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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Corre Maggie corre

Look, I guarantee there'll be tough times.
I guarantee that at some point, one or both of us is gonna want to get out of this thing.
But I also guarantee that if I don't ask you to be mine, I'll regret it for the rest of my life,
because I know, in my heart,
you're the only one for me.

Ike Graham in "Runaway Bride"

Os filmes que povoam as nossas vidas nem sempre são obras-primas, clássicos, filmes de culto ou de autor. A minha vida tem alguns desses, poucos, no entanto. É certo que vi o Música no Coração algumas vezes, vê-lo-ia de novo, mas passei o Grease em branco, bem como Dirty Dancing e Footloose. Admito, não obstante, que também me humedeceram os olhos com Ghost – O Espírito do Amor, à data recentemente desamada pela mão impiedosa do destino que apaga as vidas como velas, ou lá como chamam a essa tal coisa do destino.
As almas erráticas dificilmente encontram consolo em filmes recatados de ambientes cosy – palavra difícil de traduzir esta- e preferem a inquietação miudinha que nos vai fazendo cócegas no estômago e nos leva daqui para ali, Ali parece melhor, dali para outro lado, Afinal ali não era tão bom como aparentemente parecia, e mais uma volta e mais um perfume, um sabor, algo mais, sempre. E depois os compromissos, um ror de gente a fixar-nos, a medir-nos de alto baixo e a dúvida que se instala Será? Será desta? É desta, sim! E passo a passo se vai até se descobrir, Não, ainda não é desta. Desculpem o incómodo. Os cabelos ao vento, os saiotes esvoaçantes. Noutra altura, noutro lugar. E de novo um outro rosto, passado algum tempo, uma outra vida e o pensamento Agora sim! E outra vez a igreja, os convidados, os vestidos alvos e fluidos, etéreos como os sentimentos, leves como as sensações. Não, ainda não.
Assim se repetiria indefinidamente, caso a química não fizesse das suas – como gosto de usar a química nesta ocasiões- e Ike e Maggie não se perdessem de amores um pelo outro. Ela entrega-lhe os ténis, depois de ter decidido que preferia ovos Benedict, casam-se longe dos olhares impúdicos e são felizes para sempre, julga-se. Secretamente ainda espero a sequela, quem sabe afinal se foram felizes para sempre.

imagem daqui

Fui desencantar este post para responder à Ana Vidal que me desafiou para nomear os meus filmes preferidos, cinco apenas. Os outros deambulam entre Mar Adentro, O Enigma da Casa de Música, Música no Coração, Fala com ela, Adeus, Lenin! e decididamente Buena Vista Social Club. Cinco é tão pouco, tão pouco que já ia em sete.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

De post no bolso

E enquanto arrumava os despojos do jantar -gosto da palavra despojos- a mente resvalava-me inquieta ainda na ressaca do dia que se fez longo Só gostava de saber quem foi o energúmeno que inventou a nova avaliação dos professores. Quem terá sido o parvalhão? Vou até ao frigorífico guardo o frasco dos espargos -também gosto de espargos- e de novo Quem terá sido o animal que pariu tal coisa? De regresso à banca Isto dava um post. Começo a escrever o texto Gostava de me encontrar cara-a-cara com o energúmeno que se lembrou desta avaliação dos professores… Reconsidero Não, energúmeno não. É muito forte. Ora deixa cá ver. Tento reescrevê-lo do ponto de partida. Não gosto do início e a palavra energúmeno deixou-me na dúvida. Burro? Anormal? Idiota? Parvalhão? Mentecapto? Dado o adiantado do dia foi-se-me a tampa da caixinha de eufemismos e, antes que lhes pudesse valer, fugiram-me noite adentro. Voltarão pela manhã como um gato regressado das noites de vadiagem. Energúmeno, pois claro. Revejo os sinónimos possíveis no dicionário mental à mistura com detergentes e esponjas da louça, lanço um olhar fugaz à noite escura pela janela. Não consigo vislumbrar os eufemismos, nem um só, e nenhum adjectivo me parece tão adequado como energúmeno. Esqueci o texto, portanto, e guardei o post.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Meditation

Nine Miles, Jamaica
foto: minha

No smoking

He causeth the grass to grow for the cattle, and the herb for the service of man.
Psalms 104:14


O Joseph, por exemplo, o Joseph era rapaz apara concordar com a lei n.º 37/2007 de 14de Agosto. Fumar? Que é lá isso? Chega para lá, ó malcheiroso. Nine Miles, umas dez da manhã. Sabe-se lá, em tempo de férias, que horas são, que dia é, a única referência temporal é a proximidade do dia de partida, o afastamento do dia de chegada e o sol nascente e poente. Tudo o resto são momentos de indizível prazer e evasão. Sabe-se apenas, dizia então, que o dia começara cedo, com um céu absurdamente azul e límpido, uma acalmia retemperadora no Caribe, sem turistas, veraneantes, animadores de hotel, apenas as gadanhas do limpa-areias desenhadas em arabescos no areal minúsculo, o murmúrio suave do mar na areia e o mar espelhado reflectindo as linhas de ouro que o beijavam ao de leve.
Pela quantidade de caminho trilhado de Negril, na costa oeste da Jamaica até St. Anne e Nine Miles, teriam passado umas boas horas. Algum sono pelo meio, muitas ravinas, muitos quilómetros percorridos nas estradas estreitas e esburacadas, muita vegetação e pequenos-almoços inevitavelmente regurgitados depois, a casa de Bob Marley estaria a romper a qualquer momento. Quando finalmente chegámos ao local de descanso final do grande rei do reggae, Robert Nesta Marley, e também local de inspiração de temas que me acompanham desde a adolescência, o sol estava alto e impiedoso, no zénite. O calor húmido entrepunha-se como uma película invisível entre o corpo e a roupa. Primeiro à direita, a escola fundada por Cedella Marley, depois o estacionamento num local preservado da curiosidade local e por fim, o momento que terei esperado toda a minha vida, mesmo sem o saber. A casa onde Bob Marley viveu, onde nasceu e onde descansa encontrava-se à minha frente.
À nossa espera estava Joseph, jamaicano, rastafari. Um homem de nariz largo, olhos negros e barba, com uma t-shirt alusiva ao lugar e uma boina com as cores da religião rastafari. Seria o nosso guia por aqueles momentos que afinal me pareceram tão fugazes. Após o cumprimento respeitoso Respect de punho fechado com os nós dos dedos a tocarem-se e os sapatos tirados, as solas dos pés bem assentes no solo escaldante, entrámos na casa. Primeiro a cama que partilhou com Rita cantada no imorredoiro Is this love, a almofada de pedra em Mount Zion, onde a inspiração surgiu, ponto eleito para a meditação do profeta do reggae, e, por fim, o local do descanso final. Dizia Joseph que lá dentro repousa Bob Marley com a cabeça virada para o sol nascente, iluminado aos primeiros raios de luz que atravessam o mausoléu pela estrela de David, a sua guitarra e o charro His joint, mon. A canícula no auge era apenas atenuada pelo canto das crianças do lado de fora da cerca, o coro perfeito para a banda sonora que Joseph ia trauteando à medida que passávamos pelos locais imortalizados nas letras e músicas de Bob Marley. A visita chegava ao fim, tão breve, afinal e, para a finalizar, que tal um cigarrinho? Vou fumar um cigarro, ouviu-se. Enquanto se tomava o momento de descontracção longe dos restantes visitantes, Joseph desabafou peremptório e sem cerimónia I don´t smoke! Tendo em conta que faz parte da religião rastafari fumar marijuana e não fumar tabaco nem beber álcool ou comer carne, saiu-me sem querer You don´t smoke cigarettes then… Joseph confirmou tudo. Replicou que não, não fumava tabaco, No cigarretes, mon! que era veneno, que fazia mal, e que não gostava do cheiro mas adiantou sem reservas But I smoke ganja for 31 years now, ufano e triunfante. O Joseph, dizia eu, era rapaz para concordar a lei n.º 37/2007 de 14 de Agosto.


Nine Miles, Jamaica
foto: minha

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Sem ti


Duas das três pessoas presentes nesta fotografia fazem agora parte da mágoa ingrata que me trespassa cada dia que vivo: o meu primo que me dá o braço e o meu pai que tirou esta fotografia. Idos os dois por esta ordem, primeiro o meu primo, a morte pela sua própria mão, depois o meu pai, ausente e partido também com a ausência do meu primo nele e a pergunta sempre por responder, a manhã alvoraçada com a aflição da minha mãe e choro convulsivo por essa viagem voluntária do meu primo numa manhã cinzenta de Janeiro. Quatro anos passam hoje, quatro anos de cogitação, quatro anos de incerteza, quatro anos de mágoa, rais parta, Né, não podias ter antes bebido uns copos, dito uns disparates e esperado por dias sorridentes? A vida continua sem ti, já sabes, os dias sorriem, as árvores floriram de novo, ano após ano, a macarronada da madrinha continua deliciosa, o tio já não mora aqui, tu sabes, mas nada é igual sem ti, Né, e disso também tu sabias.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Na rota dos livros

Logo agora que estou danada para me ir daqui para fora – a propósito, alguém me arranja um emprego longe do ensino?- esta notícia, que percorreu a blogosfera e a que os bibliófilos não ficaram indiferentes, ofereceu-me um belíssimo roteiro apadrinhado pelo sonho e alimentado por duas das minhas preferências: viagens e livros.
Por exemplo, podia ir daqui ao Porto, para visitar a Lello, e com a quantidade de voos low cost a sair da Invicta não seria nada difícil partir para outro local da Europa. Talvez Glasgow, muito embora a livraria me deixe algumas dúvidas. Depois seguiria para Bruxelas – olá Carlota e Pitucha- para espreitar a Posada, até porque não encontro uma imagem e sou um espírito curioso. A cidade seguinte seria Maastricht. A Boekhandel Selexyz Dominicanen é um deleite também pela simbologia da religiosidade e espiritualidade que os livros podem encerrar. Naturalmente isto sou eu a divagar, porque os amigos holandeses são rapazes pouco dados a estes devaneios espírito-religiosos. Depois de me refazer de tanta beleza, rumaria decididamente a sul numa das minhas ansiadas viagens: Buenos Aires, que obviamente depois desta descrição, ficou decididamente inscrito no meu roteiro de viagens futuro, espero que não muito. De volta, e porque não estamos longe, daria uma saltadinha fugaz à mais bela cidade do mundo, o Rio de Janeiro e entre coisas várias e tão simples como uma água de coco no Calçadão de Ipanema com o Morro Dois Irmãos do meu lado direito se contemplasse o Atlântico ou o Cristo Redentor a erguer-se no morro se voltasse a costas ao mar, difícil é escolher a vista na Cidade Maravilhosa, iria direitinha à Livraria da Travessa na Visconde de Pirajá, para celebrar o meu primeiro livro comprado em terras de Vera Cruz. Voltaria depois a casa, a mala prenhe de livros e a alma a transbordar. Sentar-me-ia por aqui a empanturrar-me de livros e a digerir tanta beleza. Sonhar não custa.

Imagem daqui

Também no Geração Rasca


A trabalheira de se ser infeliz

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.

Mia Couto, Mar me quer.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Palavras difíceis

Nem sempre escrevo da mesma forma, há momentos de silêncio, de procura incessante de palavras, textos que se perdem sem nunca voltar, luta com palavras. Contudo escrever, apenas escrever, é bem mais fácil do que agradecer e cabe-me mais uma vez a tarefa de fazê-lo, a mais um Pedro, desta vez ao Pedro Correia do Corta-fitas por ter gostado desta crónica. Obrigada, Pedro, mais uma vez.

Momento sitemeter (3)

Gajas despidas com cuequinhas
não temos por aqui.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O suicídio da queijeira

O CSI era rapaz para resolver a coisa, muito embora me pareça que dada a inexistência do projéctil malvado, talvez seja assunto para o Sem Rasto, sabe-se lá onde pára o malfadado, desditoso do demónio, por outro lado, e tendo em conta que alma viva testemunhou a ocorrência, Eu? Não vi nada! quem sabe a Médium me poderá ajudar, se bem que pela limpeza com que se sucederam os dramáticos acontecimentos talvez deva recorrer aos Casos Arquivados ou será que, em última análise, terei de recorrer ao professor Caramba? Uma coisa é certa: quando saí pela manhã, estava tudo intacto, a queijeira repousava tranquila na estante da despensa, o local que ocupou há tantos anos quantos os que habito na minha casinha, e quando regressei ao fim da tarde, o sol já posto, a casa a brilhar pela passagem da minha dona francisquinha a campânula da queijeira tinha um buraco violento, cruzes canhoto, que era aquilo? Na minha queijeira de design nórdico, um presente acarinhado e estimado, os estilhaços rapioqueiros descansavam na tábua que durante anos foi suportando queijos vários à medida dos convivas, comensais e gourmets. O telemóvel depressa. Dona Francisquinha em linha. E a conversa O que é aconteceu à queijeira? Nada. Nada? Mas a queijeira tem um buraco, ficou toda estragada, agora é para o lixo, soltei numa voz esganiçada entre o desgosto e a lamúria. Eu não vi nada. Mas foi enquanto a senhora cá esteve, quando saí de manhã não estava assim. Só se foram elas, e, por elas, entenda-se as gatas. Não pode ser exclamei. E a pergunta Mas a queijeira não é de plástico? É de plástico mas parte-se. Estão, portanto, a ver por que razão só a equipa do CSI me poderá ajudar, uma vez que coisas estranhas acontecem na minha ausência e na presença da guardiã dos espanadores, ou isso ou terei de aceitar que a minha queijeira tem vida própria e auto-mutilou-se pela manhã -credo, imaginam lá o buracão- tendo posteriormente optado pelo suicídio, não lhe restava outra solução tendo em conta o orifício categórico na barriga. Já nem nas queijeiras se pode confiar, quanto mais deixá-las em casa sozinhas enquanto se anda lá fora a lutar pela vida.

Fintar Hades

Dezembro. Frio. Cinzento. Húmido. O combustível de que se alimentam os estados de alma sombrios que atraem as maleitas do espírito, sugam o entusiasmo de dias vindouros e eliminam a esperança de céus azuis de dias cálidos e bondosos. E se a invernia tem algum propósito, será apenas o de contraste bruto, para que os dias bons sejam ainda melhores, os mais solarengos ainda mais luminosos, os mais cálidos ainda mais abençoados.
O augúrio de acontecimentos tenebrosos começou naquele mesmo dia com a passagem à porta da mercearia. Um sinal inequívoco no portão que dava acesso para um pequeno pátio interior, guardião maioritariamente de laranjas e maçãs, ocasionalmente de abacaxis e mangas e, aos Sábados, de coroas imperiais e gerbérias, indicava que a senhora da foice tinha feito das suas, ceitoura na mão, recolhida no manto, e colhido algum dos entes queridos das três gerações de mulheres administradores, gestoras, empregadas, limpadoras e zeladoras do estabelecimento. As palavras depois, no regresso a casa, Morreu a Avó Paulita. O tom de voz descendente tombado por um lamento, humedecido pelas lágrimas que ninguém viu. Morreu? Como morreu a avó? Sei lá. Morreu. Passei à porta e estava lá um sinal, um anúncio daqueles da casa funerária. Ora essa. Ainda ontem vi a mulher, retorqui Não pode ser. Como se a morte se fizesse sempre anunciar Vou aí. Vou passar por aí. E por saber ficou se houvera aviso de recepção para o infeliz acontecimento. Anunciara-se de facto, a senhora da foice? E se não o fizera, como se atrevia, desavergonhada e intrometida? Alguém a houvera chamado, por acaso? E assim se continuou no ano soturno que findava, e assim se prolongou a cogitação Mas como? Pobre avó Paulita. Determinou o destino a ausência do lugar malfadado por uns dias, dias em que rotunda senhora permaneceu na mente, defunta e enterrada, vestida de negro e sisuda, um rectângulo de cetim branco rematado com renda sobre o rosto finado e a meia dúzia de filhos, outra meia de netos e uns quantos genros desgarrados em prantos vários Ai minha rica mãe! Ó minha rica mãezinha. Pobre mulher. Parecia tão saudável. E assim era. Mais saudável que simpática. Mais vivaça que magra. Mais rija que sorridente. A avó Paulita era um daqueles seres únicos, benza Deus, agora falecida, coitadinha da senhora, que nos orgulhávamos de conhecer. Além de pôr as filhas na ordem, duas pelo menos, o filho doente que era um c***s no dizer da filha do meio, e ter umas mãos de ouro com que amassava o pão, um verdadeiro deleite para os habitantes da aldeia, quente e perfumado e, à semelhança da sua progenitora, forte e resistente, detinha o cargo indestrutível e firme de matriarca respeitada a quem bastava um olhar severo e umas duas palavras para se fazer obedecer. Também por isto, a avó Paulita deixara saudades, muitas saudades, e a certeza de se regressar à mercearia de olhar pesado, as palavras trôpegas na garganta e alma pesarosa na ausência. Algum dia seria, porém, que na morte sempre se diz que tem de se andar para a frente, andar, já se vê, que só os mortos morrem e retomar os afazeres para que a ausência se amacie e se esbranquice depois como uma nuvem de fumo distante. E assim foi. A mercearia repleta empurrava os fregueses para a saída, enquanto as duas filhas, a mais velha e a do meio, aviavam a freguesia turbulenta. Pobre avó. Logo havia de se finar. Um ouvido apurado. Seria? No burburinho da mercearia congestionada três letrinhas sobressaíam inequívocas MÃE? Mãe, pois. Um pescoço que se ergue, os olhos interrogativos que se procuram e eis que, vinda do além, surge a avó Paulita. Impassível. Caramba. A admiração subiu a pique. A avó Paulita fintara a senhora da foice Julgas que és mais teimosa que eu? e regressara triunfante da batalha com a cadavérica, embatucada, enfezada, mafarrica, malfadada ou isso ou tinha sido a mãe da avó Paulita que se finara. Quem disse que eram apenas três gerações de mulheres? A avó Paulita ficou na história como a única pessoa que regressou do além. Quem derrota Hades deve morar no Olimpo mesmo que o Olimpo esteja sito na mercearia da aldeia.

foto: minha

outras crónicas

domingo, 20 de janeiro de 2008

Ainda do silêncio

Eu é que agradeço um post tão elogioso, Pedro. O silêncio é mais fácil do que as palavras que uso para agradecer, elas são sempre mais pequenas, menos eloquentes e menos profundas mas sempre sentidas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Mar (3)

Morro de São Paulo, Brasil
foto: minha

De manhã, o choro

Chorar de manhã é pior do que chorar à noite. O choro da noite liberta o azedume do dia passado, a negritude da alma encontra o par perfeito na escuridão que a noite oferece, o corpo embalado na almofada, curvado sobre a cama, recolhido sobre si mesmo na reminiscência do que se foi. E depois o sono embalado no choro, uma noite mais, o dia que amanhece lavado nas lágrimas da noite, limpo, contudo, os olhos limpídos para a luz do dia, o corpo aliviado da inquietude destilada nas gotículas salgadas. O choro da manhã é violento e tumultuoso. Um aperto no coração. Um torniquete na alma. O corpo acordado subitamente aos tropeções pelo choro, a alma não se deixando espreguiçar, a luz do dia turvada pelas lágrimas e o rosto disforme à luz do dia é ainda mais disforme, desproporcionado com a claridade dos dias luminosos. A minha aluna chora de manhã: o corpo esguio e magro tolhido com as lágrimas matinais, os olhos turvos de pálpebras inchadas, o rosto ainda amassado da almofada, subitamente entumescido, ruborizado por vezes. A minha aluna chora pela manhã, enquanto os adolescentes ensonados oferecem sorrisos envergonhados, libertando-se devagar ao ritmo da chegada da manhã, progressivamente mais soltos, livres, felizes, despreocupados, prontos para acolher o dia. Enquanto isso ela chora, o rosto agora mais pálido, a cabeça encostada na parede, vencido pelo tormento das lágrimas indesejadas e intrometidas. Tanto cansaço pela manhã que se queria bela e tranquila.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Mar (2)

Negril, Jamaica
foto: minha

Maior que as palavras

Somos o que escrevemos ou escrevemos o que somos? Na viagem pendular entre as duas premissas fica a certeza de que a Carlota me descreve sempre maior do que sou e por isso deixo aqui um agradecimento maior do que o que escrevo.