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sábado, 28 de abril de 2007

Ostras e pérolas

Em conversa com uma aluna sobre Roma, e no rescaldo de uma visita em comum a Munique, ela foi assertiva ao afirmar que tinha preferido algumas coisas de Munique, não haver prédios altos, por exemplo. Perorámos entretanto sobre o facto de a cidade ter sido destruída durante a 2ª Guerra Mundial, estima-se entre 80 a 90%, e informei-a ainda sobre as leis muito restritivas no que respeita ao planeamento urbano da cidade, nomeadamente, à proibição de construir mais alto do que as torres de Frauenkirche no centro da cidade, assim me disseram também no passado. Como futura estudante de arquitectura, as questões do planeamento urbano despertam-lhe o interesse e, durante os dias de Munique, andou encantada com a arrumação e organização da cidade, os espaços verdes como entremeios na cidade.
Voltámos a Roma e ela rematou É que não é como Roma, aquela fonte muito conhecida… é só prédios à volta e nisto a voz esganiçou-se na indignação. Puxei, por espaços ínfimos de segundo pela memória, e fonte alguma me ocorria que tivesse visto em Roma que fosse ladeada por prédios. Ela continuou na tentativa de explicar, uma vez que se lhe tinha varrido o nome e, depois de algumas tentativas, cheguei à conclusão que se tratava da Fontana di Trevi. Prédios? Por prédios não iria lá, de facto. Prédios para mim são atentados de betão decorados com marquises de alumínio de roupa pendurada do lado de fora como picot kitsch num pano de louça, oferecendo-se aos transeuntes. Para ela apenas casas altas encavalitadas. E depois, a conversa continuou em torno de uma das mais conhecidas, talvez a mais conhecida fonte de Roma, imortalizada no cinema com La Dolce Vita e posteriormente vinda a público ao se descobrir que um homem sobrevivia, vivia e sustentava uma numerosa família com a receita da Fonte, ao recolher as moedas que os turistas ingénuos ou apenas turistas arremessavam para o fundo das águas luminosas na esperança de melhores dias bafejados pela sorte. Esta seria a segunda vez que a Fontana di Trevi era acusada de estar encafuada num espaço ínfimo para a sua grandiosidade e, hoje ao abrir os jornais pela manhã, dei-me conta de uma opinião semelhante.
Viajar é sentir e, nos sentimentos, não há certo nem errado, mas a Fontana de Trevi separa-me dos demais em matéria de opinião. Na verdade, apenas conhecia imagens da fonte, desconhecia a sua localização exacta. Imaginava-a num praça arejada, talvez semelhante à Piazza Navona. Quando, seguindo as indicações e o mapa e depois de percorrer ruelas estreitas, me deparei com a fonte, fiquei literalmente boquiaberta. Ao contrário de outros monumentos também na Cidade Eterna e noutros lugares do mundo, a praça recolhe-se, não se deixa adivinhar de lado algum, uma pérola escondida da superfície rugosa e irregular da ostra que a protege e envolve. Também por isso é tão bela.

foto: minha

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Tanto Mar

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.


Chico Buarque (1978)

E mesmo sentindo que murcharam nossa festa,
que sejam lembradas as portas que Abril abriu.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Dia Mundial do Livro

Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo — não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos —, vamos regressar.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote.

imagem: Carlos Ruiz Zafón

domingo, 22 de abril de 2007

Achamento


De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muio chã e muito formosa. (...) Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.

Pero Vaz de Caminha, Carta do Achamento.
Foto: (minha) Coroa Vermelha, Bahia

Assim começou há 507 anos o país que também sou.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Algo está mal

A quinta-feira ao fim de tarde convidava à indolência do dever acabado de cumprir. O dia quente ainda, o ocaso ainda longe, e a sala de professores finalmente tranquila depois do toque de entrada. A conversa entabulou-se displicente na proporção certa do momento de merecida descontracção. Duas quarentinhas, eu incluída, e um professor de Educação Física cuja idade desconheço nem consigo avaliar com precisão mas que certamente se colocará para lá das três décadas de vida. Aos quarenta anos as conversas são como as adiposidades: concentram-se nas ancas e, portanto, cada uma se queixou à medida das mesmas. Ai isto, ai aquilo, mas tu assim, mas tu assado, e no ginásio isto e depois a conversa de sempre o que não gostaríamos de ter, coisa que me parece também típica desta faixa etária. Resignadas com a força da gravidade e o bolo de chocolate que se agarrou às coxas que nem lapa, o que queremos mesmo é não ter: não ter celulite, não ter pneus, não ter estas protuberâncias nas coxas que nos atiram para um tamanho de calças acima, não ter rugas. Não ter, portanto. O colega de Educação Física, não se sabe se apenas por cortesia, foi lentamente convencendo as presentes que enfim, exercício era fundamental e necessário para uma vida saudável, mas que certamente o corpinho dos vinte não era o dos trinta, o dos trinta igual ao dos quarenta, que as condições de vida mudam, as pessoas têm outro hábitos e por aí fora. Muito simpático e sensato, coisa rara nos dias que correm. Depois foi dando exemplos e dizendo que os corpos muito cuidados são por vezes resultado de uma vida diletante, em que o tempo abunda, outros recursos provavelmente também. As figuras que surgem nas capas de revista tomaram a conversa de assalto por instantes. Nesta fase, já tinha arrumado os livros junto à mala, preparava-me para sair e neste mesmo instante rematei que já tinha, por acaso, visto a personagem em causa na praia e que tinha uma cor amarelenta nojenta, cor de morto, pardacenta. Nisto entrou uma outra colega e sem mais perguntou Estás a falar da Ministra? Há vida para além da Ministra respondi e com esta aconcheguei os livros junto ao corpo, a mala pendurada no ombro e despedi-me do dia no local de trabalho. Na verdade, o que disse é exactamente o que quero dizer, há vida para além da ministra, há vida para além do canudo do Sócrates, e essa é muito mais importante e gratificante do que aqueles dois cromos que assolam os sonhos e pesadelos dos professores e portugueses. Quando assim não é, algo está mal, muito mal.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

terça-feira, 17 de abril de 2007

Pés que me levam

E de tronco deitada no colchão, as costas firmes contra o chão, as pernas erguidas em noventa graus e na extremidade algo que sempre tive como meu e que, de repente, desconheço como sempre me ter pertencido. Do meu pai serão os pés que sempre tive como meus. Semelhanças inequívocas. São meus, aqueles pés? São teus. Esses pés com que caminho são os teus. Os mesmos dedos compridos, o segundo levemente maior que o dedo grande, o peito do pé apenas levemente saliente, algo desprovido de carnes, a mesma textura e tom de pele, um osso que sobressai, a mesma covinha no início do tornozelo. Nos teus pés trilho o meu caminho, meu pai, um caminho nosso percorrido com a tua presença em mim.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Köszönöm

Acaso. Coincidência. Casualidade. Tranquilamente no quarto de hotel após um dia longo de deambulação por Budapeste, precedido de outros dois igualmente preenchidos, abandonei o guia de viagem de letras puídas pelas leituras sucessiva e fiquei entregue aos canais de televisão oferecidos: quatro nacionais, uns quantos alemães e o americano de sempre. No pequeno ecrã de televisão na cómoda ao fundo da cama resolvi entregar-me à aventura alquímica das línguas desconhecidas. Era noite já. Na fresta da janela do quarto não se vislumbrava réstia de luz. Daquele lado da Europa e no último mês do ano, o sol é preguiçoso e tímido.
O dia anterior anunciara o acontecimento quando, na Praça dos Heróis, os ensaios militares da cerimónia fúnebre tomavam conta de uma parte da praça, inquietando e restringindo o périplo dos turistas curiosos, sempre à espera de uma oportunidade para aquela foto panorâmica sem muita gente, o Monumento milenar com a coluna bem centrada, e a própria praça flanqueada por duas galerias de inspiração grega. Não seria naquele dia, por certo, mesmo que o céu azul e a luminosidade do zénite augurasse a fotografia perfeita. Outro dia talvez.
No próprio dia, a cidade engalanada com faixas negras e o perímetro da Catedral de Santo Estêvão delimitado por polícias para quem o inglês era aparentemente tão estranho e incompreensível como o magiar para os portugueses. E magiar, porque a sonoridade da palavra remete no inconsciente para a magia subjacente a uma cidade grandiosamente silenciosa e sedutora, a magia que irradiam os olhos azuis profundos em contraste com os cabelos ora muito escuros ora alvos da passagem do tempo de um povo afável, dono como poucos da sua cidade salpicada aqui e ali de bancos de jardim permitindo adivinhar que aquela cidade é de quem lá vive e se entretém num banco de jardim na languidez do quotidiano mesmo de costas viradas para o Danúbio. Ficaria, pois, adiada uma visita mais prolongada e tranquila à Catedral.
As cerimónias tomavam lugar num início de noite sem luar. Primeiro no estádio do Ferencváros. Depois o cortejo até à Catedral de Santo Estêvão, onde Puskás seria sepultado e isto não porque entendesse os discursos e a locução, mas porque as imagens não deixavam dúvidas. Mesmo experimentando infantilmente associar a imagem ao som, nada, à excepção de três palavras faziam sentido no labirinto de uma língua ininteligível: Köszönöm, Puskás Ferenc.
Zsoze Kósta descreveu magistralmente as dificuldades da língua magiar, avisara ser a única que o diabo respeita, e, ao afirmar que sem a mínima noção do aspecto da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a uma faca, deixou-me mais uma vez com a certeza que as mais preciosas impressões de viagem são as que vêm em livros prenhes com o toque mágico do escritor, não irmanam lado a lado, no mesmo escaparate de qualquer livraria, com as lombadas coloridas dos quatro cantos do mundo. Köszönöm, Zsoze Kósta! Obrigada, Chico Buarque!

foto: minha

domingo, 15 de abril de 2007

(...)
O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente? Livros, claro, foi para isso que me mandaram para o meio de vós. Quando isto sucedeu lutava com um, tinha outro pronto, já antigo, pronto há um ano e tal, para Outubro. Para dar tempo aos tradutores de o traduzirem e saírem mais ou menos na mesma altura que em Portugal. Esse livro tem a melhor prosa que fiz até hoje, parece recitado por um anjo. Aquele em que trabalhava é apenas um embrião, cerca de metade do primeiro esboço, falta-lhe quase tudo. A partir de agora, se calhar, falta-lhe tudo. Voltarei a ele? Uma coisa de cada vez, não é Henrique? Vamos a ver. De uma forma ou outra a gente luta sempre. Momentos de quase esperança, momentos de desânimo. Não: momentos de muito desânimo e momentos de desânimo maior, Como se me obrigassem a escolher entre o que não vale nada e o que vale ainda menos. Este mês deram-me um prémio literário. Estão sempre a dar-me prémios e claro que tenho prazer nisso, não sou mentiroso nem hipócrita. Toda a gente foi muito simpática.
e sem que eles sonhassem
(sonhava eu)
o cancro
ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não - sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.


António Lobo Antunes, "Crónica do Hospital"
“Visão”, 12 de Abril 2007

sexta-feira, 13 de abril de 2007

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Fruir

Para a Pitucha,
o contraponto
disto.

Neue Pinakothek, Munique
Março 2007
foto: minha, tirada com a devida autorização

Alunos que ficam

O meu pai recordou até ao fim dos seus dias uma das alunas que mais admirava pela escrita desde tenra idade. Com o tempo, o talento dessa aluna desvelou-se na esfera pública e, da aluna muito tímida, nasceu a escritora. Tanto ele como a minha mãe seguiram o percurso da sua aluna. Ambos recordavam na conversa um com o outro as composições sem mácula numa escrita escorreita e irrepreensível. Conta a minha mãe que o meu pai, tendo sido professor da Hélia, assim é chamada lá em casa, antes da minha mãe, teria ficado de tal forma encantado com a escrita da sua aluna, que não hesitara em partilhá-la com a minha mãe, ainda antes da sua vinda para Mafra. Assisti várias vezes a esta conversa, assunto recorrente, esse tal texto que nunca li mas que marcara para sempre a vida dos meus pais. Cresci com ele, de certa forma, mesmo sem nunca o ter lido. O meu pai nutria pela Hélia um carinho imenso, recíproco, reencontrou-a cá em Mafra numa ocasião solene e ficou embevecido com a ternura da sua sempre aluna, escritora de renome então, mas que regressava aos seus professores com a humildade de sempre, a simplicidade de sorriso infantil e genuíno que a caracteriza. Para o meu pai, os afectos sempre foram a linguagem única do coração, a razão pura da existência. Tinham, para ele, portanto, muito significado as manifestações de afecto e ternura. A minha mãe segue atenta os passos da Hélia, orgulhosa da sua aluna, o carinho sempre presente. Raramente se encontram, mas a Hélia não se esquece dos seus professores, manda cumprimentos e beijinhos. Perdoar-me-ão pois que tenha ficado tão sensibilizada com isto que a própria Hélia se encarregou de fazer chegar à minha querida mãe e que o divulgue aqui. Onde estiver, o meu querido pai sorrirá mais uma vez babado com a sua eterna aluna. Da minha querida mãe ouvi a voz embargada e adivinho-lhe os olhos humedecidos. Esta será a mais bela homenagem que os alunos podem fazer aos seus professores e a mais plena que uma filha pode testemunhar. Obrigada, Hélia.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

A vida por um canudo

O José era mais velho do que quase todos nós. Contavam-se pelos dedos, à data, os estudantes que teriam ultrapassado a idade média dos estudantes da Faculdade de Letras. Era casado, tinha um filho, uma vida muito mais complexa do que a dos restantes, com responsabilidades desconhecidas da maioria dos colegas e ousara fazer aquilo que nunca ninguém antes tinha feito na sua família: estudar. Fazia enormes e louváveis sacrifícios para que o seu sonho tomasse forma e, durante aqueles quatro anos de faculdade e dois de estágio imediatamente a seguir, nunca o vi de braços cruzados perante qualquer situação. Provinha da Beira Litoral, não que eu o reconheça como condição sine qua non para a voz corpulenta e estridente, mas avisava frequentemente, mais quando a vida não lhe corria a contento, que era da praia e com isto arrumava alguns dos assuntos. Depois da conclusão do curso, cada um seguiu a sua vida, como acontece geralmente. O José regressou à praia, ufano pelo seu feito, com todo o mérito, pois claro. Num encontro posterior relatou-me um episódio que recordo até hoje. Certo dia na aldeia lá da praia, chegou-lhe aos ouvidos que a dona da mercearia andava a duvidar de que ele tivesse concluído os estudos e a espalhar o boato pelas gentes ribeirinhas. O José tomou-se furioso de razões, compreensivelmente depois de tanto sacrifício. Certo dia, aparece na mercearia, para pedir explicações à mulher. Sim, afinal, como é que era? Então você anda a dizer que eu não acabei o curso? Algo me diz que nesta parte da contenda terá questionado se a mulher achava ele que não era doutor, e, sem mais demora, saca do certificado de habilitações e zás trás pás, esfregou-o na cara da caluniadora. Contou-me ele mesmo que lhe terá dito que ainda tinha outro em latim, uma referência directa ao canudo propriamente dito, aposto que até teria causado outra impressão na dona da mercearia com o selo e o lacre, mas que ela não percebia aquela língua. Além de alcoviteira era ignorante. A dona da mercearia da aldeia da praia ficou entupigaitada. O José tranquilo por ter reposto a verdade e recuperado a sua reputação de homem letrado com certificação. Não querem lá ver isto, duvidar de uma pessoa assim?
Vem isto a propósito do imbróglio em torno das habilitações de José Sócrates. Bem sei que o país não é Tibaldinho ou Carvalhal, mas também fica à beira-mar, que José Sócrates não vem da praia como o meu colega, agradeço que ninguém me esfregue com o certificado de habilitações na cara, muito menos que me arremesse com o selo do diploma, se não for doutor, engenheiro, arquitecto ninguém levará a mal, afinal nem todos somos como a dona da mercearia da aldeia da praia, mas uma coisa tenho como certa, mentir é muito feio, jamais se confiará em quem nos mente uma vez que seja, e quem não deve não teme, portanto, caro José Sócrates, em que é que ficamos?

Postal ilustrado

Neuschwanstein, Abril 2007
foto: minha

domingo, 8 de abril de 2007

Tempo perpetuado

Na Páscoa da minha infância na Beira Alta, algures numa encosta virada para o Dão, mora ainda a memória daquele Domingo de Páscoa. Cedo seria por certo, a idade permanece uma incógnita. Havia sol, as indumentárias deixavam inequívoca a solenidade aparente do momento, um ritual desconhecido que se adivinhava. Encontro-me numa casa cheia de adultos numa aldeia esquecida perto de Viseu, na sala austera perante a mesa posta com rigor carregada de doces, bolos, alguma fruta, a toalha alva, imaginada agora de linho. Esperava-se com algum alvoroço e, enquanto se esperava, a mesa permanecia inviolável aos olhos dos presentes, alvo da minha cobiça contida, porém. Assim permaneceu durante anos. A imagem da mesa, a espera interminável, o desejo de comiscar um ou outro bolo, de deitar a mão a um biscoito ali bem perto, o mistério da inviolabilidade da mesa. Mais tarde aparece o padre, dá o senhor a beijar, beijei-o também eu, o senhor, e depois foi-se, a mesa intocável e inatingível, algo que a minha percepção de criança não conseguiu nunca digerir. De seguida, uma comezaina ali perto num barracão que albergava muita gente. O padre, esquecido do pecado da gula, derrubava-se sem pudor sobre o opíparo almoço de Páscoa. Terá havido leite-creme e pão-de-ló com queijo da Serra, as estórias são um cozinhado ao qual se vão adicionando ingredientes na busca da perfeição, mas a mesa ficará para sempre intacta e alva, os bolos coloridos e decorados, as laranjas expectantes e o meu pai sempre comigo nesse tempo perpetuado pela memória.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Ostern*

in Gerhard Haderer, Think positiv - Die besten Cartoons aus 10 Jahren, Ueberreuter.

*Páscoa

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Welcome to Portugal

Teremos aterrado em Lisboa uns quarenta minutos depois da hora prevista em virtude do atraso na partida em Munique. De resto, a partida de Lisboa foi também uma boa meia hora além do horário previsto. Um problema com um passageiro impediu que saíssemos a horas. Em Munique apenas fomos informados do atraso sem outras justificações. Resignados esperámos de banco em banco, uma volta pelas lojas, até que finalmente embarcámos.
No tempo previsto de voo regressámos a Lisboa. Seguiram-se os trâmites de saída e, mais de uma hora depois de desespero junto ao tapete de recolha de bagagens, as primeiras malas começaram finalmente a aparecer. Aos bochechos, pois claro. Mais uma hora talvez até que a última rodasse no tapete e que este se recusasse a continuar. De todas as minhas alunas, apenas uma não tinha a mala. Reparei que também vários outros passageiros estavam sem a bagagem. Esperámos algum tempo na esperança que o tapete rodasse de novo, mas nada, rigorosamente nada. O ecrã, que antes alardeava o número e proveniência do voo, tinha-se apagado sem mais. Adiante-se que não se avistava nada nem ninguém que pudesse informar se ainda iriam sair mais malas.
Dirigi-me ao balcão de perdidos e achados para fazer a reclamação e tirei um ticket. A fila imensa de viajantes irritados não augurava nada de bom. Número 188, assim dizia o dito ticket branco, muito animador, se tivermos em conta que o 172 estava a ser chamado no momento e que celeridade é conceito ausente naquelas bandas. Olhei em volta e avistei uma assistente de terra da transportadora lusa. Abordei-a, tal como outros recém-chegados, um de língua inglesa mostrava-se irritado, os alemães, que tinham vindo no mesmo voo, idem. A dita profissional disse tranquilamente que era assim, que às vezes as malas demoravam até duas horas a chegar, como se fosse normal, natural e nosso dever esperar sem mais, acrescentou que não sabia se as malas já tinham chegado todas, para irmos vendo e, espante-se, afirmou para rematar que não havia ninguém mais naquela zona do aeroporto para dar informações, portanto, nada como esperar na fila, quer tivesse de se fazer reclamação ou não. Foi-se na sua pose altiva, o cabelo empinocado, a cara transbordando de base, os saltos marcando o ritmo, zigzagueando por entre os passageiros exasperados e deixou cada um à mercê de si próprio. Belíssima impressão para quem chega a Lisboa ou a Portugal.
A minha aluna começava a ficar cada vez mais nervosa, perfeitamente normal nas condições e naquela idade, tentei acalmá-la e enquanto eu fiquei na fila, ela foi ao tapete para ver se, por um acaso e artes mágicas, a mala apareceria. Passado mais um tempo, reparei no passageiro alemão que acorria para o lado esquerdo. Segui-lhe os passos, e deparei-me com um monte de malas encostadas a uma parede. Procurei em vão, disse à minha aluna para lá ir, quando regressou. Nada. Mais um tempo na fila, mais umas quantas idas ao tapete e, nem sei quanto tempo depois, a garota aparece-me sorridente e aliviada com a mala na mão. Rumámos dali para fora.
Se este é o momento indicado no contexto actual para se construir outro aeroporto tenho muitas dúvidas, se a Ota deve ser o local apropriado duvido bastante, tendo em conta o que tem sido dito e escrito. De uma coisa não me restam quaisquer dúvidas: enquanto não houver respeito pelos passageiros, o profissionalismo, competência e eficiência dignos de um país que se quer civilizado, não há Ota que nos valha. Fiquem mesmo na Portela, sempre têm a desculpa que o aeroporto está a rebentar pelas costuras.