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sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Na rota do Achamento

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.

Deste Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz
Pero Vaz de Caminha


Sabido é que os antigos tinham imaginação fértil e que os relatos transbordavam de efabulações várias. Nada como ver com os próprios olhos. É o que vou fazer. Caso aviste semelhante...

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.

saibam pois que por mim não respondo. Darei notícias.

Nove meses

Ao sair da bomba de gasolina cruzei-me com um antigo aluno meu. Observei-o bem. Das feições do garoto sentado sossegadamente nas aulas quase tudo se mantém. A mesma calma, o mesmo silêncio, um pouco de tristeza talvez. Uns quilos a mais. Algo, porém, sobressaía. o cabelo estava branco, grisalho, um sinal gritante da passagem de Cronos, Cronos que tem mais pressa do que ninguém. Quando se cansará Cronos? O homem que nasceu do menino esboçou um cumprimento velado, algo tímido e eu correspondi-lhe da mesma forma. Aprendi com o tempo, e com os alunos, que os cumprimentos se aprendem também como as línguas, um código íntimo muitas vezes só em uso entre duas pessoas, incompreensível aos demais. Isto de ser professor tem coisas destas, banais, quotidianas. Um cumprimento aqui, outro ali. Um olá, um beijo. E disto também se vive. Vive-se da passagem do tempo em comum, das cãs, do crescimento, da calvície, dos quilos a mais, das rugas vincadas, das despedidas e partidas. Num dos dias de festa na aldeia fui chamada por uma aluna do ano passado, bem alto e bom som. Acredito que se me tenham rido os olhinhos, embora espelhos não tivesse, mas, se os olhos são os espelhos da alma, e se alma se me ria, ter-me-ão sorrido os olhos também. Estava bronzeada e feliz a C., quis saber pormenores do próximo ano, perguntou-me se aquele era o meu marido, cumprimentou-o educada e quando apareceu outra da mesma turma, o episódio repetiu-se e os meus olhos ter-se-ão incendiado de novo. Partiram as duas saltitantes rumo ao espectáculo que ali as levara, rumo à vida que as esperava lá fora. Na verdade, os meus alunos são meus apenas durante nove meses das suas vidas, muito pouco portanto. Sei que daqui a uns anos alguns continuarão a cumprimentar-me, outros ignorar-me-ão, e sei acima de tudo que os seus trilhos se traçam independentes e livres. Assim será e assim deve ser. Nove meses. O que são nove meses?
Foto: minha

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Sinais dos tempos

Jesus vive!
Vive,
quer aprender alemão
e
anda de bicicleta.
Atestei-o há minutos a caminho da tabacaria
.
Os tempos já não são o que eram.

A Úrsula e eu

Quando a canícula do Estio se abateu sobre a aldeia, a mercearia não foi excepção. Exalava um calor infernal vindo das profundezas do estabelecimento. Lá dentro, numa tarde de Sábado paulatina, apenas a irmã da dona da mercearia. Nestes raros momentos de silêncio apenas entrecortado com o silvo da ventoinha no tecto e uma de pé junto ao expositor de batatas fritas e outras tentações do demo das enfermidades cardiovasculares, a conversa envereda por caminhos mais íntimos, característicos da esfera menos pública de cada um dos frequentadores do local. Foi assim que fiquei a saber, por exemplo, que homens, gajos, para a dona é só uma vez, uma vez por semana, disse, e que duma outra, na incapacidade de enganchar um pau recurvo na ponta com o laço pendurado da ventoinha para fazer a mesma funcionar, estava já há um mês à míngua de se abandonar sem reservas e sem culpa nos braços de Eros com um colito no regaço de Baco. Surpreendeu-me nesse dia. Não pela franqueza do seu comentário, o desabafo sincero e natural, mas porque nesse mesmo dia a minha mãe estava também presente e não sendo propriamente desconhecedora dos mistérios e pulsões do corpo, passaria de certo muito bem sem tal confissão pungente. Duma outra vez ter-me-á dito que os homens, quanto mais despachadas as mulheres, pior, fogem logo, referindo-se a quem anteriormente tinha designado por Eh pá, agora tenho um gajo lá em casa que me faz o almoço. Que havia eu de dizer? Ah pois, pois, um sorriso aqui outro ali e vá de sair da mercearia. Foi assim também que saí nesta tarde escaldante de Agosto.
A irmã da dona refogava-se de calores. Quando me aproximei da ventoinha de pé para escolher uns bolinhos secos dentro de uma cesta sobre a arca frigorífica, a mulher perguntou-me é adbogada de quê? omitindo o bocê tão característico. Confesso que ainda hesitei e me revi em Robert deNiro no filme "Analyse this", Are you talking to me? Para nos entendermos na mercearia não basta apenas dominar a língua, tem de se partilhar um estado de espírito, um certo modo de perspectivar a realidade. Foi isso que me sucedeu naquela tarde de Agosto.
Expliquei à mulher que não era advogada, era professora. E a conversa começou a fluir assim que me aproximei da caixa. No ambiente intimista, confessei-lhe que ia pela primeira vez fazer sangria. Ah… respondeu ê na gosto muito, ê bebo é muita água acrescentei que também eu. Ela disse memo à noite lebo uma garrafão de água pró pé de mim pois, eu também tenho uma garrafa de água sempre, e ela disse inda onte, bebi uma pinguinha de cerbêja e começou logo a fazer-me mal ao estômago pois, pois na posso, nem ice tea nem nada Conclui que seriam mesmo problemas de estômago, até porque anteriormente, e isto de uma vez que eu e o H. esperávamos que ela nos fizesse a conta, a mulher tomou-se de esgares e esfreganços no abdómen de frente para a caixa registadora, soluços e quase regurgitanços de lado para a montra dos queijos e refrigerados. Oferecemos-lhe ajuda. Recusou-a, recompondo-se de seguida. E a mulher continuou Isto é… Olhou-me fixamente à espera que lhe providenciasse a palavra em falta e o inexplicável aconteceu, como um empurrão ou uma voz que me gritasse ao ouvido, saiu-me irremediavelmente a palavra pululante na minha cabeça ÚRSULA. A mulher visivelmente satisfeita pelo entendimento comum disse Pois, é uma úrsula Ainda acrescentei E deve ser de origem nervosa... Ela concordou com o meu diagnóstico Ah pois! Despedi-me e sem mais abandonei a mercearia, envergonhada de mim mesma, preocupada com este linguajar inesperado, perdida de riso de mim própria mas incapaz de desfazer o equívoco. Bem sei que várias vezes sou intérprete da minha própria mãe quando ela arrisca a falar nortês e pronunciar palavras indecifráveis aos ouvidos saloios: manco para coxo, testo para tampa da panela, sertã para frigideira, cresceu para sobrou, cruzeta para cabide. Este episódio, no entanto, foi longe demais nos anais da minha história de tradutora-intérprete. Temo agora as consequências do mesmo. Mesmo sabendo que os professores não têm prestígio algum, consigo prever uma discussão à antiga na mercearia Ó pá, mas já na te disse que né assim que se diz… e a proprietária da Úrsula Mas né assim o quê? Né assim o quê? Tens a mania que sabes mais cós outros. Até aquela qué professora disse quera úrsula e tu tas a dizer que na é? Ah pois é.

foto: minha

terça-feira, 22 de agosto de 2006

What´s in a name?

Os nomes são animais perigosos. Uma vez agarrados ao seu significante jamais o deixarão e sobre isto, como se sabe, já perorou e discorreu Ferdinand de Saussure e escreveu um texto obrigatório Peter Bichsel. Desconheço se Saussure o terá feito sobre os nomes próprios mas já o nosso amigo William Shakespeare deixou Julieta Capuleto clamar contra as vicissitudes do nome que trazia inscrito na sua identidade. Sem conseguirem ver-se livres dos mesmos, ela e Romeu outra opção não tiveram, se não ir ao encontro de Thanatos. Os nomes podem ser coisas malévolas, portanto.
Um destes dias ao dar uma volta por um qualquer blogue deparei-me com um comentário, numa caixa que lhe empresta o nome, dando conta que Miguel Esteves Cardoso estava na blogosfera. Fui ao blogue em questão e, em nada se assemelhando à escrita de Miguel Esteves Cardoso, estranhei a sua autoria e esqueci-o. Não me interessam os nomes, interessa-me o conteúdo. Portugal está cheio de gente com nome e esvaziada de conteúdo. Os comentários eram muitos e as visitas idem. Um número significativo de bloggers e não bloggers acorreu em vassalagem ao grande mestre. Descobriu-se, pois, que tal como Dom Sebastião da Ericeira, Miguel Esteves Cardoso não era o Miguel Esteves Cardoso e o blogue não passava de um embuste. A atitude fala por si. Usurpar a identidade de outrem é crime. O mais divertido, patético talvez, é mesmo o entusiasmo com que se recebe um nome e não mais do que um nome. Se fosse o Zé Maria Pincel a criar um blogue, ninguém quereria saber. O Zé Maria Pincel não abre portas, o Chico da Trincha idem. Não são ninguém, não têm prestígio e, como tal, não interessam a ninguém.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

domingo, 20 de agosto de 2006

Lugares

Hoje de novo a mesa posta e o meu pai ausente. O lugar do meu pai ausente. O lugar ausente do meu pai. E eu de olhar estupefacto, quase acusador. E agora? Sim, e agora? O olhar inquisitivo e pesaroso entre a mesa e o H., paciente ao meu lado, quase aflito por aquela falta que subitamente deixara a descoberto por um prato a menos na mesa e os dois lado a lado, como sempre, lado a lado, ajudando-nos a resolver aquele vazio ainda, o lugar em branco e os pratos às voltas sobre a mesa como se de um jogo se tratasse. Um puzzle do qual falta uma peça, um puzzle incompleto até ao ocaso dos dias, o puzzle subitamente inacabado, e agora?, traído pela vida que o fez completo. Sim, e agora? E os pratos e talheres dançando sobre a alvura da toalha. Assim? Não, assim. Agora fica ali um espaço. Assim? Sim, assim fica bem. Há mortos que não param de doer.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

No tempo do Nero

A minha avó materna nasceu a dezassete de Agosto de mil e novecentos. Teria hoje cento e seis anos caso fosse viva, idade altamente improvável e, portanto, recordo-a hoje, como em quase todos os dias da minha vida, com carinho e ternura mas com a resignação e conformismo do óbvio. Às vezes penso que ela e o meu pai partilham juntos os dias da eternidade.
Viveu oitenta e nove anos e sempre a conheci da mesma maneira: roupa preta do luto permanente pela filha e marido e cabelo branco, alvo e revolto. Na infância o contraste suscitava a minha curiosidade, como se fosse uma avó a preto e branco. Era pequenina e de convicções inversamente proporcionais ao seu tamanho. Com ela passei vinte e quatro anos da minha vida. Ajudou-me a crescer e através dela tive a percepção da mudança radical dos tempos nessa travessia que foi fazendo século fora. Era uma amante indefectível da televisão e confessava amiúde Agora há coisas muito bonitas! maravilhada com as descobertas humanas e a evolução da tecnologia .
Não se conformava, porém, com o caminho desregrado dos modos e costumes. Conta a minha mãe que ela e a minha bisavó terão destruído as páginas de um livro do Egas Moniz, onde eram dadas as ver aos incautos as partes pudibundas de homem e mulher, para proteger a minha mãe, de tenra idade, desse pornógrafo também Prémio Nobel da Medicina. A minha mãe nunca se conformou com a castração do livro. Vinda do tempo em que mostrar o tornozelo era já uma ousadia, tudo o que na óptica da minha querida avó implicasse falta de pudor e de vergonha era catalogado a preceito. Que o diga eu, que no alto dessa idade guerreira e quando dei em usar saias que descobriam as coxas grossas, era sempre olhada com reprovação veemente e chamadas de atenção punitivas e castigadoras. Amiúde colocava-se por trás de mim e tentava, em vão, puxar as saias para baixo. As repreensões vinham em dois sentidos: um, não havia direito de andar assim com as carnes a descoberto, uma falta de vergonha e dois, não havia direito de ter umas carnes assim e andar assim, com as ditas destapadas. A idade adulta trouxe-me a lucidez ausente na idade guerreira e hoje sei que a segunda repreensão era justa, a bem do sentido estético.
Nesses tempos idos a minha avó recorria com muita frequência a uma expressão da qual ainda fazemos uso presentemente. Não sei o que terá aprendido nos livros, amante e devoradora que era dos mesmos, mas sei que repetidamente e quando lhe era dado a observar um comportamento devasso, despudorado e debochado, classificava-o, utilizando esse grande insano do Nero, o Imperador pirómano. Dizia Ai que pouca vergonha. Estamos no tempo do Nero! Quando me vi perante o Coliseu de Roma e do outro lado o que terá sido a casa do debochado mor do Império Romano, ocorreram-me de imediato esses tempos, os do Nero, do porco debochado, do libertino imoral entregue aos prazeres de Baco sem reservas, e, de novo, ouvi a minha querida avó evocando a idade dos excessos. Acredito que caso a minha querida avó vivesse hoje consideraria o Nero um pobre inocente perante o que lhe seria dado a observar na caixinha mágica mas continuo sem saber quem iria evocar para qualificar os tempos contemporâneos. É que depois do Nero nem eu me lembro de um maluco tão grande.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Jesus vive

A travessia entre a sala dos professores e as salas de aula é um slalom perigoso entre palavrões e hormonas palpitantes. Na secretária junto à funcionária, quando fui recolher a chave para entrar na sala, encontrava-se um indivíduo, aluno da noite, à minha espera, assim foi a informação da funcionária. Quando me viu chegar, abeirou-se de mim e encetou a conversa.
Era um homem feito, de barba cerrada, alto e moreno, de olhar esbugalhado. Contrastava ferozmente com os alunos à sua volta e destacava-se pela altura. Digamos que a sua presença não me deixou particularmente à vontade em virtude do olhar fixo e algo parado no ponto que fixava. Queria pois aprender alemão e após ter consultado o Conselho Executivo, assim disse, e o parecer ter sido favorável, vinha então saber se eu não me importava que assim fosse. A minha sala de aula é como a Fundação Casa de Jorge Amado Quem for de paz, pode entrar, de resto, como a minha vida e, portanto, a porta estará sempre aberta para quem se dispõe a ser iluminado pela candeia do conhecimento, seja lá o que isso for. Assim sendo, disse ao homem que sim, que a partir da próxima aula poderia vir então familiarizar-se com a língua alemã. Na aula seguinte apareceu. Trazia já o manual e o restante material e sentou-se junto das alunas, oito apenas. Antes do início da aula informei-o de que se tratava do segundo ano de língua e que faltando-lhe o primeiro era natural que sentisse algumas dificuldades na língua de Goethe. Não se resignou. Disse que sim que iria aprender e eu mais não disse. Nada como sentir para constatar. Digamos que a presença do homem, tal como da primeira vez que o avistei, era algo intimidatória, também pelas suas proporções de Gulliver face às restantes alunas.
Teria passado uma semana ou semana e meia quando me chamaram ao Conselho Executivo. Que estava ali a fazer o homem, inquiriam. Pois mais não fazia do que lhe havia sido permitido por ele próprio, Conselho Executivo: assistir às aulas para aprender alemão, respondi. Que não. Que o homem nunca lá fora. Que não lhe tinha sido dada autorização. Ao que parece ter-lhe-ia sido dito que deveria aguardar por um parecer positivo mas como se sabe aprender é por vezes uma urgência inadiável e o homem, que mal podia esperar para se ambientar na língua de Kant, debandou sem demora rumo aos linguajares germanófonos. Na verdade, fiquei sem saber o que fazer. Por um lado, dizer-lhe que não podia mais assistir às aulas, apenas porque havia indícios de que sofria de alguns distúrbios mentais, não me parecia bem, porque não era fundamentado e o pobre homem era pacífico, atento e respeitador, por outro, a presença estranha dele criava um certo desconforto. E enquanto tudo se decidia, o homem percebeu que, faltando-lhe o ano de iniciação à língua alemã, a língua de Nietzsche se tornava tão imperceptível quanto a escrita hieroglífica antes da descoberta da Pedra de Rosetta e não mais apareceu nas aulas, justificando-se–me posteriormente com as lacunas sobre as quais o avisara.
Com o decorrer do tempo fui-o avistando amiúde. Umas vezes na sala de estudo às voltas com a Matemática, outras aqui pela aldeia praticando jogging e a última vez que o avistei foi ontem mesmo no dia da procissão da aldeia. À frente vinha um senhor idoso segurando um estandarte escarlate, depois outro mais novo com um dourado. Logo atrás um grupo de mulheres com cestos cheios de bolos à cabeça, depois a Virgem Maria montada numa burrica com o menino ao colo e São José impaciente puxando pelos três. Seguiam-se Santo António, a Senhora das Candeias, o andor da Senhora de Fátima, três Rainhas-Santas e uns anjinhos.
Em grande destaque, logo após, vestido de roxo, Jesus Cristo, de rosto ferido e coroa de espinhos. Com um ar compenetrado e recolhido carregava uma enorme cruz de madeira castanha onde estavam cuidadosamente inscritas as insígnias do Salvador. Atentei no Cristo. Iria jurar que já o tinha visto algures. Seria? Sim, era. Era ele. Jamais me teria passado pela cabeça que ilustre personagem tivesse abrilhantado as minhas aulas. Jesus vive afinal! Vive e quer aprender alemão.

Aldeia em festa

foto: minha

sábado, 12 de agosto de 2006

Calígrafos anónimos

Calceteiros. Quando alguém tiver a sorte de encontrar estes mestres agachados à flor da pedra, pensará em escribas acocorados. Ou, vendo-os a inscrever imagens a tracinho pontilhado segundo a regra dos gravadores da pele, talvez os tome como memoralistas que, em penetrações quase rituais, revestem o corpo da cidade com tatuagens impressas a basalto e então é como se as figuras, as datas ou os símbolos que fazem a encenação dos homens passassem a fazer também a encenação das ruas.

José Cardoso Pires, Lisboa Livro de Bordo.


Foto: minha, Rossio, Lisboa

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Ver o mar

São Lourenço, Ericeira.
Agosto 2006
Foto: minha
Para a Milucha matar saudades.
Para a
Menina das Estrelas porque sim.

Filha galinha

A conversa regressou mais uma vez. Aqui há uns meses atrás a minha mãe ligou-nos como habitualmente. Estava bem-disposta e anunciou que ia passar um fim-de-semana fora com uma amiga. Queria apenas comunicar-nos e pedir a nossa opinião. Na vida da minha querida mãe só me meto para a proteger desses perigos imensos lá fora e, portanto, foi com enorme satisfação que senti nela vontade de ir. Depois vieram os pormenores. A amiga tinha ganho um fim-de-semana no Algarve, desses que saem nos sorteios. Muito bem. E que sorteio foi esse? indaguei. Sei lá, foi um desses sorteios duma agência de viagens respondeu-me tranquila Mas de agências de viagens como? A minha mãe reafirmou a sua tranquilidade Não sei, sei que ela ganhou e que me convidou. Não fiquei convencida. Também eu tinha sido ofertada com um desses fins-de-semana e sabia que vigarice se escondia por trás Mas que coisa foi essa, mamã? e a minha mãe Ó filha, não sei. Sendo comum o aliciamento de cidadãos incautos para fins menos lícitos nestas histórias de clubes de viagens, comecei a ficar apreensiva e avisei Vê lá o que isso é, mamã, ainda vos vão vender um colchão ou um faqueiro… a minha mãe tranquilíssima A mim não vendem eles nada, quero lá saber que queiram vender, eu não vou comprar. O pragmatismo da minha mãe é proverbial e lacónico. Assim foi ao longo da nossa vida e muitas vezes é motivo de risada. De resto, rir é um exercício que repetimos com regularidade. As escolas do riso para atrair o bom humor e atitude positiva ficariam à míngua de clientela, caso dependessem de nós para o sucesso, quando muito ainda éramos raparigas para lá dar umas aulinhas.
A apreensão da nossa parte, minha e do H., foi-se adensando à medida que os dias decorriam, sendo mais que óbvio, que sim, que se tratava dum daqueles clubes de viagens manhosos que impinge aos papalvos este mundo e o outro de viagens mediante o pagamento mensal de uma avultada quantia. Agora nada havia a fazer, a amiga tinha ido na canção do bandido, e nada mais lhe restava fazer, se não aproveitar o dito fim-de-semana a sul. Pela hora do almoço o H. perguntou-me Olha lá, tu não querias ir arejar? Podíamos ir este fim-de-semana ao Algarve… A minha mãe não se conteve e entre risadas fortes disse Mas ouçam lá, acham que eu não sei tomar conta de mim? continuando o riso convulsivo e ironizando com a preocupação da filha que trouxe ao mundo. Claro que sabes retorqui O problema não és tu. O problema são esses pantomineiros do inferno que te podem burlar… Não se deu por achada. Vocês estão tolos? Burlar como? Já te disse que não vou comprar nada, se eles quiserem vender, azar o deles. O fim-de-semana chegou e a minha querida mãe foi espairecer para o Algarve, rindo-se das crias apreensivas. Veio leve e com uma corzinha. Matou saudades e venerou a memória do meu querido pai no promontório onde ele costumava pescar em verões já muito passados. Fiquei naturalmente feliz por ela e calma por não ter tido que pôr os homens na ordem por causa do faqueiro ou o do colchão.
Hoje surgiu a possibilidade de ela participar num convívio dos colegas de liceu. Encorajei-a pois claro, e teria encorajado ainda mais, caso o dito convívio não implicasse uma viagem de trezentos e tal quilómetros, que ela insiste em encetar no seu Rocinante de quatro rodas, por esse Portugal fora cheio de doidos inconscientes a suicidarem-se nas estradas. Ofereci-me para a lá levar e a risada voltou, o gargalhar divertido. Que sabe muito bem ir sozinha, que não há problema e, mais uma vez entre risos, perguntou Então agora onde é que me deixas ir de carro? A Torres Vedras, posso ir? E às Caldas da Rainha? E a Cascais posso ir? E a Lisboa? É que eu já vi que há um perímetro… tudo rematado com uma gargalhada sonora. É muito difícil ser-se filha de uma mãe rebelde.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Homenagem III

Na cidade tudo era claro e sem mistério como a luz das lâmpadas. No mar tudo era misterioso como a luz das estrelas. As estradas da cidade eram muitas e bem calçadas. No mar só havia uma estrada e essa oscilava, era perigosa. As estradas da cidade já estavam há muito conquistadas. A do mar era conquistada diariamente, era ir a uma aventura toda vez que se partia.
Jorge Amado, Mar Morto
Foto: minha, Baía de Todos os Santos
Jorge Amado nasceu a 10 de Agosto de 1912 no sul do Estado da Bahia na fazenda do seu pai e morreu a 6 de Agosto de 2001 em Salvador. As suas cinzas forram enterradas no jardim da sua casa no Rio Vermelho, Salvador, a 10 de Agosto de 2001, cumprindo a vontade expressa do grande escritor baiano.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

A Praia dos Ricos

O português de Agosto é um bicho temível. Quando não observa aquele pêlo encravado na virilha, sacode as coxas e nádegas dos grãos de areia, quando não afaga a barriga frente ao mar, observa com atenção as plantas dos pés e quando fala ao telemóvel faz questão que a praia inteira o oiça e oiça bem, muito bem.
Devia ter desconfiado da clareira onde escolhi estender-me mas, na verdade, não sou particularmente desconfiada e na praia sou um animal tranquilo. Perto de mim, reparei depois, estava um chapéu-de-sol esverdeado com um saiote em meia-lua cobrindo-lhe pudicamente as vergonhas. Lá dentro três pessoas com mais de cinquenta anos jogavam alegremente às cartas num português cantarolado que bem podia ser daqui, dados os sons nasais achatados e os ii no final das palavras. As coisas até nem iam mal entre espadas e copas, paus e ouros, ases e valetes até fatidicamente o telemóvel ter tocado. Como é sabido o português é também um rapaz que desconhece que quando fala ao telemóvel, os outros, os do lado de lá do telemóvel, são também possuidores de um aparelho análogo e, por conseguinte, o supermercado, a rua, a loja ou Portugal inteiro ficam, regra geral, inteirados do que se passa na vida dos receptores e emissores da mensagem, sejam eles pormenores sórdidos ou pequenos acontecimentos do dia-a-dia.
Hoje não foi excepção. O botão de volume desta mulher tinha uma folga imensa e incapacitante, tornando-se impossível regular a intensidade da voz e, portanto, quando atendeu o telemóvel, o som ergueu-se que nem Adamastor na prazenteira e apaziguadora manhã de praia, com o sol a afagar a pele e o mar a convidar ao banho. Pois, que o avô era muito amigo, que o avô tinha oferecido um portátil, sim, quem é que dava coisinhas lindas, quem era? E a seguir uma conversa com um adulto. Não, não estamos para esses lados. Sim, se fossem para a Costa. Não, não. Sim, sim. Estamos na Ericeira. Estamos, Estamos. Não, Não. Estamos na Praia dos Ricos. Praia dos Ricos? Praia dos Ricos e eu assim tão despojada, sem anéis de ouro ou relógios de marca? Francamente. Que pelintrice. Fui ao banho. Quando voltei a mulher choramingava. Tinha-se recolhido na parte mais protegida do saiote e lamuriava-se de algo. Desta vez a voz sumia-se como um segredo, provando mais uma vez, tal como se diz aqui, que tinha o botão relaxado: ora muito alto, ora em modo de segredo. A praia voltou à baila com uma alteração de voz - ai maldito botão - e, entretanto, ouço-a dizer O melhor é ir para as Caraíbas! Mau! Mau, Maria! Em que é que ficamos? Ainda há pouco gritava aos sete ventos que estava na Praia dos Ricos e agora já quer ir para as Caraíbas? O português de Agosto é um animal temível. Temível, volúvel e insatisfeito. Quem é que estando na Praia dos Ricos prefere ir para as Caraíbas?

Praia de São Lourenço
Foto: minha

Paraty

Uma cidade encantadora recheada de literatura

Paraty, Brasil.
Foto: minha

Mais sobre a Festa Literária Internacional de Paraty

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Da inutilidade da leitura

A conversa ocorria no lado oculto da mercearia. À entrada eram apenas perceptíveis vozes femininas conversando. O L invertido em que está disposta permite que não se consiga vislumbrar à entrada o que se passa na secção das pastas de dentes e champôs, lá para o lado da arca frigorífica guardando no seu borco um delicioso bacalhau com natas. Gritei bom dia! que se falasse apenas não me ouviriam e não dar os bons dias é ainda crime grave em estabelecimentos análogos felizmente. Pouco me ligaram. Terão correspondido com um bom dia automático embrenhando-se de novo na conversa. A irmã da dona da mercearia responsável pelo bom funcionamento do estabelecimento, guardiã de frutas e legumes, era uma das interlocutoras. É uma mulher jovem com dois rebentos, uma já púbere iniciada nas lides da mercearia e outro ligeiramente mais jovem mas que, no dizer da mãe, quer a escola longe e, segundo a qual, ler não é actividade que o rebento execute com facilidade pa ler e escreber é que tá pior. A mulher tem um feito irascível e uns nervos fracos travados apenas pelo chamar enérgico da matriarca, a quem habitualmente cede e obedece sem aborrecimentos de maior.
Uma ocasião estava a mercearia cheia. A mulher tomou-se de razões com o filho, cujo ar rufia sempre me traz à memória a nova coqueluche do futebol português. A voz ia crescendo à medida que a distância física diminuía da criança. Meia dúzia de perguntas Onde é que bocê foi? Quem é que disse que bocê podia iri? Quem é que deu autorização a bocê pra iri? e zás, trás, pás, dois estaladões na fronha do garoto. Tudo acatou sem lamúria, apenas um franzir de testa e o acentuar da expressão facial já pouco satisfeita no início da contenda que opunha a mãe ao filho. Mais uma vez impunha-se a intervenção da matriarca da mercearia, com o chamar vigoroso da filha como uma chamada de atenção e amiúde um ponto final em conversas ou atitudes menos adequadas ao contexto, afinal a mercearia estava cheia, não havia necessidade de revelar os segredos de uma ida à pesca sem autorização e muito menos o esbofetear da criança em público junto à máquina de cortar fiambre numa zona da mercearia descoberta a todos os olhos. Assim foi.
Naquele dia a conversa continuava mais perto dos meus olhos, mais próxima dos meus ouvidos à medida que fui penetrando a floresta de hortaliças, pão, frutas várias e chocolates Regina. Ah pois dizia uma eh pá. Isso é que não! As mulheres entretanto deslocavam-se atrás da irmã da dona da mercearia, visto ter chegado mais gente para atender e é sabido que conversa é bom mas não enche barriga, portanto, urgia atender a freguesia. E lá vieram aos pois, pois, ah pois é até que uma concluiu eh pá, na saber ler na faz muita falta, mas na saber fazer contas… eh pá, isso é que faz falta!
Diz-se que por aqui andaram árabes e judeus e que terão por aqui largado sementes várias. Não será por acaso que as casas são decoradas com azul e que, tal como os antepassados na Península Ibérica, os saloios tenham grande acuidade comercial e intuição mercantil, além do olhar mais desconfiado que se viu e que fui (re)encontrar curiosamente na Tunísia, concluindo pois de mim para mim Ai é daqui, é daqui que eles vêm… Saber ler na interessa nada, agora na saber fazer contas é que não, senão como dar trocos e demasias, destrocar notas e executar outras operações provenientes do negócio? Tá bem, tá.
Foto: minha

domingo, 6 de agosto de 2006

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
Vinicius de Moraes

Foi a 6 de Agosto de 1945, um crime perpetrado pelo país das amplas liberdades democráticas contra milhares de inocentes e que sessenta e um anos depois continua a teimar em ensinar democracia aos outros.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Placas do Mundo

Viseu
Foto: minha

Entretanto em Miami

Um pequeno comboio aberto estacionou na berma do passeio. À frente, de pé, vinha um jovem louro, talvez na casa dos trinta, com um microfone na mão. Vestia uma guayabera. Máximo desviou logo o olhar.
- Ora aqui temos o
Domino Park - disse a voz amplificada, primeiro em inglês, depois em espanhol. - Atenção, amigos: quem tiver menos de cinquenta e cinco anos não pode entrar aqui. Mas é claro que toda a gente pode vê-los a jogar.
Máximo ouviu os diques das máquinas fotográficas e, um instante depois, convenceu-se de que não poderia ter ouvido. Não, no sítio onde estava era impossível.
- A maior parte destes homens são cubanos - prosseguiu a voz amplificada, ecoando contra o fundo do parque. Mantêm viva a tradição do seu país natal. É que, em Cuba, era muito comum as pessoas jogarem dominó depois duma boa refeição. Era uma maneira de manter a comunidade unida, de reforçar os laços comunitários. O que aqui estamos a presenciar, meus amigos, é um fragmento do passado. De uma época mais simples do que a nossa, de uma época de grandes amizades e em que as pessoas não andavam todo o dia a correr de um lado para o outro. (...)
Quando o feedback do microfone trespassou como uma espada o Domino Park, Máximo já não conseguia continuar sentado e quieto, já não conseguia aceitar as coisas tal qual elas eram. E isso era algo que há muito não acontecia na sua vida.
Ergueu-se e ergueu para os turistas um punho fechado.
- Mierda! - gritou. - Mierda! Nunca ouvi uma treta tão grande em toda a minha vida!

Ana Menéndez, Em Cuba eu era um pastor-alemão.
foto aqui

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Glórias lusas

Estive privada de notícias durante quase todo o dia. Quando pelas oito horas me sentei para jantar e ver o que se passava por cá e por lá, deparei-me com a fantástica notícia que os bancos arredondam por excesso a quantia dos créditos à habitação a pagar pelos clientes. Por conseguinte, a partir de agora vou pedir arredondamento por excesso* do meu vencimento ao Ministério da Educação e sugiro que se acabe liminarmente com os cêntimos.
*sem qualquer dúvida, Joana.

Vistas Aéreas

Nova Iorque

Rio de Janeiro:
Morro Dois Irmãos, Ipanema, Ponta do Arpoador e Copacabana.
fotos: minhas

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Porto Santo

Foto: minha

Pedaços de Mar

Afastei-me suavemente da sala no terminus de mais uma aula, acompanhada desta feita por dois jovens futuros professores. Era 6ª feira. Com o fim da aula deu-se início a mais um fim-de-semana e a descontracção instalou-se ao ritmo a que os livros eram arrumados, como a semana, agora lentamente lá para trás. A conversa recaiu sobre as terras natais dos meus alunos, sitas no Portugal insular. Pois é, professora, a Madeira está muito diferente! E eu Pois, pois, já lá estive há alguns anos… O outro, mais sereno e tranquilo, um pouco mais alto e pausado, olhava-me através dos óculos com um olhar algo pueril ainda. Questionou A professora conhece os Açores? Respondi negativamente e lamentei o desconhecimento do arquipélago, sabendo agora que um dia vindouro encetarei uma peregrinação de afectos, homenageando um dos locais preferidos do meu pai, homenageando-o a ele, ao meu querido pai. O coração é um peregrino errante. Não, ainda não, José. Mas ouvi dizer que é lindíssimo… E o Zé continuou por trás dos óculos Ai tem que lá ir, professora! E a tudo lhes disse que sim, acompanhado por um gesticular afirmativo e consentâneo, enquanto a alma se me resvalava desobediente, se me escapava veloz, para a iguaria das iguarias, e a voz dos curiosos mestres em embrião, jovens e entusiásticos, afastava-se ficando apenas um eco suave, um borbulhar de sons em surdina, tudo longe e distante, cada vez mais longe e cada vez mais distante.
Encontrei-me de novo na tasca, feita restaurante, da mais bela e serena praia deste nosso canto luso, a mais longa e resplandecente, tranquila como uma língua dourada num perpétuo beijo com o Atlântico. Voltei a sentir a brisa suave do estio porto-santense a afagar o cabelo revolto enquanto pelo nariz se elevava o cheiro amanteigado e marinho com um toque amargo e cítrico dos univalves ainda a crepitar na chapa, observando, pela porta escancarada para os mares, o dia a esconder-se e o oceano azul a beijar a areia dourada. De novo os perfumes marítimos e a água a crescer na boca pela percepção dos pedacitos de mar em concha à minha frente sobre a mesa grosseiramente posta, sem cuidados nem requintes. Na comunhão intensa dos sentidos são dispensadas toalhas imaculadas ou baixelas preciosas. E a natureza foi una com os sons pacificadores do mar sereno e a tranquilidade cromática do crepúsculo, comigo ali mais uma vez, de novo ali, com o mar a marulhar contra a areia e o sol a recolher-se nos seus braços. Pois, professora, um dia que vá aos Açores, já sabe… ao que retorqui Muito obrigada, José! estremunhada pelo cutucar da voz dele nos meus ouvidos, acabada de chegar lá de longe, onde os sonhos se embalam.