Estão a ver aquela banha da cobra contemporânea de que temos todos de ser felizes, ó tão felizes, levar um vida saudável, largarmo-nos em caminhadas, comer fruta e vegetais, espantar o stress, levantar os rabos dos sofás e mexê-los, gastar menos e ter uma vida toda ela sorrisos, ursinhos com flores e citações muito fofinhas e dar graças aos deuses pelas ninharias do dia-a-dia? Pois. Excluindo espantar o stress não me apetece nada. Nada de nada. Apetece-me o sofá e um chá quente, biscoitos se biscoitos me apetecer. Apetece-me não ir, não andar, não fazer. Apetece-me não. Posso?
Páginas
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Pão-por-Deus
Lá fora há um dia de sol que me cumprimenta pela janela da sala. Melros que se penduram na vedação ou rasam a relva depenicando aqui e ali. A gata deitada a meus pés no tapete e a quietude que me retempera dos dias de alma gelada, acontecem esses dias, têm acontecido muito dias desses. E os cães ladram. Um ladrar díspar subitamente insistente. Vem aí gente, gente desconhecida. A gata inquieta-se como se cão fosse. Vem gente. Eu sei que eles hão-de vir. A campainha estridente. Vêm aí. Apuro o ouvido enquanto caminho para a porta. São eles. Em escadinha e de rostos sorridentes aparecem-me ao portão e olham com curiosidade quem os chama da porta de casa Venham cá! E vêm. Abrem os sacos de pano para onde vou depositando rebuçados, chupa-chupas, moedas de chocolate e línguas de gato, irmãmente distribuídos para cada um dos sacos e atentamente supervisionado pelos olhinhos brilhantes e bochechas rosadas. E lá vão arrastando os pés, chilreando como só eles e verificando a safra Já tenho muitas coisas ou Obrigada ou soltando verbalizações impensadas de que só as crianças são capazes Esta casa é muito engraçada, Finalmente alguém que nos abre a porta e um lamento Senhora, seja boazinha para nós que este é o último ano. Regressam os que no ano anterior vinham com as mães e tias, agora em bandos chilreantes, outros que assumiram o papel dos progenitores e orientam os mais pequenos na tradição. Alguns mais afoitos dão-me um beijinho e relembro-os Para o ano há mais! Tradição cumprida. Para o ano há mais. Lá fora há um dia de sol que me cumprimentou pela janela da sala. Cá dentro faz sol.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Estados de espírito dominicais
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
It´s now or never
Eu sei que é sexta-feira, o dia está bonito e o povo prepara-se para desabar no sofá ou dar passeios tranquilos no fim de semana mas este país não me dá tréguas. Enquanto esses malucos milionários que ousadamente ganham acima de 1000 euros vão ser extirpados para todo o sempre dos seus subsídios de férias e de Natal, o povo entendeu muito bem a mensagem de ontem, há gente a ganhar por mês o que daria para alguns funcionários. Atentemos nestes chorudos ordenados: Fátima Campos Ferreira, 10 mil euros mensais, Catarina Furtado, 30 mil euros, Fernando Mendes, 20 mil euros, José Carlos Malato, 20 mil euros, Maria Elisa 7 mil euros, Jorge Gabriel 18 mil euros, Sónia Araújo, 14 mil euros, João Baião, 15 mil euros, Tânia Ribas de Oliveira, 10 mil euros ou Sílvia Alberto, 15 mil euros. Acresce dizer que estes e outros senhores da estação pública não sofreram a redução do ordenado quando, em Janeiro, esse bicho que dá pelo nome de filósofo grego se lembrou de dar uma ripada nos ordenados. Era esperado que antes de cortar desalmadamente, o Governo tivesse considerado estes casos antes. Diz que vai ser agora. Veremos.
Também no Delito de Opinião.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Entregar neste blogue sff
Perdi a minha vontade de escrever-me e tenho saudades dos textos longos de palavras desenhadas e sentidas. Agora há raiva. Há fúria. Há ressentimento. Um muro de incertezas entre mim e a vida e eu que me perdi pelo caminho.
domingo, 23 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Legalidade e ética
O Primeiro Ministro Passos Coelho, esse mesmo que vai extirpar alguns portugueses de um vida condigna por uns anos, atribuiu subsídio de alojamento a nove governantes por não terem “residência permanente na cidade de Lisboa ou numa área circundante de 100 km. Acontece que Miguel Macedo, segundo o que se diz aqui e aqui, tem casa própria em Algés e é nela que habita durante a semana. Levantada a polémica a assessoria do Ministro diz que a atribuição do subsídio é legal. Nada de novo, isso sabemos nós. O que sabemos também é que legal não significa eticamente correcto e que, nos tempos que correm e em qualquer outros, o Ministro está a fazer o que muitos outros fizeram antes dele e que contribuiu para este estado misérável de coisas: aproveitar-se indecentemente do Estado, de todos nós, do nosso dinheiro. O que se exige numa altura destas é que Passos Coelho faça o seu trabalho, respeitando tudo e todos e acabe com isto. Já.
Nós também estamos muito chateados, Sr. Ministro.
Também no Delito de Opinião
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (3)
Dia inteiro na escola. Aulas das oito e meia à uma e meia. Outro trabalho em mãos das três às seis e meia e três horas e meia perdidas num ficheiro informático que fiz o favor de não gravar não me deixaram na mais optimista das criaturas. Espero que a noite de sono me reponha os níveis desejados de optimismo. Só assim conseguirei.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Conclusões
Desde o tempo do cavaquismo que não andava tão politicamente furiosa.
They laugh
Estantes e gavetas:
ai portugal portugal,
com mundo dentro
domingo, 16 de outubro de 2011
Os professores
"O mundo não nasceu
connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os
sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente;
depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por
fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o
suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os
professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu.
Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da
nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.
O material que é trabalhado pelos
professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com
suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos
assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os
professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo,
com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que
aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que
acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse
material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos
professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.
Basta um esforço mínimo da
memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto
devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes
muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é
transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores,
os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de
trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual
ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram
há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais
aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se.
Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma
palavra que tendemos a esquecer.
Um ataque contra os professores é
sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os
professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar
forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência,
mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que
todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da
sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo
que ainda respire, já morreu.
Envergonhem-se aqueles que dizem
ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena
lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para
ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue
atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o
mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o
entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas
teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo,
sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que
existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar.
Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão
que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que
disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não
possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.
Recusar a educação é recusar o
desenvolvimento.
Se nos conseguirem convencer a
desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não
será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão
fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a
capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos
pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a
lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os
professores. Tenho esperança."
José Luís Peixoto, "Visão", 13/10/2011
sábado, 15 de outubro de 2011
Adeus, sapatos novos. Au Revoir, casacos e camisolas. Auf Wiedersehen, colares e anéis!
O meu boicote pessoal e privado. Estão a ver aquelas coisitas que podíamos comprar, de que não precisamos mas que fazem uma mulher feliz, tipo roupa e sapatos e que são capazes de ajudar numa ínfima parte a que este país não morra? É que a partir de agora já eram. O meu guito não levam. Tenho roupa e sapatos que chegam para uns tempos. Amor com amor se paga. Adeus.
Uns e os outros
Se és funcionário público, és um merdoso manga-de-alpaca, proxeneta de todos os trabalhadores honestos e cumpridores deste país. Não fazes nada, faltas sempre que podes, recorres a atestados médicos falsos, tens regalias sem limites, vais passar férias para as Caraíbas com o dinheiro do vizinho, tens casas, carros, telemóveis, ganhas acima da média e, mau, funcionário mau e ranhoso, filho da puta mor, culpado de todos os males deste país, tens o que mereces agora. Se te reduzem o salário é porque o mereces, se te roubam o subsídio de férias e subsídio de natal por tempo que se prevê indefinido, é bem feito. Querias o quê, ó chulo de merda? Não interessa que tenhas filhos ou compromissos, sim quem te mandou, ó presunçoso projecto de gente que ainda tem o topete e a ousadia de ter vida como os outros? Reduz-te à tua insignificância de capacho onde a elite produtora deste país limpa os cumpridores pés.
Se trabalhas para o privado, és um lindo cumpridor, chegas a horas, um modelo de pontualidade e eficiência, não vais para o Facebook e blogues em tempo de trabalho, arfas e abanas o rabo à passagem do chefe, trabalhas com afinco e empenho, és eficiente e produtivo, ajudas e participas na construção deste país, não vives acima das tuas possibilidades, carregas contigo um velho telemóvel dos anos 90, e és tu, meu lindo menino, coisinha linda da mãe, ó minha fofurinha eficaz, séria e competente, que estás a levar o país para a frente e a acarretar com essa massa indigna e rasteira de funcionários públicos, os tais que merecem tudo o que têm e ainda mais.
E no meio destes dois não há mais nada. É fácil conclui-lo pelas caixas de comentários deste blogue. Lamentavelmente.
Também no Delito de Opinião.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Post sem eufemismos - parte 2
Puta que os pariu a todos.
Remate de uma noite de merda
Comer dois scones com manteiga e doce para afogar as mágoas e ir para a cama para não dizer mais disparates.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Post sem eufemismos
Ai que estou tão fodida.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Champions League
terça-feira, 4 de outubro de 2011
'Coisas' que se encontram quando se vai fazer a cama
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (2)
São vinte e duas e cinquenta e seis e acabei agora o meu dia de trabalho.
Estantes e gavetas:
muro das lamentações,
ossos do ofício
domingo, 2 de outubro de 2011
Lixo Extraordinário
sábado, 1 de outubro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Adjectivos, depressa!
Se alguém estiver em posse de adjectivos fortes, sem eufemismos e bem expressivos, é favor entregá-los ao Ministro Nuno Crato e a este Governo. Digam que vão da minha parte. E avisem-nos que é feio, muito feio, criar expectativas e a quarenta e oito horas do Dia do Diploma falhar redondamente ao compromisso. É muito tranquilizante saber que o Estado não é uma pessoa de bem e que está parco em valores e palavra. E por favor, poupem-me ao discurso de que o país não pode, blá blá blá, que estamos pobrezinhos, que sim, a economia, os mercados, e o diabo a sete e de uma vez por todas levantem os rabos do encosto cómodo que não lhes permite vislumbrar os dois milhões de pobres que existem neste país. Quinhentos euros podem fazer a diferença. Tenho a certeza de que fariam.
Também no Delito de Opinião
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
domingo, 25 de setembro de 2011
Apetites
Nunca me tinha acontecido.
Aconteceu-me um destes dias enquanto andava displicente de cabeça no ar,
admirando salas e pormenores como se fosse a vez primeira que punha pé ali
dentro e me aventurava além das fachadas imponentes, as mesmas que me
acompanham há décadas, cobertas de neblina, tão góticas e tão misteriosas e adentrava torreões e claustros prenhes de santos monumentais em esgares místicos. Assim,
de repente, vindo do nada, e sei que foi enquanto andava mesmo de cabeça no ar,
a vertigem breve da admiração de sempre Mas
como? Como é que aqueles gajos naquela altura fizeram isto? pensamento recorrente
sempre que me encontro com obras além do seu tempo. E terá sido aí que me
apeteceu um livro. Apeteceu-me um livro como apetece uma peça de fruta lustrosa
e voluptuosa, um naco de bolo de chocolate húmido, um copo de vinho tinto degustado
à lareira em dias de invernia, e apeteceu-me tanto. Devorar palavras, galgar
páginas, deglutir vírgulas e pontos e sentar-me depois tranquila e digerir o prazer de
palavras e mundos. Era um vez uma vez um rei que fez promessa de levantar um
convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez.
sábado, 24 de setembro de 2011
Book fresheners
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Missão cumprida
Primeira semana de aulas concluída.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
O que farei com estes 30 cêntimos?
Ainda a saga dos manuais escolares: Para as famílias do escalão 1 do abono de família, a comparticipação sobe entre 30 e 50 cêntimos no 1.º ciclo; 1,5 euros no 2.ºciclo; dois euros no 3.º ciclo e 70 cêntimos no secundário. Fiquei atónita com tamanha generosidade. Vejam lá, agora que estão cheios de dinheiro, não vão fazer férias para as Caraíbas.
também no Delito de Opinião
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Um queixume por dia nem sabe o bem que lhe fazia (1)
O ecrã do meu computador pifou. Andava a fazer uns barulhinhos, assim uma patanisca fininha, e agora à tarde, enquanto deixei o computador a fazer actualizações, entregou-se sem piedade desta pobre desvalida ao mundo das trevas. Está mais negro que noite lua nova. Malvado. Traidor. Logo agora.
domingo, 18 de setembro de 2011
Straight from the heart
Era rebelde. Quando queria era doce e educado mas quando
estava virado do avesso com uma vida que nem sempre lhe sorria tinha um feitio
difícil e irascível que me levou a pô-lo na rua e a mandar chamar a mãe. No ano
passado não conseguiu entrar na faculdade. Mandou-me uma mensagem a dar conta
do acontecimento. Estava triste e cabisbaixo. Eu sabia que ter ficado para trás
em relação aos colegas lhe teria deixado marcas, é orgulhoso e não gosta de
perder. Este ano passei a vê-lo com frequência na escola. Preparava-se para
melhorar as notas e apesar de nem sempre ter aproveitado o que a escola tinha
para lhe oferecer, inquieto e revoltado com a vida que lhe passara uma
rasteira, estava agora mais adulto e quase parecia apaziguado com as feridas.
Nunca falámos sobre elas. Ele sabia que eu sabia, mas com o respeito que me
merecem todos os que preferem devotar-se ao silêncio em momentos lunares, havia
um entendimento sem palavras, assim como só os homens sabem fazer. E mandou-me
uma mensagem há pouco. Respeitoso e feliz, cumpria o que me havia prometido o
ano passado. Tinha entrado desta vez. E fiquei feliz. Que mais pode um
professor desejar?
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Movimento Verde
Eis que se abre uma excepção neste blogue cuja dona tem como cor preferida o vermelho. Falo do Verde Movimento. Ora espreitem aqui e já agora o perfil no Facebook.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Vida de professor
Desde que regresso ao trabalho e ainda mesmo antes das aulas começarem, passo o dia a fazer 'coisas', a preencher formulários, escrever papéis, avaliar isto aquilo e aqueloutro, que obsessão, meus deuses, esta de avaliar até o ar que respiramos e que me sufoca, cumprir desígnios sabe-se lá de quem e para quê. Em suma passo o dia a fazer merdas, que me desculpem os mais sensíveis e os que acham que tais palavras não devem sair da boca de um professor, mas assim é. Merdas que na prática não servem para nada se não para acumular resmas de papéis inócuos e que me roubam tempo e espaço para o que gosto de fazer e para o que devo fazer. Assim não vamos longe. Enquanto não admitirem isso passaremos o dia a fazer merdas.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Devaneios terapêuticos
Enquanto o povo estrebucha com os cortes de tudo e mais alguma coisa, exactamente no dia em que se soube um filho vale a generosa quantia de uma dúzia de euros quando chegar a altura de nos levarem o subsídio de Natal, mantenho-me estupidamente a tentar pensar noutras coisas. Se assim não for não chegarei sã ao Natal e não tenho dinheiro para gastar com maleitas da alma que eu própria poderei evitar se inverter a tendência suicida de ter pensamentos catastrofistas e derrotistas e outras coisas mais em -istas. Neste meu devaneio terapêutico arredo furiosamente a hipótese de uma ilha tropical, na verdade nunca foi possibilidade mas apetece-me dizer isto, e entretenho-me a pensar na tentação imensa desta rentrée – odeio esta palavra- literária. Este mês de Setembro faz-me ter vontade de um Outono aconchegado, refastelada no sofá, enquanto não tenho de o penhorar para pagar a luz e a água, e rodeada das novidades. Ah, as novidades! Perdoem-me esta exclamação inflamada mas eu sou rapariga que gosta de novidades, desde que não seja o Vítor Gaspar a dar-mas evidentemente. E o que vem aí é muito tentador. Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe que se converteu às maiúsculas, logo agora que já me tinha habituado às minúsculas e José Luís Peixoto andarão por aí a espalhar a palavra escrita aos leitores com títulos muito sugestivos, Quando o Diabo Reza, O Filho de Mil Homens e Abraço respectivamente. Sairá ainda Comissão das Lágrimas de António Lobo Antunes e Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo que me deixou curiosa. Isto para não falar de mais um livro de contos de José Eduardo Agualusa. Nos escaparates dos livreiros, sim, também gosto de acalentar esta ideia peregrina de que há livrarias à antiga com estantes de madeira até ao tecto e silêncios apenas entrecortados com o restolhar dos casacos e o virar das páginas, brilharão as capas novinhas em folha ainda perfumadas de tinta. Haverá melhor? Dream on.
Imagem: Quint Buchholz
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Como os gatos
Entrou em casa com o ar aflito de
sempre, os olhos de misericórdia que nos levaram à certa quando já tínhamos
decidido que duas gatas era lotação esgotada nesta casa, miou com a voz de
sempre, de menina desamparada à procura de protecção, e depois de ter bebido
água e comido um biscoito, decidiu que hoje havia de mudar de poiso. Que não se
pensasse que ficaria para sempre confinada ao espaço de quase reclusão que
escolheu quando a Julieta aqui chegou e começou a ter focinho empinado. Durante
a manhã já havia prometido e em vez do canto reservado do olhar de todos, um
verdadeiro abrigo contra intrusos e outros chatos, optou pelo sofá. Agora mesmo
está ali sentada num cadeirão encostada à gata mãe que apesar de muito refilona
tem paciência. Há sítios mais cómodos, mas nenhum lhe pareceu tão apetecível
como aquele, encostada à mãe, negociando mais um pedaço da almofada laranja, conquistando território. E é isso que gosto nos gatos. A inconstância após longos períodos de hábitos instalados, a mudança
inesperada, exactamente na medida dos seus humores repentinos, Agora já não quero isto, uma existência
verdadeiramente livre dos constrangimentos do social, Não, não vou ronronar, dos embaraços das ofensas
bacocas Desculpa lá não me ter sentado ao
teu lado, Desculpa lá hoje
apetecer-me outra coisa. Esta forma tão própria de ser, de não querer saber e afirmar-se em tudo. A inveja de também eu sentada no sofá poder entregar-me ao pecado sem culpa de ser apenas eu. Como os
gatos.
| Lolita e Guidinha |
domingo, 4 de setembro de 2011
Chegar
Chegar não é meter a chave na fechadura, largar as malas à porta de casa, abri-las e esventrá-las, desabar-se em trabalhos múltiplos de máquinas de roupa imensa para lavar e arrumar as tralhas, souvenirs e traquitanas, sacudir a areia ainda entranhada na bagagem, se o destino tiver sido de praia, ou arejar o perfume do protector solar agarrado em abraço às mais ínfimas peças de roupa, se houve exposição solar.
Chegar não é só abrir as janelas de par em par para arejar os odores acumulados. Chegar não é descarregar as fotografias para o computador, mostrá-las aos amigos, enviar uma ou outra por e-mail. Chegar não é apenas contar as peripécias da estadia órfã de trabalho e trabalhos, sem horários a cumprir, maldizer o guia de viagem, se guia de viagem houve, blasfemar contra a carestia de vida a sul ou a norte, injuriar a água porque estava muito fria ou elogiá-la porque estava muito quente, insultar o mar porque estava muito bravo ou muito manso, maltratar a nortada que leva tudo pelos ares. Chegar não é a nostalgia do que se deixou, a depressão pós-férias ou pré-trabalho, mistérios incompreensíveis da pressa de catalogar estados de alma cinzentos.
Chegar é o doce sentimento de entrar por uma vida que nos espera vindos de uma que não se esgotou nos momentos efémeros de prazer e que reviverá, por certo, em palavras escritas, impressões trocadas com cheiro a maresia e a clorofila. Chegar é abrir portadas e janelas e cumprimentar os vizinhos, fazer festas ao cão Cãozinho lindo, tiveste saudades minhas? Abafar as gatas com festas Quem é a gatinha da dona, quem é? E depois calçar os chinelos e sair pela porta de trás. Descalçá-los de novo e assentar a planta dos pés sobre a relva, dar uma olhadela na passiflora Como cresceu! Seguir a ronda pelo maçaroco Dará mais flor este ano? E rumar à gardénia, espera-se ainda viçosa e perfumada. E chegar é espreitar o mar lá ao fundo, uma tarja brilhante, uma língua prateada ainda mais flamejante em tempos de Verão final, partilhar um gin tónico na quietude do dia salpicado de palavras e silêncios. Reencontrar os livros, pôr em dia leituras ocasionais e deambular sem destino fixo entre lombadas expectantes. Chegar é retomar a vida que se deixou antes de partir e transformá-la numa vida nova, uma sucessão de chegadas e partidas, um movimento pendular entre o ir e o vir, chegar e partir. Chegar é pertencer.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Tu e eu
Sentada no sofá, no mesmo sofá em que soube que jamais serias o mesmo e o corpo te havia traído, encostei a cabeça. Naquele dia também o terei feito incrédula, disparando perguntas que não me sabiam responder. Hoje não havia perguntas. Era uma sexta-feira de Abril, o dia estava cinzento, eu não tinha aulas e deixei a alma e o corpo resvalar na indolência de nada fazer. Um luxo. Um luxo verdadeiro na ligeireza de mais um dia tranquilo. Ligo a televisão.
E encostei a cabeça. Uma lágrima estúpida. Que parvoíce, penso. Que disparate tão grande. A chorar para a televisão. Sacudo a lágrima. Vou até à porta como se enxotasse a dor e varresse porta fora a saudade súbita que me entrou de repente, tão inesperada e imprevisível. Que estúpida, penso, a chorar para a televisão. Sento-me de novo. Talvez a ida breve à porta para respirar o ar cinzento e húmido me tivesse chamado à razão. Espantado a dor, apagado por instantes esta memória que me apanha sempre de surpresa. Esperança vã. Sento-me e choro. Soluços. O coração em solavancos. Atento na transmissão televisiva. A noiva sobe agora a igreja com o pai e aquele pai e aquela noiva, sou eu e tu, Papá. Sou eu e tu que caminhamos lado a lado, és tu que sorris em volta, é o teu braço quente que sinto ainda, a tua presença tão forte, meu querido pai, o teu sorriso tão feliz. Aquele pai e aquela noiva, sou eu e tu, Papá. Serei sempre eu e tu. Seremos sempre nós.
Ao meu pai. No dia em que o sofá ficou para sempre vazio.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (6)
E no último dia o sol brilhava sobre o Moscovo, estava aberto e não havia fila. Uma última manhã e uma última oportunidade. Diz Kaminer mais uma vez que só os estrangeiros lá vão. Os holandeses também dizem o mesmo dos coffee shops e outros povos dirão o mesmo dos que lhes provoca embaraço ou desconforto. À minha frente estava a oportunidade de ver o morto mais famoso do planeta, aquele que é levado para que lhe façam a manutenção, pobre Wladimir, nada como tinha desejado, e que também já foi objecto de controvérsia. A última vez que vi um morto assim venerado, mas por outras razões milagreiras, foi a Santa Maria Adelaide, uma vez que a minha avó paterna se cobriu de fervores religiosos, mas não me consta que lhe façam manutenção, pobre mulher. Seria rápido, estar na fila para ver mortos nunca foi meu lema e mataria -verbo curioso, logo aqui - de uma vez alguma curiosidade mórbida. Sim, é verdade. Malas, carteiras, máquinas fotográficas e telemóveis extirpados dos visitantes e eis que me vou aproximando do lado de dentro dos muros do Kremlin, lá onde via desfilar as paradas a preto e branco encimadas por Brejnev e outros camaradas. A memória colectiva de que sou feita. Instantâneos da História. O mausoléu é um monstro de basalto negro no interior e que tem a capacidade de nos fazer sentir pequenos, mínimos, assim que descemos as escadas. E ei-lo. Iluminado no centro da sala, o boneco de cera mais famoso do mundo: Vladimir Ilitch Lenin. Alguém achará que ali ainda está o homem? Saio do mausoléu e entretenho-me a ver as pedras tumulares dos falecidos, um esforço sobre humano, este de decifrar o cirílico, um enigma que ao longo dos dias se foi desvendando e que alimenta a aura de uma cidade que não se deixa possuir, orgulhosa e imponente.
E está sol. A Catedral de São Basílio em contra luz, é quase meio-dia, e os turistas juntam-se em busca do ângulo certo, é sempre assim no mundo. Saio pela mesmíssima Porta por onde terei entrado há uns dias atrás. Há bancas de matrioskas e chapéus de pêlo. Experimento um vermelho, giro e exótico, e penso, Mas onde é que eu vou com isto? O rapaz que os vende arranha inglês, pergunta-me a nacionalidade e solta umas palavras em português. Igual, afinal, igual a todos os comerciantes do mundo.
E está sol. A Catedral de São Basílio em contra luz, é quase meio-dia, e os turistas juntam-se em busca do ângulo certo, é sempre assim no mundo. Saio pela mesmíssima Porta por onde terei entrado há uns dias atrás. Há bancas de matrioskas e chapéus de pêlo. Experimento um vermelho, giro e exótico, e penso, Mas onde é que eu vou com isto? O rapaz que os vende arranha inglês, pergunta-me a nacionalidade e solta umas palavras em português. Igual, afinal, igual a todos os comerciantes do mundo.
E digo adeus a Moscovo. Irei voltar?
fotografia minha
Estantes e gavetas:
com mundo dentro,
vêm aí os russos
sábado, 27 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (5)
Foi acaso puro o que naquele dia de Dezembro gélido me levou a estar frente a frente com os frescos na Karlskirche em Viena. A igreja estava a ser restaurada e havia andaimes. Podia chegar-se bem perto, ver com outra acuidade. Esta subida aos céus, entre anjos e a mãe de Cristo, deixou-me inquieta. Havia algo de sensual naquelas imagens que se queriam bentas, talvez por serem gorduchas, a antítese da imagem quase assexuada que fazem passar de expressões sempre piedosas e infelizes. Em Moscovo não precisamos de subir aos céus para nos deixarmos surpreender. Ao contrário de muitos outros sítios, em Moscovo há que descer às profundezas e adentrar as entranhas da cidade. Lá onde o povo segue as suas vidinhas, iguais a todos as outras, longe da luz e do sol, onde todos podem usufruir da arte e do sublime. E contudo tão assombrosamente belo. O Metro, pois claro. O Metro de Moscovo é um daqueles lugares que devíamos ver uma vez na vida. Mandado construir por Stalin, foi inaugurado em 1935 e ultrapassa tudo o que por aqui se poderá dizer. Há lustres, painéis de azulejos e vitrais, abóbadas trabalhadas, tectos com medalhões, estátuas. Já estive em museus mais feios e com mais fama. E eles lá passam, os russos, ensimesmados com as suas interrogações. Tê-las-ão? Lá andam nas suas vidinhas, passando para cá e para lá com um destino definido. Indiferentes. Nem um olhar sequer. Aqui é muito fácil detectar os estrangeiros. Viram as cabeças para o ar, fazem voltas de trezentos e sessenta graus, e deixam cair o queixo literalmente, uns convictamente de máquina fotográfica em punho, outros com elas esquecida, como um pedaço inútil que lhes cai do braço. Impossível abarcar tanta sumptuosidade. Quanta beleza. Mas não para os moscovitas. Não querem saber da Kievskaya. Caminham sem um olhar na Mayakoskaya e a mantêm as carrancas inexpressivas na Novoslobodsakaya. Abrem apenas uma excepção para os cães da Ploshchad Revolyutsii. Dizem que dá sorte fazer uma festa no focinho dos cães de bronze que acompanham as estátuas do povo soviético ali retratado. Eles cumprem, quem diria, e os focinhos estão reluzentes. Por via das dúvidas também eu fui lá dar uma afagadela, gosto de cães, até dos de bronze, isto na impossibilidade de me ter alongado horas perdidas de estação em estação, tanta harmonia, quase apetece dançar uma valsa na Komsomolskaya. Belo. Belo. Belo. Tudo ao nosso alcance, apenas com um simples bilhete de metro, tão barato e tão para todos. Muito bem. Estes russos não param de me surpreender.
fotografia minha
Estantes e gavetas:
com mundo dentro,
vêm aí os russos
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (4)
Diz Wladimir Kaminer no seu último livro Meine russischen Nachbarn, ‘Os meus vizinhos russos’, infelizmente não traduzido para Português, que eles, os moscovitas, podem ser simpáticos, educados e inteligentes. Só não podem sê-lo todos os dias. Naquele dia não era o dia. Talvez no dia seguinte ou no anterior. Aquele não. Quando me dirigi ao balcão que indicava em parangonas, também em Inglês Turismo da Cidade de Moscovo, a russa do lado de lá, loura e de olhos cristalinos, espetou-mos como uma farpa. Arranhando um inglês bárbaro, mostrou-se indisponível assim que lhe estendi o mapa para que me indicasse algo. Não podia, agora não. Irritada perguntei-lhe se não era o turismo da cidade de Moscovo. Que sim, blá blá blá. Que eu fosse à recepção. Enquanto isto e depois dos episódios anteriores arranquei-lhe o mapa das mãos, furiosa quase irada, e fui à minha vida assustada. Estaria a ficar como eles do convívio? Nem eu me reconhecia. Kaminer também diz que queixar-se de Moscovo tem uma grande tradição e que entretanto se tornou numa evidência. Ele lá saberá. O escritor entretanto de nacionalidade alemã mas russo de nascimento, foi para Berlim no início dos anos 90 e lá ficou a contar as suas histórias na cidade alemã. Sabe bem do que fala.
A vida moscovita também é feita de prazeres. Passear no GUM é um prazer. Aos fins-de-semana, os moscovitas, neste aspecto tão parecidinhos com uma certa camada de lisboetas, rumam ao Centro Comercial. Não que não o frequentem durante a semana mas ao fim-de-semana é muito concorrido. O GUM não é apenas um centro comercial, dir-me-ão. Certo. Centro comercial fica numa outra praça ali bem perto num espaço subterrâneo e tem detector de metais à porta. Que encorajador. Construído nos anos vinte do século passado, o GUM é deslumbrante e luminoso. Faz lembrar uma estação de comboios com os tectos abobados e translúcidos. Surpreendente que num país que se queria comunista houvesse a preocupação deste fausto, sendo o mesmo válido para o Metro. O povo merecia o melhor. Pena que o ideal se tivesse desvanecido com o tempo. Os moscovitas aproveitam o GUM para várias coisas, fazer compras é uma delas, assim haja rublos que aguentem, a outra tirar fotografias ao lado de um carro de alta cilindrada ou lá o que era que estava em exposição lá dentro, coisa mais disparatada, e a outra deixar-se fotografar em poses várias, de preferência nas pontes que unem os vários corredores quase em mezanine. Muitos levam fotógrafo, par, ramos de flores e desabrocham em caras e carinhas, sorrisos não, as mulheres exibem as suas poses mais sensuais como se quisessem seduzir a máquina fotográfica e em qualquer momento lhes lambessem a lente. Tudo devidamente registado para mais tarde recordar. E casamentos. Depois de um breve périplo pela Praça Vermelha para a fotografia da praxe há que rumar ao GUM para se deixar fotografar, noivo, noiva e convidados num número nunca superior a cinco, com a Dior lá no fundo, a Furla, ajudem-me que sou pouco entendida nessas marcas da moda. Sim, os russos gostam da moda, do fausto, da afirmação e da ostentação. Quem diria que poderiam afinal ser parecidos com os portugueses.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (3)
Estava sol, dizia eu, e a primeira vez que pus o pé na Praça Vermelha, senti a natural felicidade que os turistas encontram quando finalmente se vêem frente a frente com os seus objectos de amor ou de desejo. Podem ser praças, estátuas, quadros, monumentos ou pedaços seja do que for desde que no seu universo de gente inquieta funcionem com um íman que geralmente arrecadam com convicção em pedacinhos de papel brilhante ou ficheiros em cartões de memória. A Praça Vermelha funcionava como um íman. A Praça Vermelha e a Catedral de São Basílio. Saídos do metro foi só virar à esquerda, felizmente desta vez mantivemos as bocas fechadas e seguimos o mapa, não fossem descompor-nos logo no primeiro dia. E sim, a Praça Vermelha é a Praça Vermelha. Imensa e imponente, ladeada pelo Kremlin e pelo GUM, os anteriores Armazéns do Povo. Estonteante e contraditório. Belíssimo. Impossível não gostar. Do lado direito o Museu da Cidade, um lindíssimo edifício em tijolo vermelho, não é daí que advém o nome da Praça, e do outro lado, uma igreja muito pequena mas venerada por quem passava à porta. Com três dedos os russos faziam o sinal da cruz mesmo sem entrar na igreja. Beatões, portanto, muito religiosos. Há que compensar o tempo perdido do materialismo soviético. Entrei na igreja, de cabeça coberta, esta que vos escreve é desbocada mas respeitadora, e pasmei com a beleza dos ícons e pinturas douradas bizantinas. Havia de me acontecer o mesmo no Kremlin. Um espanto completo, não que a religião me esmague, não me esmaga nunca, mas a arte bizantina é estranhamente acolhedora. Não há estátuas de santos condoídos, imagens terríveis de sofrimento , esgares de dor ou fervores mistícos a que as igrejas católicas me habituaram. Os serviços religiosos nas igrejas ortodoxas são sempre de pé, provações que os bentos e crentes terão de passar, se o forem verdadeiramente, e as mulheres têm sempre a cabeça coberta. E era quase Páscoa. As igrejas tinham muita gente. Que beatos, estes russos. Curioso, penso quando ponho pé na rua e respiro o ar refrescante desta manhã de sol moscovita. Mas voltando atrás. A Catedral de Kazan alberga o ícone da Nossa Senhora de Kazan e é uma das mais importantes igrejas na Rússia e esteve ali desde o século XVII até aos anos trinta do século passado. Algures por essa altura, Stalin, esse rapaz que não era russo mas era soviético, precisava de espaço para os desfiles militares. A Catedral estava-lhe no caminho, uma maçada, a Catedral e as portas por onde tínhamos entrado, a Porta da Ressurreição. E que outra solução se não demolir? Só nos anos 90 os moscovitas voltariam a ver a Catedral na Praça Vermelha. Não admira pois a devoção. Aqui e em todo o lado, pela mesma razão: os anos 90. A mesma sorte de negregura e ressurreição teve a Igreja de Cristo Salvador. Uma igreja branca enorme de cúpulas douradas fulgurantes. Avista-se à distância em alguns pontos da cidade e foi reconstruída de raiz com o dinheiro do povo. Também. Monumental mas demasiado estridente para o meu gosto ou não fosse obra de Zurab Tsereteli, o controverso arquitecto que parece viver à margem do 'less is more'. Por dentro e por fora a igreja impõe-se demasiado. Esteve a mais também. Depois da morte de Lenine iria ser erigido ali o Palácio dos Sovietes, justamente naquele lugar, exactamente naquele sítio. Uma pena a igreja estar no caminho.Teve azar, portanto, a igreja original construída no Século XIX como agradecimento por Napoleão se ter retirado e esperou-lhe a mesma sorte que a Catedral de Kazan e a Porta da Ressurreição. Saiam-me da frente. Igrejas, pessoas, monumentos. É surpreendente que a Catedral de São Basílio tenha sobrevivido a estes ímpetos. Safou-se por pouco, sabe-se. E se o destino a tivesse trucidado, os russos modernos te-la-iam erigido dos escombros em busca dos seu passado. Ai, os russos, os russos.
Catedral de Kazan.
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vêm aí os russos
Vêm aí os russos (2)
A manhã estava agradável. Céu azul, não muito frio, nada que um cachecol e umas luvas não resolvessem, mas os russos não são rapazes que se deixem impressionar pelo sol e céu azul. Colhi esta impressão logo pela fresca, quando decidi dar um salto à Praça Vermelha. Não era longe, tinha lido, umas três ou quatro estações de metro, uns quinze minutos de viagem. A Partizanskaya não é a mais bela das estações de metro, uns dias à frente perceberia na plenitude por que é que o Metro de Moscovo é tão famoso, mas era monumental e grandiosa e reparei, quando desci pelas escadas, que tinham deixado cravos vermelhos nas estátuas erigidas aos soviéticos que resistiram aos nazis. Afinal têm coração, os russos. Terão sorrido? A mulher que estava a vender bilhetes nesta estação não sorria. Era cedo e estava uma manhã bonita, mas ela permanecia carrancuda lá no casinhoto escondido e quando os três espanhóis à minha frente, duas mulheres e um homem, pediram bilhetes, ela desabou em ira. Gritos, raiva, esbracejar. Os pobres espanhóis pareciam cada vez mais pequenos e atarracados perante a explosão de fúria da mulher que usava uma bata de empregada doméstica. Atrás de mim, alguém se impacientava e depois de vociferar algo, fugiu para outro guichet. Bem-dispostos e pacientes. Quando chegou a minha vez, usei da táctica já usada no dia anterior no restaurante e com os dedos indiquei o número de bilhetes. Nem bom dia nem sorriso. Nem obrigada nem por favor, das poucas palavra em russo que tinha treinado em casa. Conseguimos. Há que ser bruto portanto. Quando cheguei à Ploshchad Revolyutsii ia cansada do episódio matinal, tanta ira e impaciência, e pensei que raio de gente, sim que raio de gente aquela.
Pensei isto outra vez numa outra manhã. Desta vez não foi no metro. Desta vez meteu-se-me na cabeça que para vencer distâncias talvez não fosse má ideia ir de autocarro. Saquei do inefável Top10 Moscow e confirmei, sim, ali, na parte de baixo da Catedral de São Basílio, antes da ponte, passava o autocarro que nos levaria ao destino, desta vez sem estação de metro perto. Chega o autocarro. Uma carripana velha com um homem magro e seco de cabelo grisalho ao volante. Estendemos-lhe o dinheiro e eis que irrompe num episódio de ódio sem precedentes. Mais vociferar, mais berrar, mais esbracejar. Uma verdadeira sorte não perceber russo, o que não sabemos não nos pode magoar, mas pressenti que não nos estivesse a elogiar, sim, que manias tinham os estrangeiros de visitar Moscovo. Depois de lhe darmos mais dinheiro, o ser vociferante e irado calou-se. Quanto ódio. Tanta ira até lhe faz mal. Os russos não gostam de estrangeiros. Nem de manhãs.
Partizansakaya.
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vêm aí os russos
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Vêm aí os russos (1)
Os russos, querida Io, os russos.
Da janela do avião avisto as palavras inconfundíveis como um frenesi inesperado, uma pequena centelha no coração, o passado que nos cutuca. As palavras que durante a minha puberdade e adolescência apareciam amiúde na televisão a preto e branco, sempre a preto e branco, lia-as agora ao vivo, mas não a cores, um manto cinzento cobria o céu sobre Moscovo indiferente às palavras da adolescência e ao pequeno frenesi de mais uma vez me encontrar com a memória e cumprir um desejo antigo. Москва. Seguindo fielmente as indicações de sites e livros, guias e outros pedaços de escrita, reservámos pela net um táxi. Do lado esperava-nos um homem jovem, talvez nos quarenta, com um cartaz com o meu nome. Cumpridas as formalidades, cumprimentos e boas tardes, seguiu à nossa frente, impávido, sem um sorriso ou algo que pudesse indiciar, sei lá, como lhe chamar, um contacto amistoso, o sorriso tão comum entre outros povos deste mundo em ebulição. Nada fez mover o russo. Uma verdadeira parede de aço. Nem sequer um gesto cordial para ajudar nas malas. Não que fosse antipático ou grosseiro, não, ainda não. Uma total ausência de emoção, de sentir, de tudo o que tivesse a ver com a parte sensorial da vida, os músculos da cara hirtos, não sei se também o coração. A russa seguinte com a qual contactei, era uma mulher pequena, algures nos cinquenta anos, de olhos azuis e cabelo louro e não falava uma única palavra de Inglês. O facto de se estar numa zona turística, com alguns hotéis em volta, tão soviéticos como soviético se pode ser, ou não tivessem sido erigidos para albergar os atletas das Olimpíadas de 1980, as tais em que o Mischa foi estrela. Ao entrar no restaurante e meter a cabeça perguntei Do you speak English? A mulher sorriu, uma lança em África tendo em conta o russo anterior, a parede de aço impassível durante quase duas horas pelos arrabaldes de Moscovo, e respondeu No English. English Menu! Pronto estava safa. Quando veio o "English Menu", apenas uma parte estava traduzida e como! Portanto restava-nos um ou dois pratos de galinha, salmão e pouco mais. O sítio era aprazível, pequeno, cheio de fumo, essas modernices da Europa ainda não chegaram à Rússia, com mesas de madeira e um ambiente acolhedor. A língua não era problema ali. Bastava-nos um sorriso, o dedo indicador sobre o palavreado que nos iria saciar a fome depois da viagem longa, e mais dedos para indicar a quantidade, um, dois, três. Havíamos de voltar.
fotografia minha
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Oitenta páginas depois...
acabei a minha avaliação. Não vou ser melhor profissional, não vou ser promovida, não vou aprender nada, nem sequer uma palmadinha nas costas, uma festa no cachaço ou um biscoito crocante delicioso Good, good girl! Nicles. Não vou receber mais. Zero. Dias perdidos apenas em gabarolices estéreis. E uma frustração. Uma enorme frustração de ter estado a trabalhar para coisa nenhuma. Horas perdidas. Tempo estúpido.
O meu vizinho, o copromanta
Os livros, ah os livros! Companheiros de jornada e deslindadores de mistérios, chaves para os enigmas do mundo. Penso nisto enquanto saio de casa e a presença daquele monstro que vem despejar a fossa se me atravessa ao caminho e cumpre a função para que foi chamada: esvazia a caca da vizinhança. Vou pensando que terá sido feito dele. Vivia algures lá na outra aldeia que me acolheu madrasta durante um ano mal medido, tempo a mais para sítios hostis, e de vez em quando avistava-o da janela. Depois de dar umas voltas ao quintal de sua casa, verificando de caminho, abóboras e feijão verde, favas se fosse tempo delas e couves caso o Natal estivesse perto, parava junto à fossa. E olhava. Sendo adepta de que quanto mais se mexe na caca pior cheira, aquele comportamento permaneceu durante um tempo um enigma insondável. Que diabo. É que havia um campo em volta. Ele havia flores, silvestres e das outras, estrelícias, por exemplo dão-se muito bem por aqui, ele havia passarinhos, cães a ladrar, galinhas a cacarejar, patos a grasnar e perus, se o Natal surgia lá ao fundo na curva de Novembro. E havia o silêncio tão próprio do campo, sem carros nem trânsito, ausente dos bulícios das urbes endiabradas. E a fossa, o entretêm preferido deste peculiar habitante da aldeia. Quando vinha o homem da fossa, com a carripana para purgar o bicho, o homem observava com acuidade o processo, mantendo-se perto. Mas estava tudo lá. Naquele livro que terei comprado algures no Brasil, estava escarrapachado o deslindar do mistério, já que Jonas, a personagem principal, era um copromanta. E que será isso? Ora, um copromanta é alguém que lê o seu futuro nas próprias fezes, sim, muito nojento, mas o que era o meu vizinho se não um copromanta? Está para se saber se não lhe terá saído o Euromilhões depois da copromancia dedicada nas sucessivas observações à sua querida fossa ou se terá por estes dias um programa de televisão a adivinhar o futuro alheio. Os livros, ah os livros, dizia eu.
Estantes e gavetas:
na aldeia,
papéis pintados com tinta
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Leonor à rasca
E aqui estou numa noite de Agosto, agarrada ao computador, escrevendo, reescrevendo, apagando, cortando, acrescentando. E podia ser um texto interessante, uma historieta das que me saltam ao caminho quando estou de feição e bem-disposta. Mas não. Descodifico nacos de prosa burocrática como 'O docente revela uma atitude informada e envolve-se de forma participativa e interveniente face às políticas educativas' e pergunto-me como raio quererão eles que eu prove isto. E faço isto? E é importante para que um professor seja um bom professor: consciente, atento, competente? Escrevo pois o meu relatório de auto-avaliação, uma pérola de gabarolice, não há outra forma de o fazer, ah, boa, tão boa eu, tantas coisas que fiz, a antítese de se ser professor. Sou eu que tenho de fazer os meus alunos brilhar mas não sou que tenho de brilhar. Eles. Eles é que são o importante. Se serei melhor professora depois disto ou se terei qualquer recompensa por fazê-lo, sei que não, fá-lo-ei, contudo, linda e obediente, a abanar a cauda sem latidos nem uivos. Good good girl.
O relicário da memória
Há livros estranhos. Há aqueles que nunca devíamos ter lido, aqueles que nos deixam a lamentar o dinheiro desperdiçado quase como uma traição perpetrada pelo escritor, sim, como foi capaz de fazer uma coisa daquelas?, os que lemos e relemos, companheiros que dormem connosco sonos grandes na mesa-de-cabeceira ou que ficam inadvertidamente na cama entre voltas e sonhos inquietos, os de que nos esquecemos quase a seguir à leitura e permanecem apenas em traços largos num enorme borrão indefinido, os que nos deixam frases e expressões que procuramos desesperadamente quando nos fazem falta ou os que deixamos com post-its para que seja mais fácil encontrá-las. Há ainda aqueles que mesmo não sabendo muito bem porquê não nos largam. E este foi um desses.
O livro é um catálogo de Museu erigido pelo amante à sua amada. Um altar de recordações coleccionadas ao longo de décadas, um santuário de pequenas relíquias, o cadinho das memórias perpetuadas. Uma longa e sofrida declaração de amor no masculino. Tão surpreendente sempre. E depois há o tempo, o tempo de mudança em Istambul e na Turquia, o relato de décadas de história, entrelaçado em Kemal e Füsun, as personagens principais. E depois há a cidade. O périplo constante por Istambul, um daqueles livros em que podemos pegar num mapa e situar, seguir, caminhar, calcorrear os locais com as personagens. Subir e descer ruelas, sob a presença altaneira dos minaretes e o cantarolar dos muezzin, o Bósforo sempre a espreitar numa das cidades belas, contraditoriamente belas e caóticas. Que terá aquela cidade? E depois há hüzün, sentimento de nostalgia que quase podia ser saudade. Muito, portanto. E fiquei no livro. Meses depois de o ter devolvido à estante ainda estava no livro. E em Kemal. E em Füsun. E em Istambul. Perdida na visita a 'O Museu da Inocência'. Uma parte de mim ficou ali. A cidade talvez. Quem sabe o amor.
Orhan Pamuk, O Museu da Inocência.
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domingo, 21 de agosto de 2011
Sul
Dentro de mim faz Sul*. Penso nisto enquanto me abalanço fora de casa, para lá das portas, junto à relva e às hortênsias e um vento quente me cumprimenta sem cerimónias. E há uma reminiscência desse Sul de que tanto gosto, o cliché já usado anteriormente da porta do avião que se abre e a humidade tépida que beija o corpo**, um perfume que se cola a nós inebriante e a certeza quase imediata da felicidade. Estranha sensação, a de que apenas um bafo quente e húmido, um perfume de terra molhada e um vaguear imenso de chinela no dedo, acompanhado de silêncios partilhados e gargalhadas cúmplices nos bastaria para a plenitude. Mas faz Sul em mim. Quando rumo a Sul, esse que em mim faz, há uma janela de fugazes sensações lânguidas e despreocupadas que se abre, um eterno espreguiçar entre cigarras e ocasos cintilantes. Abro a porta. Lá fora é Sul. Como cá dentro.
* Usurpado do título de um livro do Ondjaki
** Miguel Sousa Tavares no livro Sul
sábado, 20 de agosto de 2011
A fé ou a falta dela
Aquela manhã de Abril em que se abriram as portas dos Museus do Vaticano foi neura, neura furiosa e irritada. Afastei-me para o Pátio e deixei-me acalmar de máquina fotográfica em punho esperando que se regressasse a tranquilidade que tanto desejo em férias ou fora delas. Nem uma palavra trocada, acredito que teria um semblante daqueles de afastar até os insectos indesejados e caso alguém me tivesse dirigido uma palavra teria irrompido em impropérios coléricos. E sei que isto é um lugar-comum, qualquer pessoa minimamente inteligente se revoltará contra a riqueza e exuberância de uma religião que advoga o despojamento físico, a pobreza como forma de atingir um outro estádio de qualquer coisa, e depois ostenta a riqueza que todos conhecemos. Contudo não consigo deixar de me indignar e por isso compreendo que as pessoas se manifestem em Espanha contra os gastos absurdos que a visita do Papa implica. Numa altura de tanta austeridade seria desejável que o dinheiro fosse empregue em outras coisas, não para dar vivas ao Papa. A este ou a outro qualquer. Mas isto sou eu que me comovo mais em frente à Noite Estrelada de Van Gogh do que sucumbo a ardores de fé em qualquer altar do mundo. Se a religião fosse um clube já teria entregue o cartão de sócia há muito. Algo me escapa nos fervores místícos de dar vivas a um padre.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Como o amor
As cidades que amamos são como os homens que amamos. Nem sempre conseguem dizer a palavra certa no momento certo, nem sempre estão lá quando precisamos daquele incentivo lamechas de que as mulheres tanto gostam, por vezes deixam as meias desapernadas pelo quarto, os sapatos desarrumados a um canto, há dias em que se remetem a silêncios profundos e prolongam os cigarros fumados em quietudes próprias, excluindo o que se encontra em volta numa redoma intransponível. E, contudo amamo-los, porque nesta forma peculiar de amar não nos deixam e caminham de forma discreta mas consistente a nosso lado sem alardes exuberantes. Como as cidades de que gosto. Nem sempre demasiado belas, nem sempre arrumadas, raramente exuberantes e sempre mas sempre com a dose certa de mistério para que o amor se cumpra. Dificilmente amarei algo que compreenda na plenitude. Há um desafio permanente nesta centelha enigmática que me vai iluminando os dias, algo intangível que me mantém na esperança de tudo compreender. Praga é bela, demasiado bela para o meu amor. Pouco enigmática. Que há mais naquela cidade além da beleza arrumada de ruelas e pontes? E por tudo isto, caio de amores por Berlim. Não é demasiado arrumada, a espaços surgem desalinhos vários, desarrumações e espaços de fealdade abertos aos olhos do mundo. Não é demasiado bela portanto. Lá longe dos olhares dos turistas há lugares onde não há beleza, e, no entanto, a cidade tem lugares deslumbrantes como Kollwitzplatz ou Gendarmenmarkt, cada uma à sua maneira, praças que nos embalam na leveza de dias felizes de uma bebida descontraída entre risadas e mãos que se procuram, dedos que se enlaçam. E há pedaços surpreendentes como Potsdamer Platz, a sensação quase de vertigem de uma outra vivência, mais dramática na metamorfose completa. O amor também se metamorfoseia. E há espaços que doem na memória, todos os amores têm lugares que doem. Há marcas que nos surgem enquanto calcorreamos caminhos, murros no estômago que nos apanham desprevenidos para nos lembrar que há uma História e estórias. E caminha a meu lado. Eu caminho a seu lado. Praga é demasiado bela. Berlim suficientemente humana. Como o amor.
Ah a vaidade!!!
Serve este singelíssimo post para agradecer a simpatia do Pedro Rolo Duarte ao eleger aqui A Curva da Estrada como o Blogue da Semana. Muito obrigada, Pedro. É um óptimo incentivo para continuar a escrever.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
O meu reino por um par de óculos
A idade tudo traz. Além dos despencanços que diariamente observo nos parcos minutos em que me relaciono com esse objecto que me mostra o que não quero ver, o meu odiado espelho, fui acometida de algo que não poderei negar durante muito mais tempo: incapacidade de ler ao perto. Presbiopia, dizem os entendidos. Por mais que estique os abraços e afaste os objectos de mim está a chegar aquela altura em que os braços me são curtos e os objectos permanecem um borrão ilegível. Terá sido por isto que ontem, quando o transformador do meu computador portátil entregou a alma ao criador e rumei a uma loja na esperança de o substituir, pedi ao empregado que me dissesse qual a potência do dito. Cordata e de transformador em punho, solicitei que me visse e sugerisse um transformador marca branca que me trouxesse à vida o computador moribundo por falta de alimento. A resposta foi lesta, ignorado por completo o meu primeiro pedido. Foi dito sem reservas que teria de comprar um de 90W. O empregado adiantou ainda que já tinha discutido com um cliente porque lhe sugeriu aquele mesmo de 90W. Ora à minha frente tinha um de 70W com as indicações compatíveis com o meu bicho moribundo e nada mas nada me convenceu naquela breve conversa. Uma vez que estava num centro comercial decidi ir dar uma volta e esperar que o turno mudasse. Quando regressei, uma boa meia hora depois, o empregado era outro e, como esperava, a resposta foi outra. Que não, que não era o de 90W, era um de 65W que não havia. Sugeriu que fosse a uma loja especializada de computadores, conselho que segui obediente para me ser dito coisa nenhuma de importante mas que percebi pelas entrelinhas que sim, o de 70W seria adequado. E entrei de fininho na loja, arrebanhei o de 70W e regressei lampeira ao meu notebook ressuscitado. Comprar uns óculos teria sido bem mais fácil, isto se não me saltasse ao caminho um oculista passado que me sugeriu que experimentasse umas lentes de contacto para verificar se eram mesmo aquelas que tinha encomendado. Gente competente não se arranja? segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Biscoitos
E hoje apetece-me biscoitos. Chegar à cozinha e o pôr em prática as inúmeras receitas de biscoitos que me entretive a recolher. Chegar à cozinha e entregar-me sem culpas à indulgência de algo tão simples mas sempre tão alquímico, tão acolhedoramente intimo, tão primitivo e feminino, essa coisa de amar alimentando, nutrindo, envolvendo com beijos de açúcar e nuvens perfumadas que pairam invisíveis como um manto pela casa, reminiscência de memórias gratas de infâncias longínquas. E o processo depois. Juntar ingredientes, tanto que serão um só. Envolver, mexer, amassar. Exercer o meu direito de liberdade transgressora, nunca aberto à discussão, e acrescentar algo mais: canela, cardamomo, gengibre, limão ou laranja, raspas de chocolate talvez. Cozinhar é sempre transgressão. Transgressão e liberdade. E amor. Apetecia-me biscoitos, dizia eu.
sábado, 13 de agosto de 2011
Die Mauer

E havia pessoas. Do lado de cá e de lá do Muro, além de ditaduras, propaganda e sistemas políticos, havia gente. Que nunca nos esqueçamos disso. Ao meio dia também eu ficarei em silêncio pelas vidas estilhaçadas por muros.
fotografia: Gedenkstätte Berliner Mauer, Bernauer Strasse
segunda-feira, 25 de julho de 2011
A vida a preto e branco
Algures num tempo passado quando eu era ainda uma activista convicta no Bookcrossing alguém se terá mostrado muito admirado por eu gostar de José Saramago e de António Lobo Antunes ao mesmo tempo. Este categorização da vida e esta necessidade de viver em alternativas, ou um ou outro, e a preto e branco foi algo que sempre me intrigou. E muito. Nenhum deles se exclui e não há nada num que me faça odiar o outro. Não entendo. Nestes últimos dias em que as notícias da fome no Corno de África, o terrorismo na Noruega e a morte de Amy Winehouse convergiram, esta dicotomia regressou em força, como se lamentar um excluísse um outro e houvesse quotas para a indignação e choque. E eu continuo sem entender.

Também no Delito de Opinião
sábado, 23 de julho de 2011
Feminino e intemporal
A voz inversamente proporcional à figura excessivamente magra, o cabelo armado com um penteado a que Nicolau Tolentino não ficaria indiferente, beehive, chamam-lhe, Karl Lagerfeld já o lhe teceu comentários elogiosos, considerando-a um ícone do estilo, o corpo esquálido enfiado num vestido que habitualmente lhe sobra, as pernas esguias e finas sobre sapatos de salto alto e a sensação de que os passos sobre os saltos são tão instáveis e periclitantes como o caminho que vai trilhando pela vida pessoal e profissional. E de Amy Winehouse já muito se disse, ou não nos brindasse a estrela que se teme subitamente cadente, com uma verdadeira novela em torno da sua vida pessoal, um enredo trágico prenhe de drogas e álcool, escândalos e amores sofridos, destemperos e hedonismos, conflitos familiares e problemas conjugais que se fundem e forjam as letras de que são feitas as suas canções, particularmente em Back to Black, o segundo trabalho que lhe valeu seis nomeações para os Grammys e que lhe fez arrecadar cinco. Recentemente a sua figura consta entre os notáveis do Museu de Cera mais famoso do mundo, o Madame Tussaud’s em Londres e em Maio último viu a letra de Love is a losing game ser objecto de análise nos exames de Cambridge. Muito, portanto, para uma mulher de apenas 24 anos.Com cinco milhões de cópias, apenas do último CD, vendidas em todo o mundo e um sucesso retumbante e ascensão meteórica, a frágil e jovem diva espalha e desperdiça o talento e divide o mundo entre críticos e solidários, puritanos e admiradores, uma panóplia de adivinhadores da desgraça tal como acontece no site em que são feitas previsões sobre a morte da cantora e uma imensidão de vaticinadores do infortúnio. Amy é tudo menos consenso e se consenso se lhe aplica tem lugar num único ponto: o talento de que a belíssima voz é parte imprescindível.
Esqueçamos então a figura controversa, a imagem da mulher desalinhada e desesperada que exibe em palco a tragédia da sua própria vida, patética e decadente, e ouçamos apenas a voz portentosa. Esqueçamos também o seu percurso pessoal e ouçamos o que tem para nos dizer. Love is a losing game, por exemplo, é um hino às adversidades do amor, Back to black, o lamento da perda e do amor infeliz, Wake up alone, a solidão que se abate como o sol poente no quotidiano, Tears dry on their own, um tema perfeito para as mulheres que já experimentaram as lágrimas secar por si, muitas de nós, acredito. Há mais em Amy do que apenas Amy. Existe um sentimento muito feminino, intemporal e transversal de perda, solidão e rejeição. Quanto de nós não é Amy também?
Crónica escrita há uns anos e republicada hoje em jeito de homenagem a Amy Winehouse que nos deixou hoje.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Happy Birthday, Madiba!
If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head. If you talk to him in his language, that goes to his heart.
Nelson Mandela
terça-feira, 12 de julho de 2011
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Risotto de coentros
Enquanto ajeito o molho de coentros trazido como contrapeso de um quilo de pêssegos e uma meloa sinto o aroma fresco do sul, uma contradição de dias quentes que me afagam sempre e me enchem a alma de alento para os dias sombrios. E o Norte a que cheira?
Rumo ao frigorífico e retiro sem enlevo a cebola congelada, a salvação de donas de casa atarefadas e contemporâneas pouco dedicadas a processos morosos de misturar sabores entre afazeres múltiplos, a casa que fica decididamente arrumada para dias que não vêm nunca. Derramo no tacho sobre a cebola um fio de azeite e meia folha de louro. Lá fora há um Verão por cumprir. Um vento frio que sopra no canavial e pela janela, pela mesma onde vejo passar barcos e navios, tarjas de cor diferente, ora prateadas em dias de Estio, ora cinzentas quando este emigra algures e outras um manto azul e intenso, há um chamamento para nele navegar, desconhece-se até onde. Volto ao fogão e mexo com calma a cebola lentamente em namoro com o azeite, um aroma leve que se liberta acompanhado de um frigir pequenino, um sussurro singelo. E o arroz então. Arbóreo de bagos voluptuosos.. E misturo. Meio copo bem medido. E mexo até ficar enlaçado na cebola e no azeite. Um copo de vinho branco frutado sem cerimónia nem o rigor de cozinhas espartanas. A minha cozinha é feita de momentos de libertação e transgressão, espelho inequívoco de quem sou. E envolvo até o vinho branco se sumir lentamente. O momento ideal para mais um copo de água bem quente, esse sim, deitado com carinho e calma enquanto os aromas se casam. O ritual repetido como o remanso dos Domingos de manhã. A tranquilidade de que faz parte abrir e fechar as portas às gatas, o ladrar sedento de festas do cão do vizinho, mesmo ali ao lado. E por fim o Verão. O cheiro inequívoco desse Sul que sou. O molho de coentros lavado em água corrente e abundante e cortado com a tesoura das ervas aromáticas para o tacho. E mexer. E rectificar.Mais coentros. Deixar que a generosidade cumpra o seu propósito de temperar, comida, almas, vidas. E sentir o aroma que se liberta, esse cheiro de gentes do Sul, de conquilhas comidas na esplanada com céu azul levemente em decadência do dia que adormece e as gaivotas que se fazem ouvir ao longe, de sopa de cação contra as searas de casas brancas bordejadas de azul forte. E o Norte a que cheira?
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Sensibilidade e bom senso ou a falta deles
Angélico Vieira, músico e actor celebrizado por uma série de televisão, morreu na passada terça-feira. Era jovem, bem parecido e amado por uma legião de fãs, compreensivelmente femininas e deixou um rasto de consternação. O curioso foi a panóplia de notícias que se foram sucedendo. O rapaz esteve em morte cerebral muitas vezes, respirou por seu próprio pulmão algumas outras, depois deixou de respirar frequentemente, afinal desligaram-lhe a máquina uma ou outra vez e acabou por morrer definitivamente. Umas vezes usava cinto de segurança, aquando do brutal acidente, outras nem por isso, outras ainda houve em que o acidente havia acontecido por falha técnica do carro em que seguia, ora um pneu que rebentou ora um eixo que se partiu, e segundo se apurou ultimamente afinal ia era em excesso de velocidade. Por último, e quando a morte cerebral foi decretada, levantou-se a questão de doação dos órgãos. Houve um jornal que anunciou que a mãe se havia oposto, quando à luz da lei portuguesa todos somos dadores até termos provado o contrário no Registo Nacional de Não-Dadores, outros que se ocuparam na descriminação dos órgãos. Ao que parece a doação foi mesmo feita e vidas salvadas mas havia necessidade deste título no Jornal de Notícias: “Moranguito cremado de chapéu mas sem coração, pulmão, rins, córnea e fígado."? Um bocadito de sensibilidade e bom senso não se arranja por esses lados?
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Crónica de uma poupança inusitada
Estais aflitos? Sem saber o que fazer? Onde cortar? Como poupar? Descansai que o irmão José António Saraiva tem a solução para tão grandes males. Por exemplo, eu que sou rapariga de grandes luxos vou imediatamente adaptar tão sábias considerações à minha vidinha de cortes e recortes e pôr em prática esta pérola: “A propósito de carro, por que não escolher sempre um modelo abaixo daquele que ‘normalmente’ iríamos comprar. Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C; em vez de um Audi 6, um Audi 4”. Ora aí está, logo agora que com o meu chorudo subsídio de Natal tencionava adquirir esse tal de Mercedes E, irei humilhar-me a um modestíssimo Mercedes C. Uma maçada. Já em relação aos hotéis em viagem deixar-me-ei de "escolher às cegas um de cinco" estrelas. Sim, a felicidade é possível num de três ou quatro estrelas. Imagine-se. Soubesse eu de tão preciosos conselhos e teria prescindido do Moët & Chandon no dia do meu aniversário há cerca de duas semanas, já para não falar da água Vittel, Vichy ou Voss com que costumo mandar a empregada dar banho às quatro gatas cá de casa. O meu problema está mesmo na depilação, já que a proposta é que em cada cinco visitas à esteticista ou lá como lhe chamam nesses sítios da moda se reduza uma. Contudo, obstarei a este busílis recorrendo a uma técnica que foi sugerida no Facebook a propósito destas pérolas: chamuscar-me-ei nessa vez mas com o maçarico de queimar o leite-creme para não perder o estilo. Barato e eficaz. De chamuscada não passo
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terça-feira, 21 de junho de 2011
A insustentável lógica do Ministério da Educação
Corria o mês de Março. Acabada de chegar de uma semana na Velha Albion com os meus alunos, o ambiente era mais uma vez de altercação entre o professorado aquém e além da sala de professores da minha escola azul-cueca. Desta vez não era a avaliação ou os titulares, ai as saudades que eu tenho de um ressabiamento à moda antiga, da malta a contar furiosamente pontos como quem os junta no cartão de grande superfície comercial. Nada disso, o povo até andava relativamente sereno quando o Ministério da Educação se lembrou de fazer acções de formação para classificadores de exames e o povo andava altercado, e muito bem, porque aparentemente teríamos de assinar um contrato de três anos, uma verborreia disparatada que se foi pelo sue próprio pé. Mas pormenores à parte e fora o dito contrato que acabou por nunca aparecer, a ideia nem me pareceu muito mal. Nunca é demais reflectir sobre essa tarefa hercúlea de classificar. O que me pareceu mesmo muito mal, mas mesmo muito mal, foi que com acções de formação em Lisboa eu tivesse sido destacada, convocada, simpaticamente obrigada para frequentar a acção como os mesmos formadores e sobre o mesmíssimo assunto em Coimbra. Não adianta fazer um exercício de lógica, aventar hipóteses, pensar e reflectir ou questionar Mas olha lá se havia uma turma em Lisboa porque é que foste parar a Coimbra? Ninguém sabe. Nem o próprio Ministério que pariu esta bela coisa. Ordeira e boa rapariga, ah como gosto de me sentir tão boazinha, lá dispus do meu fim-de-semana, do meu dinheiro, até hoje ainda ninguém se dignou a pagar as despesas da gasolina, portagens e pernoita, e rumei ao Centro. Linda menina, pois, a que frequentou uma Acção de Formação para classificadores de exames de Inglês. A mesma marmanja que hoje se dirigiu à sua escola azul-cueca, mais uma vez obediente e ordeira, para tomar conhecimento de que tinha sido convocada para classificar exames. E corria tudo bem, excepto a parte de não me pagarem que o povo é povo mas não vive do ar, quando os meus olhos aterraram num pormenor curioso. É que desengane-se quem acha que eu vou corrigir exames de Inglês, exames para os quais recebi formação paga pelo Ministério que ainda não pagou. Era lógica a mais. Vou classificar exames de Alemão. Não é lindo?
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Estantes e gavetas:
ai portugal portugal,
ossos do ofício
quinta-feira, 9 de junho de 2011
E agora que quase emergi deste fardo de avaliar...
Que alívio!!!!!!!!!!!!!!
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Considerações de uma professora a emergir de trabalhos, testes, relatórios e grelhas de excel
ODEIO Avaliar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
domingo, 5 de junho de 2011
Coisas que me passam pela cabeça enquanto o país vira à direita
lichtung
manche meinen
lechts und rinks
kann man nicht velwechsern
werch ein illtum!
Ernst Jandl
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Cogitações
Depois de tanto se malhar no Sócrates, pergunto-me em quem se irá malhar depois de Domingo à noite. É bom que se vá pensando num substituto sob pena de se sofrer uma insuportável síndroma de privação. Sete anos de bordoada não se esquecem facilmente e o homem é um animal de hábitos, diz-se.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
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