasse como com amúsica de Albeniz. Mas creio que ele também gostava da música da poesia, da alquimia do verso, da litania e da celebração mágica que todo o poema é. Algo que os bichos talvez entendam melhor do que os especialistas de literatura.

Manuel Alegre, (2002), Cão como Nós, Lisboa, Caminho.

Composição
Cão como Nós de Manuel Alegre é uma novela sobre um cão, Kurika de seu nome, que fez parte integrante da família Alegre durante muito tempo e que, ao partir, deixou saudades profundas e este pequeno livro escrito pela mestria e sensibilidade do autor.

Indicações
Este livro está indicado para os devotos incondicionais de animais, especialmente de cães. Indivíduos com gosto por leituras breves mas carregadas de sensibilidade observaram significativas melhoras com a leitura deste livro. Está indicado para quem quiser conhecer uma outra faceta do autor, longe da poesia e do romance e quem tiver curiosidade sobre as vidas quotidianas do(s) escritor(es).

Precauções
Indivíduos obcecados por estereótipos em busca de um tratado sobre ocomportamento canino devem ler este livro com muitas reservas, uma vez que no composto activo está presente um cão atípico, desobediente, e com manias de humano. Podem verificar-se pontualmente episódios de tristeza. Descontinue a leitura imediatamente, caso comece a chamar pelo Kurika, a esperá-lo pela calada da noite ou a deixar-lhe uma tigela com água. Podem ocorrer ocasionalmente ataques súbitos de carinho e ter vontade de se agarrarao pescoço dos caninos.

Posologia
Não foram reportados efeitos de sobredosagem. A leitura continuada potencia os efeitos positivos e uma segunda ou terceira leitura prolonga o bem-estar e estimula a imaginação.

Outras apresentações
Como complemento sugere-se a leitura de Amados Cães e de Amados Gatos de José Jorge Letria e Gatos e mais Gatos da mais recente laureada com o Prémio Nobel da Literatura, Doris Lessing.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade