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domingo, 31 de maio de 2009

O pequeno ditador

Domingo de manhã é um dia improvável para visitas ao supermercado. Contudo acontece, raramente, mas acontece e por isso neste Domingo cumpriu-se a improbabilidade e a excepção.
Entre o burburinho que presumo habitual, uma fila desencorajadora no peixe e os carrinhos a abarrotar, cruzei-me com uma mãe carregando o filho de um lado e o carrinho de compras no outro. O ar de desânimo e estafa no rosto da mulher bem jovem denunciam o suplício que passará entre dois pólos da sua existência, a vida doméstica de um lado, e do outro, a maternidade, empurrada como quem empurra o mundo, o contraste infeliz com a manhã tépida e apaziguadora de sol. Mais um volta e ouço o grito de uma outra mãe, o eco lá para o corredor das bolachas Francisco! Ó Francisco! e depois a reincidência num tom ainda mais elevado Francisco! Avisto entretanto o Francisco, uma criança de uns quatro, cinco anos previsivelmente, a empurrar o carrinho de compras, cada vez mais alheado ao chamamento da mãe. Impávido e sereno o Francisco seguia o seu caminho como se nada, rigorosamente nada, fosse. Francisco! Desta feita, o Francisco ia já bem ligeiro a afastar-se da vista da mãe. A progenitora acorreu à criança para que não a perdesse de vista e arremessou-lhe com mais uma ralhadelas sonoras, a que o Francisco correspondeu com uma altaneira ignorância do alto da sua ínfima idade. Francisco, o que é que tínhamos combinado? Nada. Mãos adentro de uma prateleira, ia lampeiro buscar algo da sua preferência. Já que o obrigaram a ficar pelo menos traria algo consigo. Mais uma admoestação e nada. A mãe corre lesta para o carrinho, furiosa e descontrolada, e retira algo a que o Francisco finalmente reage com o choro imediato. A mãe, com o desespero estampado no rosto, cede e diz-lhe Então pronto! Surpreendente que aos quatro, cinco anos aquela mãe não consiga impor-se, ceda às chantagens do pequenote e que fique desesperada. Menos surpreendente é, pois, que quando adolescentes não lhes consigam fazer nada.

Domingo

fotografia minha

sábado, 30 de maio de 2009

Voltar

O primeiro ensinamento que tirei quando cheguei a Paraty foi que não se deve beber água de coco quando se vai fazer uma viagem longa de carro, com poucos sítios para parar à beira da estrada excepto o mato brasileiro frondoso e tropical Pelo meio da manhã de um dia quente e luminoso apareceu o transfer, à porta do hotel, em Ipanema. Um táxi apenas, sem mais turistas, e a recepção calorosa do taxista, Sérgio de seu nome, simultaneamente guia durante o caminho longo entre o Rio e Paraty. Não tivesse eu bebido um dos néctares mais simples mas mais saborosos que conheço também pelo ritual em si e a simplicidade do fruto catado pela cabeça e a singela palhinha, teria achado o caminho bem menos longo. Uma vez chegada a Paraty, só tinha algo em mente, sempre o mesmo, acompanhado do grilo falante Nunca mas nunca mais te lembres de beber água de coco e assim que entrei na Pousada rompi de imediato com uma das regras do sítio: não usar sapatos durante a estadia no local.
E depois de arrumadas as malas e instalada bem lá no último piso do sobrado com um terraço de chão de madeira e uma rede amarela tão convidativos que lá ofereci o corpo beijado pelo sol à descontracção, arrumei os meus dias no Rio e me abandonei ao reencontro com as minhas origens, o deve e haver da matriz miscigenada, foi pôr pé nas ruas de paralelepípedo e adentrar uma das vilas mais acolhedoras que conheço. A vegetação exuberante e as montanhas em pano de fundo, o casario bem cuidado, os sobrados e a calçada, a praça de dia mais tranquila e de noite animada pelos artesãos, uma caipirinha com a cachaça certa e, acima de tudo, a mistura alquímica de que são feitos todos os lugares mágicos que nos preenchem a alma: algo indizível, dificilmente descritível, algures entre a plenitude e a nostalgia que transportamos como uma tatuagem na alma. Um passeio de escuna para me banhar nas águas mais tépidas e prazeirosas que conheci no Brasil e para sempre o ar quente e húmido, exactamente como eu gosto, o calor displicente que embala os corpos e amacia a alma e depois mais uma volta no mato para o banho indispensável de cachoeira, há sempre uma cachoeira à nossa espera no Brasil, e depois voltar e guardar bem perto do coração aquele pedaço de Brasil mesclado com Portugal e sentir esta vontade de perdidamente voltar.

fotografia minha

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Constatações

As noites tépidas fazem-me mais feliz.

Pertences-me

Não sou possessiva, não sou ciumenta, não sou invejosa, mas os livros, ai meu Deus, os livros. Sobe-me uma vontade incontrolável de os possuir, de os ter para mim, só para mim, de os ver enquanto não os acabar, e de os manter por perto enquanto o mundo corre lampeiro lá fora. É que não são só as letras, é o livro em si. A espaços, e quando me é permitido o embalo no regaço do lar, deito-lhes um olhar quase como se de um animal de estimação se tratasse e só não os chamo e afago como às minhas bichanas Linda. Quem é a gatinha da dona, quem é? porque causaria perturbações incalculáveis na harmonia caseira Estás a falar com os livros? E mais tarde com a voz meio tímida perante a escabrosa revelação e a preocupação evidente A sua filha tem um problema. Fala com os livros. Apanhei-a a falar com o Livro de Crónicas do Lobo Antunes e já há um tempo dei com ela a afagar A Sombra do Vento. Já tinha desconfiado quando a ouvi aos elogios à Mulher que escreveu a Bíblia, logo depois de ter atirado um piropo ao Budapeste do Chico Buarque. Por conseguinte e a bem da sanidade mental alheia mantenho-me muda e queda e apenas os sinto por perto. Agora, por exemplo, estou em estado de enamoramento total com o Leite Derramado de Chico Buarque. São as páginas, o formato do livro, um pouco diferente das edições portuguesas e as letras que me convidam e que vou saboreando lentamente como aquele acepipe opíparo que não queremos que acabe nunca.


Com um agradecimento muito especial ao Aventino que me permitiu mais este devaneio e me fez chegar o livro directamente do Brasil.

fotografia minha

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sem desculpas

Ser-se professor nos dias de hoje implica uma afirmação peremptória e taxativa dos direitos e deveres de ambas as partes, também em sala de aula, uma exigência ininterrupta de respeito e um desafio permanente mediante atitudes inesperadas, imprevisíveis e inusitadas. Qualquer professor que tenha deixado o ensino há poucos anos ficaria alarmado com o cenário de mudança com o qual se depararia, caso voltasse à escola, e não pelas calças que os rapazes alegremente usam literalmente abaixo das nádegas. O Jorge, por exemplo, hoje tinha boxeurs coleantes bordeaux. Se no início quase sucumbia quando me perguntavam o mais elementar vocabulário – coloquial, agrura ou reciprocidade são conceitos desconhecidos -, nos dias que correm e passados quatro anos de ter desgraçadamente regressado ao Secundário, respondo com naturalidade, sem esbugalhar os olhos, sem encostar-me ao quadro antes que desfaleça e me estatele contra o chão e sem a aceleração involuntária do ritmo cardíaco. É normal, há que responder e prosseguir a trote para as declinações, conjunções e outras ralações. Contudo, se me fui gradualmente habituando a uma ignorância pujante, recuso-me a aceitar a desculpabilização e a exigência crescente de que os outros devem resolver os problemas e questiúnculas da vida de cada um. Quando um destes dias, perante as perguntas insistentes em pleno teste afirmei que a aluna perguntadeira não tinha estudado rigorosamente nada, ela retorquiu exigente Ó Stora, tive festas de anos em casa, esta noite só dormi três horas… ou quando saca do espelho para conferir a beleza de que se julga detentora e lhe arremesso com algum comentário, fazendo-a lembrar de que a aula não é um salão de beleza, a resposta é sempre lesta Ai Setora, que é que quer, sou muito vaidosa. Isto é de família… Havia de ver a minha mãe… duas ou três vezes pior ou quando faço reparos por causa dos telemóveis, põem a expressão ofendida, olhos bem abertos e a voz levemente esganiçada Ó Stora, tou só a ver as horas. Francamente, Stora. E portanto assim é, nos dias que correm há que compreender, aceitar e quiçá pedir desculpa caso se importunem os adolescentes. No futuro ainda teremos de pedir desculpa pelas aulas. Imagino-me a pedir-lhes desculpa pelas declinações, pelas preposições ora de dativo ora de acusativo, raio de gente que inventou tal coisa, pela inversão do sujeito ou pelo Present Perfect, provavelmente pedir desculpa por existir. Quando esse dia chegar, chega!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Terça-feira

Guardo na memória aquele final de tarde num cinema a que nunca mais voltei. Contrariamente ao habitual não se ouviu o restolhar sôfrego das pipocas nem o sorver alarve dos refrigerantes belicosos contra os cubos de gelo. Silêncio. Silêncio apenas.

Pelo direito à escolha

O resto está no PNETMulher.

domingo, 24 de maio de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

À terça, a crónica

O Rosto oportuno é uma crónica sobre:

a) a última plástica da Lili Caneças
b) a cara do Sócrates na corrida das Novas Oportunidades
c) os esgares da Maria Cavaco Silva quando se lhe fala da Capadócia
d) nenhum dos anteriores

Espreitai aqui para tirar esta dúvida tormentosa. Boa leitura!

domingo, 17 de maio de 2009

Nacos de prosa (10)

quando bebeu o primeiro gole de vinho julgou que a vida, se fosse justa, poderia ser feita daquilo e de mais nada. ao inventar as coisas, quem inventara, deveria ter-se ficado por aquilo, um vinho, uma amizade sincera, o calor magnífico do fim de tarde, a paisagem mais bela de todas. era tão fácil inventar só aquilo e só com aquilo garantir com segurança que todas as pessoas do mundo seriam felizes.


valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores.

sábado, 16 de maio de 2009

Leituras e manias

Há tentações a que um amante de livros não consegue resistir. Uma novidade acabada de chegar do escritor de eleição, os livros arrumados e virgens, o aroma que as páginas acabadas de imprimir soltam. Desgraçadamente qualquer livro, independentemente do seu autor ou da qualidade do conteúdo, consegue soltar aquela fragrância irresistível. Mandasse eu e declararia quais os livros, talvez quais os autores deviam sair perfumados da gráfica. Não há pior do que sentir-me seduzida pela fragrância de livros de escrita duvidosa, a traição a que os sentidos nos obrigam amiúde. Desses fujo, não vá perder-me encantada e acabar a ler romances de vão de escada.
Naquele dia não houve fragrância. Excluamos, pois, este factor de sedução. Naquele dia, na Feira do Livro, os olhos ter-me-ão brilhado, quando chegada à caixa com três livros me informaram que, se comprasse quatro, o mais barato era oferta. E porque aos livros não se viram as costas e tamanha generosidade livreira é inaudita por cá, retomei o périplo anteriormente interrompido pela auto-disciplina a que surpreendentemente me havia submetido. Rumei direita e sem hesitação a um livro que namorara meses antes, também ainda desgostosa pela quase ausência de livros brasileiros no certame luso e Os Lados do Círculo de Amílcar Bettega juntou-se a Passado Perfeito de Leonardo Padura, O Melhor da Comédia da Vida Privada de Luís Fernando Veríssimo e a O Planalto e a Estepe de Pepetela. E estaria tudo a correr muito bem, se não tivesse entretanto regressado ao livro e esbarrado em dois, logo dois, dois pontos e vírgulas, na primeira página. Num texto nutro especial animosidade contra os ditos. Erguem-se na prosa como barreiras, um salto a que obrigam para que se prossiga. Incomodam-me, fazem-me parar expectante na enumeração que se adivinha e, admito-o, irritam-me. Não sei se volte à Feira e reclame o produto defeituoso ou faça o que os leitores sem manias fazem: ler o livro.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mercúrio retrógrado

Pela sala os despojos. Uma caixa pequena em cima da mesa, as fotografias e os livros fora do seu habitual poiso que, adianto, nada tem a ver com os padrões comuns de arrumação, porventura um conceito marginal na minha casinha amarela, uma caixa enorme encostada à lareira, a sensação de que algo passou por ali, perturbando a ordem oculta dos objectos, a insurreição de livros e minudências. Que é que achas? A imagem parece pior… deito um olhar mais prolongado Pois, realmente, parece menos definida e está tudo mais vermelho. Mas paciência. Pois paciência. Foram-se quase todos os canais da Fox, foi-se a TV24, e Travel Channel nem vê-lo. Tá bem, mas é menos de metade do preço. E para que queríamos tantos canais? Pois. Não faz mal. E a tarde que adormece pacífica. Um périplo pelo jardim. Já viste a amarilis? Está maior, qualquer dia dá flor. E as túlipas? Nada ainda. Raio do jardineiro que se me foi ao maçaroco. Raios o partam. O carvão no ponto óptimo para o comedido churrasco a meio da semana, a carne no grelhador e a noite que se aproximava tranquilamente arrumando o dia e dando lugar à quietude harmoniosa de que são feitas as comunhões singelas prenhes de afectos. O regresso à sala. Não está mal a imagem. Não, não está. E de repente o ecrã negro e mudo e quedo e ausente e distante. Que coisa. Um toque nos botões. Nada. Nada de nada. A desordem que se instala e ocupa selvaticamente a harmonia das palavras carinhosas, as túlipas, a amarilis, a gardénia e o maçaroco, raios partam o jardineiro. Impropérios saltam de encontro à televisão, altiva e orgulhosamente ausente. Cabos que se ligam e desligam, contactos falhados no possível mau contacto. A reclamação que se avizinha, telefone em riste. Meia dúzia de palavras que se trocam. Agora faça assim. Ligue aqui. Apague acolá. Ligue acolá. Apague ali. Quiçá reze aqui, ali e acolá, afinal era dia da Senhora de Fátima. Nada a fazer. Bem, vou ver um filme. DVD ligado e eis que irrompe na sala do nosso descontentamento pontual e passageiro um ronco forte e prolongado. Que é isto? O DVD. ISTO é o DVD. Abandono a sala prevendo um agravamento das condições naquele espaço. Rumo ao computador e tento abrir um documento de Word. Nada. Desta vez nem ronco, nem ecrã vermelho, nem coisa nenhuma. Apenas a recusa. Não consigo abrir os documentos. Nem um. E o turbilhão, entretanto calmo e silenciado pelo ronco do DVD, regressa agora a outra divisão da casa, fazendo jus ao Mercúrio retrógrado.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Palavras

As homenagens raramente são feitas de visitas ao cemitério. As homenagens ao meu pai são momentos e palavras partilhadas ou apenas sentidas sem que de tal dê sinal, sem alaridos ou exuberâncias, exactamente como sei que ele gostaria, amante confesso da vida singela prenhe de afectos e amor, caminho único que conheci para lhe chegar à alma. As homenagens ao meu pai são os momentos íntimos que guardo na morrinha dos dias longos e breves. Momentos sem alvoroços e choros. Um vinho que se bebe, o do seu agrado, os livros que afago e leio, as palavras que ainda julgo que me dirige quando me falta, falta-me sempre, o sorriso que relembro, gestos quotidianos embrulhados em silêncios longos e ausências dolorosas invisíveis aos demais, inaudíveis a todos. As homenagens ao meu pai raramente se cumprem em visitas ao cemitério. Hoje no dia em que faria anos preferi dedicar-lhe palavras. Estas. Não murcham como as flores.

Cronicando

A homenagem ao ditador é apenas a face visível dessa mentalidade provinciana e tacanha, assaltada por fantasmas vários prontos a mostrar a face nas mais díspares esferas da vidinha portuguesa. O ditador anda por aí, afinal, é só esperar uma oportunidade e ele surge de vistas estreitas, com medos medievais de demónios e bruxas e verdadeiro pavor a tudo o que seja inovação, contestação e pensamento crítico e independente.

Ide ao PNETMulher para ler o resto e opinai.

imagem: João Abel Manta

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Caldo entornado (Parte 2)

Ontem como estava muito ocupada para a mesa-redonda sobre o Bookcrossing na Feira do Livro e para testar até onde ia a incapacidade – incompetência é muito feio e temos de ser condescendentes logo agora que o 13 de Maio de aproxima - pedi aos meus agentes infiltrados que rumassem ao stand que é responsável pelos livros brasileiros em Portugal e que me fizessem o favor de indagar o paradeiro, a existência ou não do livro que me opôs vigorosamente a um homem mais jovem e uma menos jovem numa tarde soalheira de feira do Livro, com o Marquês de costas voltadas.
Nesta coisa dos livros há sempre uma última esperança e ainda acalentei secretamente a fé de ver os meus infiltrados chegar sorridentes, a correr ao meu encontro, em câmara lenta como nos filmes, e saltarem-me para os braços com o livro entre mãos que libertaria em jeito de piscadela de olho cúmplice aquele olhar cristalino do Chico e o aroma do meu Rio de Janeiro. Debalde. Apareceram sorridentes mas livrinho nem vê-lo.
A saga continuou: primeiro desconheciam o livro, o nome, quiçá o autor – não sei e nesta hora tardia não posso confirmar mas apetece-me que assim seja por razões óbvias às quais não são alheios algum ressentimento e uma raivinha cega - e depois ainda argumentaram que o livro era deste ano. Presume-se que como o Brasil é um país longínquo não haverá novas tão cedo. Eu, como rapariga obediente, farei o que me mandaram fazer em plena Feira do Livro de Lisboa: ir à Internet.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Caldo entornado

Faço parte daquela espécie de portugueses que cresceu com os livros de Jorge Amado, ainda do tempo em que eram proibidos pela censura e que chegavam às mãos dos meus pais através da tia carioca. Desse tempo é também José Mauro de Vasconcellos e depois desse tempo a literatura brasileira passou a fazer parte integrante das minhas preferências literárias. Não há viagem ao Brasil sem um périplo pelas livrarias. Já dei por mim a arrumar os livros numa livraria em Maceió, a tentar entender uma ordem que me apareceu obscura em Natal até ter percebido que os livros estavam arrumados pelo primeiro nome do autor e não pelo apelido e a escapulir-me dentro de um centro comercial apenas para poder comprar mais um livro, aquele mesmo que tanta falta me fazia. Frequentemente vem-me à memória o primeiro livro que comprei na Livraria da Travessa em Ipanema, Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo de Ruy Castro: a experiência matricial numa livraria com estantes de madeira e empregados solícitos na mais bela cidade do meu mundo. Não há viagem a Terras de Vera Cruz em que não venha a abarrotar de livros que me alimentam as longas noites de Inverno e perfumam a esperança de dias mais quentes e tropicais. Quando soube, consequentemente que o Brasil iria ser o país convidado na Feira do Livro, comecei a salivar esperançosamente, as capas, os livros, a possibilidade que se me abria de comprar livros de autores brasileiros em edições brasileiras, quem sabe não iria descobrir escritores novos e certamente teriam o livro que me tem deixado em suspense na ansiedade de o devorar e ter entre mãos.
Sábado soalheiro e escaldante. Dirijo-me aos pavilhões do Brasil para satisfazer o meu desejo. Fui informada de que havia livros de autores brasileiros na representante habitual em Portugal e, depois de atravessar o parque, dei de caras com a editora. Os livros brasileiros ocupavam um espaço ínfimo, ainda consegui vislumbrar do lado de lá alguns livros do Drummond. Nada de novo, portanto, motivo suficiente para uma rotunda desilusão. Não seria de esperar um maior oferta tendo em conta o país convidado? Entretanto, um homem não muito jovem acorreu em meu auxílio, ter-me-á visto de cabeça esticada a tentar decifrar as lombadas, e após a habitual procura nas estantes decidiu-se Não tenho, mas espere que vou perguntar se há no armazém. Seguiu-se uma troca curiosa de palavras. O homem perguntava-me se eu tinha internet, que podia pedir pela internet, que também podia ir à livraria, era mesmo ali, para ir lá. Ora uma mulher tem os seus limites e nunca vi alguém estar em plena Feira do Livro e sugerirem-lhe que mandasse vir o livro pela internet ou que fosse à livraria. O meu desagrado pelo insólito começava a notar-se. Livraria? Internet? Entretanto aproximou-se um homem mais jovem. Que ia ver se tinha no armazém. Pedi-lhe então que me reservasse um exemplar de Leite Derramado de Chico Buarque, caso houvesse, e que passaria um dia desta semana para o ir buscar. O homem não se deu por achado. Não era preciso. Não era preciso deixar nome. Ia ver e se houvesse trazia uns para a feira. Tentei explicar em vão que queria mesmo o livro e que não queria correr o risco de que fosse vendido antes de eu lá ir. O homem menos jovem insistia na internet, também na livraria, ali, é mesmo ali. O mais jovem acrescentou que segunda-feira de manhã me ligaria então, sem falta nenhuma. Hoje é quarta-feira e, pelo caminho e sintomático silêncio, não só não há Leite Derramado, como temos o caldo entornado.



135.000 caracteres depois

Um ano desde que me estreei assim nesta aventura de cronista.

terça-feira, 5 de maio de 2009

À terça, a crónica

Nada faz os portugueses mais felizes do que uma desgraça. É ela que dá oportunidade de bradar aos céus o carácter único do país e das gentes, por um lado, e por outro, oferece uma torrente imparável, um turbilhão homérico de conversas, contra-conversas, comentários, notícias, apontamentos, posts em blogues ou twitts no Twitter. Não há quem fique indiferente e todos e cada um têm uma palavra a dizer, uma lágrima a verter, um esgar prestes a surgir no rosto, um impropério a arremessar a quem se atravessar no caminho.

E a crónica está no PNETMulher, o sítio onde cronico em dia de Feira da Ladra.

imagem: Daniel Fort

domingo, 3 de maio de 2009

O oftalmologista da minha mãe

O oftalmologista da minha mãe é um rapaz de estatura média, de olhos iluminados e sorriso generoso que adora uma boa conversa e que discorre sobre escritores e leituras no lusco-fusco do seu consultório com as letras e símbolos por testemunha. O oftalmologista da minha mãe, outrora também do meu pai, é um ser sensível, de modos pausados e gentis, amigo da boa conversa e com memória de elefante. O oftalmologista da minha mãe tem um ritmo muito próprio que não se deixa intimidar com correrias e stress. O oftalmologista da minha mãe fala baixo com voz doce e tranquila em sintonia com a luminosidade crepuscular da sala. O oftalmologista da minha mãe não é apenas o oftalmologista da minha mãe. O oftalmologista da minha mãe é também o seu ex-aluno que solta a deferência e o carinho assim que a vê irromper pela penumbra do consultório. Acorre para a receber de sorriso generoso e enche-a de memórias E a Luísa lembra-se de quando escrevia no quadro os provérbios e ditados? E continua, sempre sorridente e atencioso, desenrolando as reminiscências, um parêntesis no tempo presente de clínico entre óculos e lentes, cataratas e glaucomas, o regresso ao aluno e à professora, e o tempo que adquire uma outra dimensão, suspenso entre letras e lembranças gratas e sinceras. O oftalmologista da minha mãe cruzou-se-nos hoje no caminho. Vinha esbaforido atrás dela, trazia a irmã, também ex-aluna dos meus pais, e ao paráramos para trocar cumprimentos e carinhos, acorreu a chamar os filhos pequenos. Com mão sobre o ombro de um dos garotos mostrou a sua professora Vês, esta senhora foi minha professora. O afecto, o respeito, a gratidão e homenagem num dia da mãe, provavelmente o mais belo dos presentes.

sábado, 2 de maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sinais dos tempos socráticos

Não me lembro de nenhum primeiro de Maio, ao longo destes anos de democracia, em que tivesse esta vontade miudinha, este frenesi de inquietação de descer a avenida ou a alameda em defesa dos meus direitos e daqueles que desgraçadamante não têm voz. Sinais inequívocos destes tempos em que um partido alegadamente socialista governa e desgoverna a seu bel-prazer.