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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Faminta


Não sou facilmente influenciável mas sou facilmente sugestionável. Se estiver por aí tranquila e vir um anúncio pode até ser numa revista brilhante a um vinho, um belo copo com vinho tinto, a cor e a luminosidade perfeitas conseguidas apenas com as técnicas mágicas de manipulação de imagem, apetece-me um vinho, tinto pois claro. À temperatura ideai bebericado de um copo bojudo, sempre de um copo elegante e generoso, odeio copos pequenos para beber vinho, fará as minhas delícias, o deleite dos tolos que se inebriam com os sentidos deixando a vida tormentosa aprisionada na despensa a espernear entre os garrafões de água e os pacotes de farinha. Se ler uma receita ou vir a imagem apetece-me o que vejo ou o que leio, desde que seja apetitoso e me atice os apetites indómitos. Pois. Isso. Também.
Desde ontem que desceu sobre mim esta vontade. Cruzei-me com ele algures em 2010 numa livraria em Edimburgo. Um ano mais tarde voltei a vê-lo numa livraria em Londres, em mais do que uma, e posteriormente em Liverpool encontrei-o outra vez. Destas três vezes, o tamanho e a letra pequena demoveram-me, não sem antes pegar e largar, dar-lhe voltas, ler lombadas e badanas. Provavelmente ter-lhe-ei metido o nariz. Há lá aroma melhor que uma pilha de livros novos? Três vezes o vi e três vezes o recusei, valham-me os deuses que isto de recusar três vezes faz-me lembrar outras estórias, e ontem depois de ter visto o filme, aqui deitada no remanso de fazer coisa nenhuma, enquanto o corpo se aninhava no colo da noite, fiquei cheia de apetite, fome, desejo, ganas, vontade do livro. E assim estou desde ontem. Doida de fome de um livro. Do livro. Deixava já a Herta Müller que me mantém entediada e intrigada por ele. E inquieta por não o ter. Eu disse que era sugestionável. Estou faminta.

O meu mai novo

aqui. Separemos as águas. Talvez.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Confissões desalmadas de uma directora de turma quase à beira de um ataque de nervos logo à segunda-feira

Entre os alunos adolescentes imaturos e os professores marmanjos não sei quem prefiro aturar mas os últimos não são de certeza.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O dia de todas as indecisões


Acordei cedo com uma sensação estranha. O corpo meio mole mas sem sono. Deixei-me deambular sem grandes planos excepto um compromisso à tarde que me impossibilitaria um outro. E agora, a qual vou? Esta indecisão usurpou-me a alma e fez-me balançante, incapaz de tomar decisões, de resolver até as pequenas coisas, dia fora. Ainda de manhã, olhei para o relógio várias vezes, cronometrando se teria tempo de ir à frutaria, aqui mesmo em cima, para fazer a tarte proposta esta semana no Dorie às sextas. Teria? Não teria? E depois a dúvida ainda mais penosa. Faço? Não faço? E ainda: vou fazer uma caminhada? Não vou? Se a este ponto já estão cansados de me ouvir, imaginem a minha saturação desta mulher meio frouxa que raramente me visita. Não gosto dela. Esta indecisão prendia-se como uma outra decisão: fazer dieta. Nada de muito austero, neste momento não suporto mais austeridade, começo até a odiar a palavra, mas um regime mais frugal e equilibrado, sem biscoitos e outras iguarias que me têm desgraçado, só vai contribuir para que não perca o fôlego e me sinta melhor. No meio da indecisão, e depois de ter ido fazer a dita caminhada aqui pelo campo, entre pinhais e limoeiros, decidi que sim, que participaria, a publicação de fotografias apetitosas aguçou-me o apetite e a curiosidade, e deitei mãos à obra. Compradas as maçãs e com a rodela de massa folhada no frigorifico, a consciência um pouco mais leve de me ter ido livrar de calorias por esse mato fora, iniciei esse processo alquímico e profundamente intuitivo de cozinhar. Quem gosta de cozinhar sabe como é. A proposta era uma tarte de maçã, mas não qualquer tarte, uma Tarte Tatin que requer calma e temperança, mesmo sem ser muito trabalhosa. O fim de tarde pôs-se ameno e foi bordejado por um momento doce em excelente companhia e uma chávena de Earl Grey fumegante. Boa decisão afinal.

Ingredientes:
120 g de açúcar
50 g de margarina
6 maçãs Gala
1 embalagem de massa folhada refrigerada

Preparação:
Numa frigideira derreter a margarina. Depois de derretida, juntar o açúcar e continuar no lume. Juntar as maçãs cortadas em oitavos com a parte convexa para baixo e deixá-las caramelizar com calma mas sempre sob supervisão. Quando estão suficientemente douradas, não deixei caramelizar muito, borrifar com Moscatel. Tirar do lume. Aconchegar as maçãs com a massa folhada e levar ao forno pré-aquecido a 190º cerca de 20 minutos. Assim que estiver pronta virar para um prato de forma determinada e sem hesitações. Por esta hora já me tinha passado a indecisão e correu muito bem.
Esta tarte pode ser feita com outra fruta e aromas mais criativos. Hoje o dia não me permitiu grandes variações mas assim mesmo ficou deliciosa. Menos é mais. Hoje pelo menos.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Zeca e eu

A primeira vez que terei ouvido o Zeca Afonso foi logo após o 25 de Abril. Até aqui nada de novo, a maior parte de nós terá ouvido o Zeca mais ou menos por essa altura e pelas alturas seguintes. Revolução é Zeca, Zeca é a revolução e aqueles eram tempos de revolução. Eu também gostava do Zeca nessa altura, não havia como não gostar do Zeca e nem sequer era opção nesses tempos tão coloridos e exuberantes não gostar do Zeca. Mas eis senão quando o Zeca veio a Mafra. Tal como não era opção não gostar do Zeca, não era opção não ir ver o Zeca. Nessa noite fria e de nevoeiro, nessa altura estava sempre frio e nevoeiro por aqui,e mesmo que não me lembre, sei que estava, só podia estar, e depois de ver o Zeca, e quando o Zeca debandava Jardim do Cerco fora terei ido pedir um autógrafo ao Zeca. Tímida mas encorajada pela minha mãe, lá fui da pequenez dos meus nove ou dez anos pedir um autógrafo ao grande revolucionário, protector do proletariado e de outros infelizes. Acontece que o Zeca podia ser protector do proletariado e de outros desvalidos, mas crianças não devia ser bem o que ele mais gostava e crianças a pedir autógrafos seriam talvez a última das coisas amadas para o grande símbolo do reviralho e de todas as coisas contestatárias. O Zeca, amado e venerado em casa dos meus pais, mandou-me ir dar uma volta e ignorou-me por completo.  Caía do pedestal ali mesmo à minha frente. Nunca mais pude aturar o Zeca. Hoje também não.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A doce arte de dar cabo de tudo

Longe mas muito longe vão os tempos em que uma clicadela fora do sítio e eriçavam-se-me os ânimos, histérica e descontrolada perante um problema que não conseguia por meus meios resolver. Acontece às vezes. Gosto de ser eu a resolver os meus problemas e de saber que os posso resolver. Nem sempre posso e nem sempre os resolvo mas saber que os desígnios da minha vida repousam em mãos alheias não faz de mim uma mulher feliz e amarfanha-me esta mania da independência. Hoje pela tarde resolvi coisa pouca relativamente ao posterior desenrolar da mesma. Decidido estava que teria de preparar as aulas de amanhã, tarefa para a qual o computador passou a ser imprescindível, e que além disso pouco mais faria. Um chá sem biscoitos que me auto impus uma dieta ascética, para quê ainda não sei muito bem, e o remanso de aproveitar as últimas horas de paz absoluta. Ora nesse meu afã e sem saber muito bem como fui dar comigo a ajustar contas com o meu passado profissional e a rasgar o miolo de dossiers em morte cerebral. Uns papéis puxam os outros. Um crescendo de fúria na senda do despojamento total. E foi assim que incautamente terei arremessado algum dossier ou molho de folhas inúteis para cima do comando da televisão que se travou de razões comigo e me ofereceu uma imagem azulada sem retorno. Umas clicadelas depois e nada de regressar à vida. Estava uma tarde de sol e não me importei. Havia mais que fazer e não tenho paciência para amuos. Ora acontece que um tempo depois, resolvi imprimir um documento necessário para a aula de amanhã. Por solidariedade ou amuo, a impressora fez-se de morta e quase se rebolou de barriga para o ar quando a mandei mais uma vez imprimir o dito e absolutamente necessário documento contra o insucesso escolar deste país, a fórmula mágica cravada a negro num pedaço de papel branco, já se sabe. Nada. Coisa nenhuma. Liga e desliga cabos. Zero. Nem um estertor. Depois de ter dado cabo da televisão e da impressora, achei por bem esperar quieta. Nada de descontrolo ou megalomanias de resolver tudo por mim só. O jeito que esta tarde me deu. E o que eu aprendi.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Entre parêntesis


O meu belo dia de hoje começou logo ontem quando me deitei a Os Malaquias de Andréa del Fuego e hoje no início da madrugada dei por finda a minha leitura. E isto porque hoje estou tranquilamente de pousio em casa, arrastando-me entre o sofá e o sofá e metendo a espaços o nariz lá fora para espreitar este sol de Fevereiro e sentir o Inverno a ir embora. A ausência de obrigações para o dia de hoje marcou o meu dia de ontem. Nada como saber ao Domingo que na segunda não tenho aulas para dar e por conseguinte espera-me um Domingo tranquilo longe de trabalhos e outros afazeres que me mutilam a morrinha de Domingo e o tornam numa antecipação da semana. Este pequeno parêntesis na minha existência profissional pôs-me a alma leve cheia de palavras suaves e carinhosas como o sol que se reflecte manso sobre a relva, esse mesmo que espreito enquanto vos escrevo. E de alma tão leve que me fez mansa e calma, tão mansa e tão calma que nem tenho vontade de dar bordoada no governo. As coisas que um dia sem aulas pode fazer.

Danke schön

A Ivone Costa que é uma querida lembrou-se aqui deste modesto cantinho e elegeu-o como um dos seus blogues preferidos. Resta-me agradecer-lhe aqui tanta generosidade e as palavras tão elogiosas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Inútil

Uma pessoa acorda de manhã e fica a saber que não tem serventia para coisa nenhuma, já que os deuses se esqueceram de mim e deixaram-me sem crias. Hás-de ter muitos amigos assim, ó Cardeal.

A estratégia do governo


Se és professor, baza.

Se é és funcionário público, faz as malas e faz-te à vida.


Se és um dos 770 mil desempregados, não sejas piegas. Provavelmente. 

Se és jovem e desempregado, sai da zona de conforto.

Se tens expectativas ou planos, esquece. Este país não é para ti. Não é para ninguém, pelos vistos.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O pêndulo do sonho

Viajar pode ser apenas a deslocação de um ponto ao outro, a interrupção desejada da rotina do quotidiano, conhecer um destino fora de portas, confirmar aquilo que se julga saber, carecendo, não obstante, de ratificação, preencher uma lista de lugares e monumentos visitados, uma forma de ascensão social, de gabarolice inevitável ou a busca da felicidade como diz Alain de Botton em A Arte de viajar: “Se as nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas actividades sejam tão elucidativas no que à dinâmica dessa busca – com todo o seu ardor e paradoxos – se refere como as nossas viagens.”
A ideia começou a maturar não sei exactamente quando, embora admita que, com a idade a avançar e os dias jovens para trás, a saturação de uma profissão desgastante, socialmente desprestigiante e desprestigiada, e a necessidade de dias tranquilos sem confusões supérfluas criadas em gabinetes com fins estatísticos muito precisos e minuciosos agravou a necessidade de bater a porta do ensino e sentir fluir os dias entre momentos de plenitude e calmaria sem acusações ou julgamentos em praça pública.
A ideia surgiu de forma mais visual quando um dia em Viena, ao dobrar inesperadamente uma esquina, dei por mim a espreitar pelas vitrinas fechadas o conteúdo duplamente saboroso, os livros criteriosamente empilhados e arrumados, postais e marcadores de livros alusivos à temática dominante do espaço luminoso, o contraste curioso à cidade dos imperadores bisonhos e vienenses carrancudos, e ao canto, uma zona onde se podia tomar café ou chá, imagino que café dada a grande tradição vienense. E ao estatelar o nariz na montra conseguia sentir os aromas vários que se soltavam, o perfume dos livros enleado com a fragrância do café acabado de tirar, a sugestão onírica e sinestésica que o espaço libertava combinado com a localização estratégica, a esquina, com luz de ambos os lados. E fui acalentando o sonho: as manhãs luminosas, os bons-dias à vizinhança que passava em passo estugado a caminho das vidas atribuladas, abrir a porta e esperar que aparecessem, um, dois, três bibliófilos dedicados à procura da última novidade ou de uma edição antiga, talvez a tivesse guardado carinhosamente para estes dias de magia, algures entre livros e dias amenos.
E a mesma ideia regressou com força, quando numa manhã cinzenta calcorreada pela capital londrina, aterrei inadvertidamente à porta da livraria ainda por abrir. Oito horas e cinquenta e oito minutos no meu relógio de viajante, dois minutos, pois, dois minutos me afastavam do momento em que a confirmação do sonho em gestação se me apresentava sem possibilidade de recusa, a verdade que se desvelava e revelava à minha frente. Um homem à porta apenas, confirmou as horas para se dirigir à montra e depois as portas que se abrem, um sorriso consentâneo, e ao contrário do espaço vienense, estantes vetustas que se erguem até ao tecto, escuras e austeras na medida do desejável, o chão fofo da alcatifa e os empregados discretos e eficientes, sem a conversa do dia-a-dia audível a todos os presentes ou salamaleques balofos. E a revelação ali estava: dias, meses, anos em torno dos livros, com escrita pelo meio e périplos infinitos para regressar renovada a um espaço de recato e religiosidade com toda a liberdade da escrita e da leitura. Poderia acabar os dias assim.
Viajar pode ser apenas a deslocação de um ponto ao outro. Será sempre contudo, um espaço de descoberta e de revelação, o movimento pendular entre a realidade e o sonho e a libertação e a felicidade de pensarmos que ainda podemos ser outros.



Fui repescar este texto a propósito da conversa nesta caixa de comentários. O sonho de passar os dias entre livros persiste e pelo sonho é que vamos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Bibliófilos nossos amigos


Num ano longínquo e nesse tempo igualmente longínquo em que eu podia ir conhecer mundo e pôr pé e nariz além fronteiras perdi-me de amores por um livro. Nada de novo. Sempre que ia àquela livraria na Velha Albion, em pleno Piccadilly, era a perdição. Cinco andares, meus deuses, cinco andares de livrinhos novos à espera de serem folheados e lidos é o sonho de qualquer bibliófilo que se preze. Acalentei um dia a esperança de ficar lá dentro sem horas marcadas nem gente à minha espera, metendo o nariz em tudo, acariciando capas e inspirando o aroma libertador das páginas invictas. Há lá coisa melhor? Deve haver mas agora é mesmo o que me apetece dizer. Amanhã direi que é o cheiro a maresia na Ericeira, uma verdadeira dádiva de Neptuno, num outro dia o cheiro a Verão, quando na Primavera meto o nariz de fora e inspiro o perfume da Primavera, algo indefinido mesclado com o aroma as flores da nespereira aqui perto e outro o café acabado de fazer pela manhã. Mas os livros, ai os livros. O único problema do objecto do meu desejo ardente era o peso e o tamanho, impróprio para ser transportado Londres fora, transpor ares e chegar à minha modesta casinha mas a história acabou bem. Fui lá comprá-lo no último dia de manhã e o meu prestimoso consorte transportou-o com zelo. Agora mesmo enquanto vos escrevo vejo-o de relance, ao livro, a lombada meio desmaiada do sol aqui da sala e a memória de um pequeno episódio de que são feitas as existências felizes. E serve isto tudo para dizer e ilustrar que sim, eu também gosto muito de livros, ó como gosto de livros, mas gastar 12.000 euros em livros, ainda por cima do programa do Governo, numa altura em que se aponta a porta de saída como  umas das soluções de sobrevivência deste país e diariamente nos vão ao bolso não me parece um exagero, é um insulto a todos nós.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O elogio da preguiça


No meu tempo, já o disse aqui, quem faltava e ultrapassava o limite de faltas era excluído da frequência. Nesse tempo não havia almofadas, credo, que até pareço o Passos Coelho, não havia segundas oportunidades, muito menos novas, ninguém andava connosco nas palminhas e a maior parte dos professores estava-se nas tintas para a vida privada dos alunos, se tinha problemas em casa, se estava com problemas, se o namorado/a nos tinha dado com os pés ou se tínhamos sido atacados por um ataque de adolescendite aguda e parvoeira acentuada. Nesse tempo as consequências eram bem claras e à maneira judaico-cristã quem pecava tinha de sofrer a culpa e esperar pelo ano seguinte.
Esta prática tão vergonhosamente anti-pedagógica esteve grosso modo em vigor até um belo dia o governo Sócrates ter desencantado Maria de Lurdes Rodrigues para dirigir os desígnios da educação neste país. A excelsa dama num afã de reduzir o abandono escolar lembrou-se de implementar uma coisa chamada provas de recuperação. As provas de recuperação eram uma bela manobra de diversão mais uma vez cheia de papelada e de rodriguinhos, formulários, comunicações para cá e para lá. Podem até ter reduzido o abandono escolar no papel mas na prática os prevaricadores eram ainda brindados com a ausência total de faltas e podiam começar tudo de novo. Ultrapassar limites de faltas era o desejo último de muitos faltosos. Feitas as provas e recuperadas as aprendizagens, ah que belo naco de prosa, os alunos poderiam faltar e fazer mais provas e faltar e fazer mais provas. Naturalmente esta permissividade legitimada e aprovada em decreto só teve como consequência o laxismo, o abandalhar da escola e do próprio sistema e fazer com que quem faltasse visse ainda premiada as sucessivas ausências, já que muito pouco lhe acontecia.
Mortas e enterradas as provas de recuperação surgiu mais uma maravilha: os planos individuais de trabalho. Servem para o mesmo que as provas de recuperação, as consequências em última análise e em muito última, podem levar a uma situação menos doce mas enquanto isso os professores vão-se arrastando numa teia infindável de papelada, reuniões com os pais, cartas e mais cartas e os alunos felizes da vida contando com a almofada que a lei permite. Não é de admirar que cheguem ao mundo do trabalho com manhas. Até aí ninguém lhes apontou a porta de saída se não cumprirem. Foi-lhes sempre dada uma segunda, terceira oportunidade e os professores sempre lestos para cumprir a lei e os pais justificar o injustificável, algumas faltas. Se não estamos a criar preguiçosos irresponsáveis não sei o que estamos a fazer.


Também no Delito de Opinião

domingo, 12 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Como na vida


Que tudo fosse tão fácil. Que tudo fosse tão fácil como cozinhar, fazer bolos e biscoitos. Nesta minha participação no Dorie às Sextas tem havido algo que me ocupa mais tempo do que a confecção das receitas propostas. Não que não me aplique mas quando chega a altura de tirar as fotografias para postar começam as dificuldades. Subo as escadas, abro o armário e, depois de uma espreitadela,  escolho uma toalha. Depois vou tentando. Mudo os biscoitos, mudo os adereços, provavelmente a toalha, dou uma volta aos bolos, acrescento chávenas, ora de chá ora de café, ponho uma colher, tiro a colher, parto os biscoitos ao meio para lhe dar uma ar mais verosímil, como se alguém os tivesse partilhado mas nunca nada fica exactamente como gostaria e nunca se sente na plenitude como ficaram. Desta vez, por exemplo, esperei um dia pela luz da manhã e apliquei-me. O resultado foi o que vêem. 
A proposta desta semana eram uns deliciosos biscoitos de granola. Ora como se sabe, tenho a mania das invenções e, portanto, quando a receita foi divulgada tratei logo de fazer alterações. Primeiro foi a dita granola, cá em casa mais conhecida por müsli. Não tendo conseguido encontrar sem frutos decidi que utilizaria apenas flocos de aveia e flocos tostados de trigo, ambos encontrados na secção de produtos naturais do supermercado e um dos meus poisos nos últimos tempos. E depois a fruta. Excluí liminarmente as passas e optei por damascos picados em pedaços. E como nem tudo são rosas neste templo alquímico de criar fórmulas de prazer e resultados de deleite, a massa saiu-me uma amálgama informe, difícil de arrumar em pequenas circunferências e que me deixou na dúvida durante aqueles quinze minutos de forno. Uma vez cá fora espreitei-os desconfiada e passados dez minutos dissiparam-se-me as dúvidas com um belo cafezinho em mais uma gloriosa manhã de sol: deliciosos, crocantes, doces na medida certa, animadores como o amendoim e levemente ácidos do damasco tímido lá pelo meio. Assim um bocadinho como se quer a vida: não demasiado doce para que não enjoe, suficientemente animadora para que possamos sorrir e com uma acidez esporádica para que o doce se torne mais doce quando regressa. Nada que se sinta nas fotografias, como vêem. Eu não disse que era um fracasso?

Biscoitos crocantes de amendoim e damasco

Ingredientes
1 ½ chávena de flocos de aveia integrais
1 ½ chávena de flocos de trigo tostados
1/3 de chávena de gérmen de trigo
1 chávena de amendoins salgados picados grosseiramente
1 chávena de damascos secos picados
1 chávena de farinha
1 chávena de açúcar amarelo
200g de margarina
1 ovo

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º.
Juntar os flocos de aveia, de trigo, o gérmen de trigo e os amendoins picados numa tigela e reservar.
Bater o açúcar com a margarina até ficar cremoso. Juntar o ovo e bater mais. Deitar a farinha e bater o suficiente para que fique uniforme mas não muito. Incorporar os damascos e envolver com uma espátula de silicone. Por último incorporar a mistura de ingredientes sólidos. Moldar pequenas bolas de massa e achatá-las um pouco. Levar ao forno pré-aquecido quinze a dezoito minutos. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ricas vidas

Ando aqui com uns posts engasgados. Um sobre o Vik Muniz, outro sobre "A Dama de Ferro" que fui ver há pouco e outro ainda sobre O Retorno de Dulce Maria Cardoso. Tenho outros que me vão surgindo. Assuntos corriqueiros e menos instruídos. Os alunos, a escola, a cabeleireira cá da aldeia ou outros episódios de somenos importância, momentos díspares de que são feitas as vidas comuns e desinteressantes. Mantenho com os meus posts uma relação difícil e nem sempre os consigo agarrar e fixar a este espaço branco. Começo a achar que gostam de luz e cor, movimento talvez, e que isto de estarem aqui sentados à espera de serem lidos e comentados não é vida para eles. Alguns esgueiram-se-me e fogem-me furiosos não sem antes me bufarem como os gatos. Vi um um destes dias do lado da lá da rede, depois de se me ter largado da mão numa bela manhã de sol. Voava lesto com os melros e resguardou-se no canavial quando a ventania lhe limpou as metáforas. E outro que me fugiu quando o tinha no bolso e fui estender a roupa. Uma pequena distracção e foi-se. Ainda o tentei apanhar pelas vírgulas que tinham ficado para trás no afã da fuga mas a ponta encaracolada não dá jeito para agarrar e só me ficou um ponto final na mão. Aproveitei-o para concluir uma questiúncula que tinha pendente e deixei-o lá no território dos assuntos resolvidos. Hoje é sexta-feira à noite  e adormeceram-me com o crepitar da lareira. Que não, que ainda não é hoje, dizem-me, enquanto abrem um olho e se espreguiçam no sofá. Há posts com sorte. Muita sorte. Ricas vidas. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Um quiz por dia nem sabe o bem que lhe fazia


Teste o seu grau de patriotismo.
O povo está furioso com Martin Schulz porque:

a) ele é da SPD
b) ele disse mal de Portugal
c) ele proferiu a palavra proibida: ANGOLA
d) é um suino xenófobo
e) Pedro Passos Coelho ainda não chamou piegas a ninguém hoje e o povo precisa de um bode expiatório
f) meteu o nariz onde não devia
g) o povo precisa de se divertir agora que não há tolerância de ponto no Carnaval
h) sim

Grata pela vossa atenção.


Também no Delito de Opinião

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Crónica de uma desobediência anunciada


Sou uma alma solar, embirro com dias cinzentos e convenço-me que esses estados de alma sombrios são uma extensão de dias infelizes sem sol. Se me levantasse da cama e ficasse em casa de portadas fechadas, protegendo-me do sol e do calor, já teria saído de faca em punho para dizimar o que se me cruzasse neste ímpeto devastador. Não porque não goste do coxo e do cego que cruzam a rua ou odeie a Frida Kahlo das carcaças, a dona da padaria ou o Jesus Cristo da aldeia que também faz ruas mesmo em dias de frio. Nada disso. O frio e a falta de luz trazem ao de cima a fera que há em mim, a medusa hedionda, sim, o cabelo ajuda muito, o golum aterrador e nesse território medonho, nas catacumbas da alma, nada há que possa cheirar o dia ou ser acariciado por um raio de sol. Acontece que hoje apanhei muito frio. Está frio, dir-me-ão, é Inverno, já se sabe. Pois sabe. Neste meu humor solar até tolero dias cinzentos e frio, mas se e apenas se for na rua. Um cachecol, umas luvas, mais uma camisola e um casaco quente e posso até ser feliz. Se por um acaso estiver além fronteiras onde o frio é mais generoso, serei até muito feliz porque a libertação de um sítio diferente e a janela aberta sobre um outro mundo e linguajar são por si só condição suficiente para que arrume os demónios nas profundezas. Hoje não estive na rua. Tudo teria sido mais fácil e este texto sem sentido. Estive cinco horas num frigorífico, de cachecol, uma camisola extra, um casaco quente e um frio descomunal. Às terças-feiras é sempre di de casaco extra, o mais quente que tenho e que me faz parecer o abominável homem das neves em versão fêmea e morena de um metro e sessenta. E onde andei, perguntarão? Ora, pois claro na minha moderníssima escola azul-cueca, lá onde é tudo moderno, tão moderno que hoje até tinha uma mulher descascada no ambiente de trabalho do computador. Isso sim, mas aquecimento central a funcionar, zero. Diz que há por lá um berbicacho. Pois há, há sempre um berbicacho desconhecido que nos atormenta os dias. E pronto, era só isto. Logo agora que o Primeiro-ministro disse que o povo tinha de ser menos piegas  nada como este texto para o comprovar. Ninguém disse que eu era obediente. Se disserem que eu sou desobediente provavelmente obedecerei com mais um post. Piegas é a tua tia, ó Passos Coelho. Não digas asneiras, porra!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Segunda-feira


Chegar a casa à segunda-feira é igual a chegar a casa aos outros dias. Chave na porta, os livros em equilíbrio com a carteira e o pão. A porta abre-se e as gatas saem. Abandono os livros em cima da mesa, a mesma onde como, corrijo testes e trabalhos, vagueio pelo espaço cibernético. Uma mesa nunca é só uma mesa. Nunca nada é apenas e só o seu significante. Dispo o casaco e subo ao quarto. Já o quarto é sempre o quarto. Hoje é segunda-feira. Hoje cheguei a casa, as gatas saíram, subi ao quarto, fiz a cama. E cheirou-me a lareira, a lenha queimada, ao aroma matricial dos natais antigos na Beira Alta, quando ninguém faltava à mesa e os dias eram um continuum de momentos quase felizes.  Chegar a casa hoje não foi igual a chegar a casa à segunda-feira. É bom chegar desde que se parta. Já fui.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Prazeres simples


Um destes dias num périplo de supermercado dei por mim em frente à estante de pudins instantâneos. O que poderia ser um acaso sem sentido -quantas mas quantas estantes de produtos existem por esses supermercados fora?- levou-me de braço dado a um passeio ao passado, território que me tem assolado nos últimos tempos. Cutuca-me no braço a fazer-se notar, um lembrete de quanto fui e do que restou e se metamorfoseou no que sou. Os olhos atraídos ao de caramelo, o meu preferido de sempre, relembraram-me do sabor tão mas tão simples, nada elaborado e com zero de sofisticação. Bastava juntar leite e esperar. E as esperas eram quase sempre longas e ansiadas. Embalada na infância tranquila, regressaram todos os sabores tão pouco complexos, sem gourmandise ou ingredientes sofisticados. Açúcar, farinha, ovos e tínhamos um bolo. Arroz e frango e surgiria o mais opíparo arroz de frango que em casa dos meus pais era borrifado com caril para rematar e onde era dada liberdade a cada um para a intensificação deste toque de exotismo. Leite, açúcar e ovos e eis que a casa se inundava com o aroma do açúcar queimado no mais ancestral leite-creme. Tudo tão simples e tão bom. E terá sido à procura dos sabores longínquos, o regresso ao território perdido de vidas tão ausentes de sofisticação balofa que me deu a vontade de sabores simples de técnicas caracterizadas pelo zelo de um tempo de vagares. E apareceram então os biscoitos que me acompanham neste momento com uma chávena de chai bem quente. Às vezes gosto de prazeres simples. Nada mais simples que uma chávena de chá e biscoitos. Nada mais reconfortante.

Biscoitos de trigo e laranja
1 ¾ chávenas de farinha de trigo
1 chávena de gérmen de trigo
½ chávena de açúcar
 ½ chávena de mel
Raspa de uma laranja grande ou de duas pequenas
1 colher de chá de fermento
½ colher de chá de sal
160 g de margarina
1 ovo grande

Misturar os ingredientes sólidos. Juntar a raspa de laranja ao açúcar e misturá-los. Bater o açúcar com a margarina meio derretida até ficar cremoso. Juntar depois o mel. Bater uns dois minutos e adicionar por fim o ovo. Envolver os ingredientes sólidos em duas vezes e levar ao firgorífico a refrigerar durante pelo menos duas horas. Com uma colher deitar bolinhas de massa no gérmen de trigo que sobrou e enrolá-las. Colocar no tabuleiro e achatar com a mão. Levar a forno pré-aquecido a 190º 18 a 20 minutos. 

Receita inspirada aqui.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A improbabilidade de uma escola feliz


No meu tempo de escola, a vida era muito tranquila. Os professores faltavam e alguns faltavam muito, outros bastante e outros nunca. Como agora. Esperávamos todas as santas aulas pelo abençoado segundo toque que nos aliviaria de aulas de modorra e tédio, sem visualização, powerpoint, projectores ou quadro interactivos. O professor falava, os alunos ouviam. Esqueçam motivação e interesse. Ir à escola era aprender e ninguém disse que aprender era divertido e engraçado ou fácil. Naquele tempo não era. Quando os professores faltavam era-nos dada toda a liberdade. Lembro-me de ficar no pátio a apanhar sol, na conversa com os colegas, maldizendo a adolescência, os chatos dos professores, provavelmente a incompreensão dos pais, a soltar gargalhadas sonoras e estridentes salpicadas com a inconsequência da condição púbere ou ainda a catrapiscar os rapazes, meu deus quantas paixões secretas e contidas, ou ir ali ao café do lado fazer isso mesmo, ir ao café do lado: esticar as pernas, dizer disparates, respirar o ar húmido que se nos agarrava ao corpo e soltar os cabelos à sombra do convento. Tudo sem culpas ou recriminações. Livres, portanto.
Nesse meu tempo de escola, faltar à escola era apenas isso: faltar à escola e eu no meu tempo de escola também faltei às aulas sem que mal algum viesse ao mundo. Acontece que nessa altura quem ultrapassasse o limite de faltas chumbava. Ponto. Sem avisos nem colinhos. Sem cartas para cá e para lá, sem comunicações aos encarregados de educação porque o menino prevaricou, avisos de recepção, convocatórias, telefonemas. O povo estava avisado e sabia das consequências. Se faltasse de mais, estaria modernamente excluído por faltas e podia seguir uma vida livre de aulas e professores. Acarretávamos pois com a consequência dos nossos actos sem mais conversa. Não me parece que alguém se tenha dado mal.
Nesse meu tempo de escola os pais também não vinham à escola porque o professor deu cabo dos meninos, não está a cumprir o programa como eles, pais, entendem ou não cumpriu os critérios de avaliação. Pergunto-me como terei sido classificada então, nesse tempo de caos absoluto, tudo tão livre e solto. Que era isso de ‘critérios de classificação’ a propósito? Não me consta que tenham ficado mazelas.
Nesse meu tempo eu era incrivelmente feliz sem o saber. E livre. Livre para gozar os tempos que os professores nos deixavam livres, livre para faltar a uma aula porque algumas aulas me maçavam de morte, quem aguentou aquilo, aguenta tudo, livre sem pressão das notas e de desempenhos. Na medida inversa dos meus alunos. Não havia substituições, não havia planos individuais de trabalho, planos de recuperação, não havia as torrentes de palavreado bacoco, balofo e inútil, tão inútil como os seus significantes. E éramos felizes então.  Saltitando entre contrariedades, com os tostões contados e pontos altos tão ridículos como uma simples excursão a Sintra. Sobrevivemos aos  ABBA, aos Bee Gees e ao Stevie Wonder dando os parabéns a toda a gente e acalentado a esperança de um dia sermos proprietários de umas calças Levi's.  E sobrevivemos. A tudo. A inveja que me tenho.


Também aqui.

Yay

Acabou Janeiro.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Por um punhado de prazer

Os meus dias nunca começam exactamente nos dias em que começam. Os dias na escola começam sempre em dias anteriores com preparativos e preliminares mais ou menos longos mas quase sempre trabalhosos. O meu dia de terça começou logo na segunda à tarde com uma bela sessão de correcção de testes, os meus dias de segunda começam sempre nas tardes de Domingo e há outros dias que começam com meses de antecedência e se prolongam além das vinte e quatro horas em que finda o dia. O meu dia de hoje começou com meses de antecedência. Meses antes, digamos lá para fins de Setembro, a professora pariu a proposta, diz que linda e obediente queria levar os seus alunos fora de portas a ver o mundo, um mundo perto, menos remoto do que a outros mundos onde já levou os seus meninos, mas ainda assim um universo além dos portões da escola azul-cueca, lá onde ousam ir os que têm vidas e cujas dias não começam em dias e meses de preparativos intensivos, não vá faltar algum relatório, papel, formulário. Uma minudência, acharão, mas muitas minudências ao longo de muitos anos tornam-se num animal monstruoso de fome insaciável capaz de deglutir papelada como quem mastiga pipocas em dia de cinema, com um apetite mais voraz que uma gata com o cio. Alimentemos então a fera sôfrega. Meses antes dizia então. Ele foi proposta, sobre proposta, objectivos, orçamentos, itinerários, participantes e intervenientes. Uma vez regressada eis-me de novo a alimentar o bicho com mais um relatório. Não era tão mais fácil se disséssemos apenas Malta, bora a Lisboa!? E aí íamos em excursão, ai como gosto desta palavra tão pouco pedagógica, tão impiamente pecadora!, sem mais delongas, papeladas, autorizações, listas, relatórios. Era. Era mais fácil mas não tardaria a avalanche de Conselhos, Pedagógico, Gerais, de pais, que não existe mas achei que dava mais credibilidade à coisa, e alguns outros mais de dedo em riste, mostrando o caminho do cadafalso, indicando o cepo para pousar a desmiolada cabeça, agarrando a primeira pedra para um apedrejamento a preceito. Cumpramos pois o ritual de papéis e formulários para meia dúzia de horas de libertação e prazer. Nunca o prazer precisou de tanta antecipação. Nem de papéis. Já venho.