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quarta-feira, 28 de março de 2007

Fechando o Verão

Primeiro o impacto das rodas na pista, o batimento cardíaco levemente acelerado e ainda a dúvida. Será? O corpo moído, os olhos morcegos habituados a onze horas de ausência da luz solar e, finalmente, ar livre e rua. A Cidade Maravilhosa amanhecera não havia muito. Talvez por isso tenha tomado por natural uma certa neblina. Certo é que raros são os postais reais e imaginários do Rio de Janeiro onde o céu e o mar não são assustadoramente azuis e belos, o verde, o contraste perfeito e o Cristo Redentor, pacífico e sereno abraçando a cidade lá em baixo, intocável, impassível perante a vida dos homens turbulenta tão abaixo do seu pedestal inabalável. Neblina, porquê, então? E depois rumámos pela Linha Vermelha para a Zona Sul. Pela janela, ia procurando. Nada. E depois no hotel a conversa para casa e a pergunta facilmente adivinhável E O Cristo, Já viste o Cristo? Não, o tempo está meio cinzento. De tarde, a neblina adensara-se, o tempo fechara completamente e o postal do Rio que lentamente se desenhava à minha frente adquiria tonalidades cinzentas, salpicadas pela Mata Atlântica, uma bruma obstinada mais translúcida, a espaços, como um véu a envolver o Cristo Redentor. Outras cores diferentes das que fui acalentando ao longo de décadas. O castanho do eencavalitado de casas morro acima. Nos três dias seguintes chuvas, a pergunta de sempre, e nos três dias seguintes a descoberta e a certeza que, mesmo com chuva, a cidade jamais sairá beliscada e adquire uma aura de mistério e serenidade. Da janela do quarto, o Calçadão e o mar revolto, o Tóni dos Cocos recebendo a sua carga diária bem cedinho pela manhã, os cariocas ainda assim usufruindo a cidade que é deles, uma peladinha de final de tarde, um jogging, uma água de coco debaixo do chapéu, outrora de sol, agora de chuva e o camelô que guardara sua mercadoria. Chuva, o meu Rio tinha agora chuva. Tornara-se mais nostálgico, enlaçado na melancolia dos trópicos, salpicado daquelas teimosas águas de Março que descolorindo a cor vibrante do meu postal imaginário, o preencheram melodiosamente com a voz de Elis avisando que estavam fechando o Verão.


terça-feira, 27 de março de 2007

Dia Mundial do Teatro

All the world's a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.

William Shakespeare
foto: minha
Veneza

segunda-feira, 26 de março de 2007

Leituras do momento

foto: minha

O passaporte, depressa!

Eles andem aí...

Obrigada, Ana, pela informação.

Já percebi

porque tanto gritam contra o Sócrates. Pelos vistos é demasiado brando. Venha a PIDE/DGS, a Guerra Colonial, os estropiados e torturados, venha a censura, a Mocidade Portuguesa, os pobrezinhos e as criadas, as conversas em família, reabilite-se o Tarrafal já, viva a António Maria Cardoso mais o forte de Peniche, ide buscar as fotografias de salazar, caetano e tomaz ao sotão, ressuscitem o cerejeira, levem o Botas para o Panteão com honras de estado. O vinho é quinduca e o fado é quinstrói. Uma carga policial fáxavor para os 41% de portugueses que elegeram o dinossauro como o melhor português. Vou ver se me recomponho, entretanto, ou se decido emigrar.

domingo, 25 de março de 2007

Triangulações

Enquanto os nossos audazes rapazes se esfalfavam em Alvalade na partida que opôs o mundo do futebol luso à Bélgica, surgia em rodapé no ecrã de televisão que Salazar poderia ser o melhor dos portugueses, posteriormente que quarta-feira a RTP iria dedicar a emissão aos cem anos de Lúcia, a pastora que presumivelmente terá avistado a mãe de Cristo, e que a mesma decorrerá de Fátima. Calculo que a Kátia Guerreiro estivesse a preparar um hino para a esperada vitória do ditador. Depois de Futebol e Fátima, Fado era o vértice em falta nesta curiosa triangulação.

A dois

foto: minha

sábado, 24 de março de 2007

A balzaquiana

Há coisas que uma mãe não deve dizer a uma filha.
Atravessávamos a secção de roupa masculina, vindas da roupa de desporto. Vou atrás de ti disse a minha mãe Nunca sei para que lado é a saída. Entretanto, pôs-se-lhe ao caminho uma camisa laranja suave e disse O Hélder devia gostar desta camisa… Concordei, sim, era a cara dele. E depois a conversa retomou onde tinha parado antes da camisa, do zigzaguear entre os expositores de roupa estival e da curva para as escadas rolantes. Mas porque é que não compraste aquilo? inquiriu Porque ficava com a barriga à mostra respondi. Ressalve-se que a barriga à mostra se referia apenas a uma tarja da mesma proeminência abdominal. A minha mãe respondeu Ora essa, e qual era o problema? Esclareci Menina, já não tenho barriga para mostrar, resignada com a força da gravidade. A minha respeitosa progenitora atirou-me Olha lá, tu não andas sempre a ler literatura brasileira? O que é que diz o Vinicius de Moraes sobre as mulheres? A pergunta ficou suspensa. Lembrei-me que também o meu pai fazia referência a Vinicius quando se falava de barrigas femininas e que sempre foi apologista de que uma barriguinha dá um certo encanto às mulheres. De resto, o meu pai, homem de outras eras, sempre defendeu afincadamente a existência de curvas no corpo feminino. A minha mãe continuou Sim, o que é que ele dizia? E além disso as mulheres de 40 anos, as balzaquianas… BALZAQUIANAS? Sim, as mulheres de 40! esclareceu, isto para que não subsistisse a menor dúvida. Íamos a descer na escada rolante, amparei-me o melhor que pude no corrimão tão rolante quanto as escadas e ameacei-a que me precipitaria nas mesmas, caso continuasse a aplicar-me o epíteto, não por desrespeito ao Balzac, deus o tenha em descanso, mas porque, subitamente, olhei-me como nunca antes. Ainda hesitei em acusá-la a uma mulher que subia as escadas e quase se cruzava connosco, filha e mãe trocando palavras literatas entre Vinicius e Balzac.
A balzaquiana desceu as escadas com a sua mãe na sua nova condição. Ambas vieram para casa. A balzaquiana chegou a casa e fez queixas ao marido em frente à mãe A minha mãe hoje tratou-me mal… O marido quis saber da mãe Então hoje tratou mal a sua filha? A mãe da balzaquiana riu-se a perder, gargalhou e ripostou Coisas dela, só lhe chamei balzaquiana… A balzaquiana soltou um som, algures entre o gemido e a histeria Só?! A mãe da balzaquiana riu-se mais uma vez. O marido acrescentou Ah, isso são coisas que se chamem à sua filha?! A balzaquiana não viu, mas sabe que o marido terá dado uma piscadela de olho cúmplice à mãe da balzaquiana. A balzaquiana entregou-se à sua lamúria peganhenta. Saber-se para lá das quatro décadas era já de si um facto tortuoso com que lidava diariamente entre o espelho e as calças de ganga, o contorno dos olhos e as ancas. Assumir-se como balzaquiana um pesadelo. A balzaquiana reparte agora os seus dias esperando, rogando a deus, jah, alá e aos orixás que jamais a mãe lhe cite Vinicius de novo, senão correrá o risco de que ela lhe diga, quando, um dia, a balzaquiana estiver a perder-se por um desses cremes milagrosos contra as imperfeições irremediáveis que sim, que compre, Compra, compra, filha, mesmo não adiantando muito, é que Vinicius também dizia As muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental.

Daguerre

Zé, acho que isto te interessa.

Prioridades

Lá sou outra que não esta e isto tem me deixado muito pouco tempo livre.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Essa palavra margem

quem primeiro domesticou a palavra margem foi guimarães rosa.
depois foi invadido por marés de margens...
depois pode-se apontar
margem de rio
margem da página
margem do momento [ou momento à margem]
margem-só
terceira margem [do rio, das pessoas, do amor]
poeta à margem
poesia das margens
margem de gente
à margem da vida
vidas sem margem
ficas sem margem
na margem da vida
margem de vinda
margem de ida
margens de chegada [com canoas, jangadas, embarcações]
margem adiada
margem odiada
margens dos cegos, dos gagos
a margem dos que estão
à margem dos que não estão
margem da liberdade [de pisar o chão]
à margem da verdade
margem da lágrima
minha margem
na margem
do meu poema.

[a terceira margem da pessoa – é o outro...?]


Ondjaki

No Dia Mundial da Poesia

terça-feira, 20 de março de 2007

An nichts habe ich mich gewöhnt,
an nichts,
um am wenigsten an den Tod.

Elias Canetti

domingo, 18 de março de 2007

Sweetest thing

Pedir desculpa, retratar-se ou reconhecer faltas e erros nem sempre se apresenta como a mais fácil das tarefas na vida a dois. Certo é que depende mais de factores de personalidade das partes envolvidas do que exteriores aos opositores beligerantes. A verbalização surge como uma tarefa hercúlea, não raras vezes inexequível e, na sua impossibilidade, mas adivinhando-se a acalmia da tempestade, o dia-a-dia começa então a colorir-se de gestos delico-doces, subitamente mais carinhosos, uma chamada inesperada, um sms igualmente surpreendente, um gesto ressuscitado na rotina dos dias pálidos. Assim se irá caminhando até que a voracidade do tempo degluta os episódios inconsequentes da partilha do quotidiano. A dois, é sabido, vigoram as regras desses dois, e nas regras desses dois a panóplia da dinâmica dual aumenta significativamente. Há, portanto, os mais intempestivos e coléricos, entre os quais desgraçadamente me incluo e que com duas ou três palavras, mais do que estas, confesso, arrumam os infortúnios e as mágoas. Existe, porém, uma categoria mais sofisticada de manipuladores natos, sedutores irredutíveis de inominável sensualidade sub-reptícia, aos quais dificilmente se resiste. Pode ser aquele ar de quem acabou de sair do banho, perfumado e barbeado, o outro de quem carrega a rotina aos ombros ou um infortúnio temporário, mesmo sem banho nem barba feita. A verdade é que esta raça estuporada possui insondáveis e misteriosos poderes.
Paul Hewson, de sua graça, Bono Vox no mundo do showbiz e da música, pertencerá sem qualquer dúvida a esta estirpe. Conta-se que se terá esquecido do aniversário de Ali Hewson, sua mulher, enquanto gravava The Joshua Tree. Os fãs certamente perdoar-lhe-iam o esquecimento perante a intensidade e excelência do álbum, mas na vida a dois nem tudo é assim fácil e as mulheres, sabe-se, são capazes de chorar semanas a fio perante a falta sem perdão, martirizando-se e martirizando o infractor, infligindo-lhe penas recheadas e cobertas de malvadezas várias. Desconheço o que terá feito Ali Hewson no momento. Sabe-se o que Bono fez: compôs-lhe uma música e dedicou-lha. Mulher alguma resistiria a tal talento. Ain´t that the sweetest thing?

sábado, 17 de março de 2007

quarta-feira, 14 de março de 2007

terça-feira, 13 de março de 2007

Vida leva eu

A tarde aconchegava-se no regaço da noite. Entre cariocas e turistas, caipirinhas saboreadas à porta dos bares ou nas janelas para o outro lado do casario encavalitado, e souvenirs acabados de adquirir nas lojas para o efeito, um bulício miudinho instalava-se em Santa Tereza. A hora anunciava o regresso.
Do outro lado da rua, numa pequena praça, um táxi largava turistas e de turistas se havia de ocupar de novo, quando atravessámos a rua e lhe pedimos que nos levasse ladeiras abaixo até Ipanema na Zona Sul. O trajecto escolhido seria um pouco mais longo, mas certamente com menos trânsito. Confiar em taxistas pode ser um risco, mas pode também abrir janelas do desconhecido.
Cosme Velho, no sopé do caminho, morro acima, que levaria ao Corcovado e que dias antes percorrêramos. Detive-me na paisagem, embrenhada na Mata Atlântica com o perfume da clorofila densa a entrar pela janela aberta do táxi. Lá dentro, a conversa começara a girar ao ritmo tranquilo da tarde que se escondia. Portugueses? Sim, portugueses. Sei que terei dito como era única aquela cidade, mesmo não me lembrando de o ter feito. Quem algum dia viu o Rio de Janeiro a seus pés jamais recuperará de tanta beleza e sei que teria no rosto o sorriso pateta de quem se deixa absorver por essa beleza insondável instalada na alma para ficar até ao último dia de memória. O taxista sorriu, feliz pelo elogio, habituado, contudo, a ele.
Seria Domingo e dia de Fla-Flu. O Maracanã estaria então a esvaziar-se após o clássico dos clássicos não muito longe dali. Mesmo quem não gosta de futebol sabe que Fla-Flu é Fla-Flu. No rádio, ainda os resquícios do jogo. O resultado? Um empate talvez. À saída do túnel Rebouças, a conversa soltara-se desinibida. E quais dos brasileiros estavam jogando em Portugal? Liedson, por exemplo. Não, esse não conheço não. Luisão? Sim, claro. E Felipão, o gaúcho teimoso que impôs sua vontade mas trouxe o título para casa em 2002, estava agora ao serviço de Portugal.
A tarde cada vez menos nítida e lá fora a brisa suave de Março, misturada com uma humidade perfumada e o linguajar doce desse português do Brasil, musical e carinhoso. E ao atravessarmos a cidade, de repente com a Lagoa Rodrigo de Freitas em frente, a conversa escorregou para a festa de recepção dos pentacampeões no Rio que o taxista relatava com emoção potenciada pela alma brasileira e a paixão pelo futebol. Isso aqui tava assim de gente… e continuava O senhor não conhece? Zeca Pagodinho? O nome não era de todo estranho, também a propósito da Copa do Mundo e da obstinação de Scolari ao preterir todos os afamados cantores brasileiros por um simples pagodeiro que pelo sonho ajudara a levar o país à vitória, surgira algures numa conversa passada. A melodia absolutamente desconhecida, porém. E o taxista, mais convincente que qualquer outro guia de viagem credenciado, cantou-nos Confesso que sou de origem pobre, meu coração é nobre, foi assim que deus me fez…Deixa a vida me levar. Vida leva eu. Deixa a vida me levar… Conhece agora? E continuava cantando Vida leva eu… Naquele táxi atravessando a cidade talhada entre morros, céu e mar, surgiu mais um hino para a banda sonora da cidade maravilhosa, sem o brilhantismo de outros compositores, igualmente genuíno e autêntico. Nada como deixar a vida nos levar.

segunda-feira, 12 de março de 2007

sábado, 10 de março de 2007

Catlovers only

É dito e sabido, particularmente pelos amantes de gatos, que não são os donos que escolhem os gatos, mas os gatos que escolhem os donos. O Pirolito começou a rondar-nos a casa algures uns meros três meses depois de os seus donos oficiais o terem trazido para casa. Conta a minha mãe que certo dia, estando nós de férias e tendo vindo cá alimentar o nosso felino, lhe apareceu aquela bolinha de pêlo laranja. Confesso-me amante incondicional de gatos laranja. Todos os que conheci têm bom feitio, são dóceis e travaram comigo e eu com eles uma relação de afectividade intensa e única.
Os donos oficiais do Pirolito acharam-lhe muita piada, enquanto ele foi gatinho e, assim que lhes começou a marcar o território em virtude do seu inevitável amadurecimento, o gato foi literalmente escorraçado para a rua. Demo-nos conta disso quando, por exemplo, numas férias dos donos, reparámos que o animal tinha cá ficado e, conversando com os restantes vizinhos, felizmente gente sensata e boa, percebemos que ninguém tinha pedido a ninguém para alimentar o bichano. O bichano, porém, não se perdia, uma vez que, desde cedo, sabia decor e salteado o caminho aqui para casa e desde cedo sentiu que se algo lhe acontecesse este seria o seu paradeiro, passou parte dessas férias aqui no quintal, de resto, como muito mais tempo. Dias de sol e de chuva, o gato nunca mais deixou de rondar aqui a casa e quando íamos de férias, mesmo deixando-lhe comida e recados aos vizinhos e aos meus pais para o alimentarem, o gato emagrecia-nos. Contudo, era o primeiro a dar-nos as boas-vindas quando regressávamos. Vindo nem se sabe de onde, apareceria ligeirinho, mas miando desesperado. Quem gosta mais de ti, quem é? e ele obviamente sem entender o conteúdo das palavras que lhe dirigia mas sentindo o tom da voz, fechava os olhitos em sinal de contentamento e oferecia-me um ronron profundo.
Tirei-lhe pulgas e carraças, alimentámo-lo ao longo destes anos, limpei-lhe o focinho quando necessário, tratei-lhe das maleitas e sempre fui/fomos retribuída/os com um afecto imenso, ronronadelas, marradinhas e daquelas coisas que só os gatos fazem e que nós, seus amantes, entendemos. Sempre soube de que se algo acontecesse àquele gato, ele viria ter comigo e connosco em seu auxílio. Assim foi. Entenderão, portanto, caros amantes de gatos, porque chorei como uma madalena ontem quando, após tentativas infrutíferas de o salvar, o veterinário nos disse que não havia nada a fazer e eu e o Hélder tomámos a única decisão possível, e porque, depois de o lá termos deixado, continuei a chorar que nem uma madalena.
Hoje quando abri a portada do quarto pela manhã, ele não me miou, à espera de comida. Não nos rondou a casa, não nos mordiscou os dedos, sôfrego, enquanto lhe abríamos a saqueta de pedacinhos de atum. O Hélder não me disse Já dei comida ao Piro. Avistei apenas aquele que se dizia seu dono, cortando a relva, indiferente. Quem não é tocado pelos afectos provavelmente pouco lhe fará falta, o gato muito menos.
foto: Hélder

quarta-feira, 7 de março de 2007

Never make a saint of me

Agosto escaldante, ainda mais pela hora em que o sol olhava ufano bem lá do alto. Saltos altos e farpela a preceito, assim exigia o enlace matrimonial de uma colega de profissão. O noivo fez-se esperar para quebrar a tradição e desesperar os convidados. Da noiva não se ouviu queixume. Quando ela finalmente entrou na capela decorada com pequenos bouquets de rosas vermelhas e caminhou tranquila, os passos calculados e femininos, sobre a passadeira vermelha com centenas de pares de olhos, humedecidos alguns, todos focados e centrados na entrada da noiva, contudo, senti que não, assim não. Repeti a mim própria e avisei a minha progenitora a meu lado que jamais seria capaz de fazer semelhante. Não o casamento, ou talvez ele também, mas a atenção subitamente concentrada em mim, imaginando-me, pois, no lugar da noiva. O desconforto fazia antever que a única saída plausível, estivera eu naquela situação, seria mesmo a porta dos fundos, a da sacristia certamente. E a música, a música de igreja, talvez a marcha nupcial ou algo semelhante ao que habitualmente condiz com a situação. Foi aí, julgo, que terei ouvido Mick Jagger a sussurrar-me ao ouvido, com os lábios que se lhe conhece, como uma brisa entre o pescoço e o cabelo caído em cachos pelos ombros desnudados, um arrepio leve na espinha contrariando a canícula do zénite de Agosto. Os desígnios ocultos e misteriosos raramente são audíveis e perceptíveis a todos. E pelo ouvido, o sussurro, agora evidente, saint of me, you´ll never make a Saint of me. A melhor das opções desenhava-se à minha frente. Entrar pela basílica e, bem ao fundo, junto ao altar-mor, em vez das avé-marias e marchas nupciais no esplendor barroco do órgão bento, as pedras rolantes a esgalharem em todo o seu poder Saint of me com Jagger cantando-me por trás do vigário, surgindo de um lado e do outro da beatífica personagem they´ll never make a saint of you. Assim, sim.

terça-feira, 6 de março de 2007

Máximas

Que Carlos Tê é um dos mais inspirados letristas portugueses não me resta qualquer dúvida. Não será, pois, por acaso, que uma linha de uma canção na voz de Rui Veloso me acompanha como se de uma máxima de vida se tratasse. É certo que os opostos se atraem, mas certo é também que, mais tarde ou mais cedo, se consumirão no fogo que os opõe. O coração é um felino indomável e voluntarioso. Encarregar-se-á de unir almas menos opostas. Acredito por isso que não se ama alguém que não ouve a mesma canção.



Da Festa da Música aqui

segunda-feira, 5 de março de 2007

Fat bottomed girls

E na sequência desta aula, achei por bem, não deixar os meus alunos na ignorância total e da minha parquíssima colecção de livros dedicados à arte, retirei um da Taschen comprado pela módica quantia de € 2.99 em saldo, numa grande superfície aqui da terra vizinha, e levei-lho na aula seguinte. Juntei-lhe um outro de Botero, uma vez que, iniciando uma sub-unidade sobre a imagem do corpo e hábitos alimentares, não me pareceu mal utilizar uma das afanadinhas imagens femininas para destruir o estereótipo e, a partir dali, entrarmos no tema propriamente dito.
Ficaram felizes e agarraram com sofreguidão o livro do Warhol, já sabiam em linhas muito breves de quem se tratava. Quando chegados ao livro do Botero, uns Ahs e Ohs saíam em catadupa das bocas arredondadas e olhos arregalados. Mantive-me tranquila e fui-os observando. Ai que horror, setora, que gordos, ainda digo eu que sou gorda e a outra mostra aí… Olha aqui, como é que esta podia ser bailarina? Uma respondeu Os gordos tem muita flexibilidade… Ai que feios, olha aqui os padres… e o Papa uma disse Os padres ainda se compreende, eram gordos… E o Jesus? Até o Jesus era gordo?! Lá teci umas brevíssimas considerações acerca das características de Fernando Botero, que a representação não era retratação naturalista e fiel da realidade. A M. não quis saber, absorta que estava nas formas voluptuosas, e retorquiu Então, mas ele só tinha modelos gordos? Gordos e feios? Eram todas obesas então? Fiquei até assustada. As mulheres de Modigliani seriam todas dignas de rinoplastias, as de Rubens necessitadas de lipoaspiração e aumento mamário, as de Picasso nem o Pitanguy lhes valia, as de Hopper só três lamelas de Prozac e sessões ininterruptas de solário, e quanto ao David de Michelangelo, enfim, bem podiam ter arranjado alguém mais compostinho, que aquele xs abaixo do umbigo não é coisa que se apresente. Estes artistas, realmente.


imagem: Fernando Botero, Pareja bailando, 1987

sábado, 3 de março de 2007

Warhol? Who the f*** is Warhol?

Foi isto há uns dias, enquanto escrevíamos a data e o sumário no quadro. Vinte e dois de Fevereiro marcava o calendário e, por me ter lembrado também em virtude disto, que vinte anos passavam sobre a morte de Andy Warhol e, acima de tudo, por se tratar de uma turma de Artes, resolvi perguntar-lhes acerca da efeméride. Não era esperado que detivessem na memória as datas de nascimento e morte de todos os artistas plásticos, apenas por serem alunos de artes, claro está, mas nada melhor para matar aqueles instantes do que encetar uma conversa acerca do que teoricamente interessaria estes alunos: a vida e obra de quem marcou um tempo. O esperado aconteceu. Ninguém sabia. Comecei então por dar-lhes dicas. Nada. Depois pedi-lhes só que mencionassem artistas plásticos do século XX que se tivessem celebrizado nos anos sessenta. Uma alvitrou Ah, aquele dos bigodes? Não me lembro de algum dia ter visto Warhol de bigode e percebi claramente que era uma alusão a Salvador Dali. Tinha sido mencionado numa aula anterior. Não, esse também não.
Sem a disciplina de História de Arte como obrigatória no currículo, os alunos são deixados ao abandono no que diz respeito à formação global das áreas de estudos que escolheram e, foi com enorme surpresa que, logo no início do ano lectivo, verifiquei que estes pobres alunos estão absolutamente a leste no que respeita à história da arte em geral e contemporânea em particular. Desconfio que mesmo Da Vinci só conhecem através do Código, Vermeer e Frida Kahlo pelos filmes e nem todos.
Lá ia insistindo, mas nomes não saíam, um, um apenas e de repente olharam-me como se em mim estivesse a salvação, implorando Ó setora diga lá... Insisti Vá, digam lá vocês nomes de artistas plásticos famosos do século XX. Quem é que conhecem? De novo nem mais um nome e o pedido Diga lá setora… Cedi, pois claro, não se tratava de um braço de ferro, apenas uma forma de iniciar tranquilamente a aula. Acredito que se não o tivesse feito, teríamos permanecido ali os restantes oitenta minutos em busca de uma referência inexistente naquelas vidas, de resto, o Inglês esperava-nos. Andy Warhol disse. Faz hoje vinte anos que morreu Andy Warhol. Nos rostos intrigados, nas expressões interrogativas e sobrancelhas desconfiadas, como se eu falasse uma língua estranha e incompreensível, eu decifrava uma pergunta em uníssono daquelas vinte almas inocentes Warhol? Who the f*** is Warhol?


imagem: Andy Warhol, Self-Portrait.

sexta-feira, 2 de março de 2007

The most excellent and lamentable history


Juliet: How cam´st thou hither, tell me, and wherefore?
The orchard walls are high and hard to climb

Romeo: With love´s light wings did I o´erperch these walls,
For stony limits cannot hold love out


William Shakespeare, Romeo and Juliet
Verona
foto: minha

quinta-feira, 1 de março de 2007

Estranho país

Por outros caminhos que não os habituais me levou aquele estranho dia de Fevereiro. Paulatinamente com o dia a esconder-se, percorri caminhos que me levariam a um fim de dia previsivelmente pouco risonho. A noite anunciava-se, luz havia, no entanto, suficiente para que do meu lado direito, pudesse observar sem dificuldade, também em virtude do trânsito, que numa via secundária escorregava ao ritmo do entardecer, calmo e temperado, um cartaz gigantesco com os tão anunciados dez melhores portugueses de sempre, eleitos pelos portugueses de hoje. O nariz aquilino, os olhos escuros, a expressão austera e sombria, a imagem a preto e branco, deixava inequívoco aquilo que tenho tentado esconder de mim própria, que uma parte dos portugueses contemporâneos escolhe entre os dez melhores da sua história aquele que durante quase cinco décadas os silenciou. Estranho país, este que elege entre os dez melhores o seu ditador.

Things gonna change