Sentada no sofá a consciência cutuca-me no ombro. Realmente, penso. Subo ao quarto, visto uma t-shirt e calço os ténis, penduro as chaves de casa ao pescoço e abalanço-me porta afora, brindada de imediato com o perfume e a exuberância da glicínia que adorna a pérgola. Primavera generosa, esta que se pôs de rompante. E subo a rua e viro à direita, lançada pela morrinha de nada fazer a não ser mexer o corpo, esse que se me pôs e que nem sempre reconheço como meu. Vã esperança de o recuperar. Patética ilusão. Sol na cara como gosto e o campo todo que se vai deixando desvendar pela pletora de aromas que inspiro como perfume à medida que passo. Os limoeiros carregados e simultaneamente em flor libertam uma fragrância apaziguadora, acentuada pelo sol que me bate no rosto. Cães que ladram em fundo. Longe. E depois o cheiro do pinhal tão característico e marcante, a reminiscência dos piqueniques da infância. Inspiro. Expiro. Tão fácil afinal.
Páginas
terça-feira, 26 de abril de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Leituras
O mundo é um livro e aquele que não viaja lê apenas uma página.
Santo Agostinho
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Fim de tarde no campo
terça-feira, 12 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
O inferno entre quatro paredes
Segunda pela fresca. Acordo ainda antes do despertador tocar. Estico uma perna e sinto uma gata que me acompanha nesta sorna discreta. Espreguiço-me no enlevo de quem tem finalmente uma segunda de manhã mais tranquila. E desço. Há sol e a serenidade de uma manhã de Primavera carinhosa. Deixo sair as gatas. Tomo o pequeno-almoço nas calmas com a porta da sala aberta para que façam o que mais gostam: entrar e sair a contento. Não há melros agora, penso. E deixo-me acarinhar pelos momentos descontraídos, a paz esperada depois de meses de bulício. E lembro-me. Há que confirmar a reunião, dez e meia ou onze? E penso, O raio da reunião. E repenso É rápido. E relembro de repente o mau humor das últimas reuniões em Dezembro. Uma raiva furiosa de me ver dali para fora o mais rapidamente possível, uma vontade estúpida de não falar com ninguém, de meter a cabeça nas tabelas de Excel, de me escusar a cumprimentos e palavras, ouvir as balelas ocas como um pêndulo entre extremos disparatados onde tudo tem desculpa e a mínima transgressão deve ser punida com reclusão a pão e água, pobres adolescentes que nem o podem ser e, acima de tudo, regressa a vontade de fugir para longe como se estivesse a ser submetida a uma tortura inominável com hora de entrada e saída. A escola são os alunos. Sem eles tudo me parece insuportável entre aquelas quatro paredes.
domingo, 10 de abril de 2011
Domingo de manhã
Domingo. Enquanto me entrego pela manhã na preparação do almoço tranquilo sem pressas nem balizas de tempo castradoras, espreito a tarja de mar lá no fundo, a companhia apaziguante em dias de acalmia, o bálsamo de esperança em dias sombrios de alma decaída. Verifico ingredientes e vou delineando planos com a rapidez da execução multifuncional. Morreria de tédio de mim própria se assim não fosse. A morrinha irritante de esperar a cada momento sua coisa, como se a vida fosse uma infindável fila de momentos e objectos de senhas de atendimento em riste, aguardando enfim a sua vez. Ouço os cães agitados. O ladrar que indicia alguém novo na rua. Pela janela da cozinha vejo duas mulheres jovens a tocar à campainha dos vizinhos. Azar, penso, os vizinhos não abrem a porta a estranhos, sejam eles hordas de crianças em dia de Pão-por-Deus ou a mulher dos alperces que a espaços cá passa, quando é o tempo dos alperces ou o das uvas também. As mulheres abandonam o portão do vizinho resignadas à sorte da porta fechada, metáfora tão provável de outros momentos da vida. Verifico o almoço e a campainha toca. Dirijo-me à porta. Pergunto-lhes ao que vêm. Solicitas e de sorriso cândido largam a prosápia Vimos convidá-la para um evento. Muito bem. E qual é o evento pergunto. Atiram-me É um evento a nível mundial que vai acontecer a 17 de Abril: o enterro de Cristo Jesus. Agradeci cordata. Não estou interessada, obrigada e recolhi-me. Estranho convite a um Domingo de manhã.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
A tragédia da classe económica
Raramente terei começado post algum com tanta vontade de escarrapachar nomes, assim uma espécie de anúncio à moda do Velho Oeste: WANTED mas hoje, ai hoje, logo hoje, passados uns meros dias sobre o anúncio fatídico da vinda desse tal FMI ou FEEF ou outra coisa qualquer que, surpreendam-se, vai ajudar a Banca, deu-me esta ímpeto. Foi logo pela fresca quando no meu mural facebookiano me anunciaram que nove dos nossos deputados europeus votaram contra uma proposta para que os voos com duração inferior a quatro horas passassem a ser em classe económica. E agora os nomes e os partidos, já agora: José Manuel Fernandes, Paulo Rangel, Regina Bastos, Carlos Coelho, Mário David, Maria do Céu Patrão Neves e Nuno Teixeira do PSD e Luís Manuel Capoulas Santos e António Fernando Correia de Campos do PS votaram contra. Numa altura em que são pedidos mais sacrifícios do que o conseguimos suportar não ficaria nada mal aos senhores doutores engenheiros arquitectos deputados, uma verdadeira realeza que não se pode sentir encunicada durante umas reles quatro horas e precisa desta afirmações bacocas de uma dignidade vã, dar o exemplo. Desengane-se quem acha que este país ainda tem viabilidade com gente desta. Não tem.
Também no Delito de Opinião
domingo, 3 de abril de 2011
Gastão
Arranham-nos os sofás, querem dormir connosco, dormem connosco, esfregam-nos os bigodes pela fresca, espreitam nos momentos menos convenientes, trepam pelos cortinados, querem comer a nossa comida, exigem festas e carinhos e distância se for caso disso, sentam-se no jornal que estamos a ler, mas trucidam-nos de dor quando decidem partir sem aviso. Foi assim com o Gastão. Desta vez a sorte já não lhe chegou.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Comunistas e brasileiros
Quis a sorte, a coincidência ou o azar, lá para Junho já saberei, que devido aos meus afazeres profissionais tivesse de conviver com umas peruas urbanas. Vejo as peruas uma vez por mês sensivelmente e para minha imensa sorte revezam-se: ora vai uma ora vão duas mas apenas uma vez se juntaram as quatros, ou as três, já que uma, embora perua, tem a sua condição em estacionária e é relativamente simpática. Na sua condição de peruas sabem mais do que todos os presentes, falam também mais do que todos os presentes e têm a sobranceria própria de quem sabe sempre tudo.
Quando uma dessas vezes se falou sobre música e sobre festivais de verão a propósito do Wacken Open-Air e deste filme, rematei que os meus alunos e alunas gostavam muito de ir ao Avante. Soube-o quando me reencontrei com as minhas alunas depois do Verão e felizes pelo feito partilharam excitadas que tinham conhecido um comunista alemão, pasme-se, e que tinham trocado umas palavritas na língua de Goethe. Uma das peruas, abriu a boca em O, manifestamente incomodada, onde já se viu, sua comunista de merda, e atirou lesta que isso era outra coisa, depois de restolhar o traseiro na cadeira e de me arremessar um olhar mortífero, quase temi que deitasse chispas pela boca. Eu pensava que este medo dos comunistas era coisa do passado, é certo que a perua não é nova, mas credo, aquele medo até me deu medo daquele bicho de cabelo armado e dedos cobertos de ouro mais a medalhinha da senhora de Fátima ao pescoço. Lá justifiquei que para os adolescentes a política não interessa e que vêem o Avante apenas como mais um festival e uma forma de se divertir.
O segundo quid pro quo surgiu a propósito da contenda português português e português brasileiro. As peruas, desta feita em par, rebelaram-se contra os livros em português brasileiro. Que não, que não gostavam. Que não gostavam do português do Brasil. O orientador do curso olhou-as meio surpreendido e acrescentou Então e a música brasileira? Fizeram um esgar Ah pois. Uma das peruas assanhou-se e começou a destilar o ódio midúdinho contra o acordo ortográfico e eu, já com palpitações, afirmei que sim que gostava do português do Brasil, que era doce e melodioso e perguntei-lhes E quando lêem livros de autores brasileiros? As peruas restolharam os rabos nas cadeiras e responderam Mas o Paulo Coelho nem escreve bem em português do Brasil. Ora estamos conversadas quando para alguém a literatura brasileira é Paulo Coelho. Ainda estive para lhes esfregar nas cristas uma série de outros nomes, mas deixei-as lá sossegadas. Ide fazer glu glu para outro lado.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Gente que ainda gosta daquilo
Já não é a primeira vez que isto me acontece. Seria talvez uma segunda-feira. Aulas dadas. Entro na sala de professores exactamente como sempre, a mulher de sempre e a professora de sempre. Arrumadas as aulas, restavam-me aquelas horas inanes de cumprir horário na escola e de nada fazer, já que o que tenho de fazer só mesmo em casa rodeada de livros, papéis e um computador. Ajeito o dossier e arranjo espaço para me sentar a uma mesa. Ouço um reparo Olha mas ela não. Olhei. Sim? Tu não, Leonor, vens aí como sempre toda bem-disposta. Ora, aqui a Leonor não está é para aturar queixumes, não mais queixumes acerca de ordenados roubados e progressões que não se fazem, até porque na melhor das hipóteses irei ficar nove anos no mesminho sítio, nada, zero, nicles, coisa nenhuma de progressão alguma, igual se sou boa ou má profissional, se me dedico ou vou lá cumprir o frete de aturar adolescentes borbulhosos e de hormonas furiosas ansiosas por arranjar um lugar ao sol. Tendo em conta que me faltam ainda vinte anos de serviço, não me parece que começar a ver a escola como o demónio dos demónios e isto que nos estão a fazer, seja lá o que isso for, um verdadeiro apocalipse, seja a mais saudável das atitudes. Não é e não quero. Assim sendo, apenas por uma questão de sanidade mental decidi chutar para trás das costas essa preocupação furiosa, essa ladainha queixosa de que somos uns desgraçados, não porque não me preocupe e não que não desabafe como se pode ver uns posts aí em baixo, a angústia de um dia não ter energia assalta-me a espaços, é um facto, mas porque se me preocupar em demasia existe apenas uma pessoa, uminha, que irá sofrer as consequências: eu. Nada adianta passar os dias aos caídos, escadas acima escadas abaixo na minha agora reabilitada azul cueca. E para que conste: eu gosto de ar aulas. Imagine-se. É verdade. Ainda há quem goste daquilo.
Liebe
liegen, bei dir
ich liege bei dir, deine arme
halten mich, deine arme
halten mehr als ich bin.
deine arme halten, was ich bin
wenn ich bei dir liege und
deine arme mich halten.
ernst jandl
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Ando...
por aí, mais uma vez com trabalho até às orelhas.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Crónica de uma professora babada
Tem cabelo cor de avelã, em cachos rebeldes que lhe cobrem os olhos amendoados e doces, tão límpidos de uma adolescência tal como ela deve ser: tumultuosa pela descoberta e desalinhada q.b. para que o mundo se conheça. É muito educado, senta-se sempre à minha frente e, quando chegou, trazia consigo palavras soltas de uma banda germânica de música, letras e sons sem nexo que lhe aguçaram a curiosidade. A medo foi-me perguntando o que significava isto ou aquilo acabando por confessar que receava impropérios no meio daquele linguajar germânico sem concessões nem lamentos. Tranquilizei-o. Quando começou a saber umas palavritas que a professora aqui lhe ensinou começou a criar os seus próprios enunciados juntando palavras e fazendo frases cada vez mais complexas e numa tentativa clara de se aventurar língua adentro como quem pisa um território desconhecido, apetecível contudo, uma apropriação clara de um património cada vez mais seu. Assim é sempre que se aprende uma língua. A professora babada ficou deleitada com as proezas do seu aluno, ainda mais quando depois de lhes ensinar schön e nett ele se virou e engendrando uma frase afirmou em jeito de despedida enquanto ajeitava a mochila às costas para um fim-de-semana longe de livros e cadernos Du bist schön und nett. Sorriu-me meio tímido no fim e despareceu porta fora. Omiti que em vez de Du devia ser Sie e deixei-me a sorrir para o quadro enquanto eles todos levavam as hormonas a passear num dia de Inverno ensolarado. No segundo período regressou com um presente que lhe tem ocupado uma parte das aulas: um dicionário ilustrado de Alemão. Atento, confirma e acrescenta sempre palavras ao que lhe vai sendo ensinado. Há dias, depois de ter mergulhado os caracóis e o sorriso no livro colorido atirou-me Das Kleid steht Ihnen gut. Ora no dia preciso não estava de vestido e respondi-lhe em alemão para que não se equivocasse. Hoje algures pelo fim da manhã, sorriu-me de novo e aplicou-me pela segunda vez Das Kleid steht Ihnen gut e anda em Português. Hoje está bem stora. E estava. Igual se de saia, vestido ou calças.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Delights
Vinte e duas e cinquenta e nove marca o relógio deste ecrã em branco de onde escrevo. Do lado direito um livro que trouxe num fim-de-semana em Dublin, escolhido num dos raros momentos de total descontracção entre escaparates cheios de livros e silêncios entrecortados pelo passar de páginas tranquilo e passos quase cerimoniosos de impacto absorvido pelas alcatifas acolhedoras. Modern Delight chama-se. Breves textos sobre os pequenos prazeres do quotidiano, tudo aquilo que pode marcar a diferença neste continuum de dias e meses e anos a que se chama vida. E fiquei a pensar que prazeres são esses os que ainda mantenho deste caminho que se tornou num corrupio, permanentemente de cabeça cheia de burocracias e tarefas para cumprir, que prazer resta de dias e dias afogada e esmagada pelo cansaço.
Vinte e três e onze, confirmo. O crepitar da lareira e a noite de breu lá fora a embalar sonhos e a acalentar a esperança de um dealbar luminoso. Uma gata que se espreguiça. Pequenos prazeres.
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