Porque este blogue se tornou também o meu porto de abrigo e o sítio onde comungo as minhas vitórias e tristezas, mágoas e conquistas, onde rio e choro e porque, sem vocês que me visitam, eu seria infinitamente mais pobre e este local não teria sentido, um beijo no dia que passa a todos os que passam no meu paradeiro.
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quinta-feira, 14 de junho de 2007
Paradeiro
Porque este blogue se tornou também o meu porto de abrigo e o sítio onde comungo as minhas vitórias e tristezas, mágoas e conquistas, onde rio e choro e porque, sem vocês que me visitam, eu seria infinitamente mais pobre e este local não teria sentido, um beijo no dia que passa a todos os que passam no meu paradeiro.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Esvaziaram-se-me as palavras
e as que encontro servem apenas para dizer o que sinto
e o que sinto é pouco para as palavras.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
sábado, 9 de junho de 2007
Toda a felicidade do mundo
Na última vez que foi a uma casamento o padre além de ter dado um raspanete nos presentes, disse algo que muito me chocou. Depois das prelecções mais ou menos habituais perguntou se não estaríamos em situação de desejar aos noivos tanta felicidade como para nós mesmos. Tendo em conta que aquela é a casa de deus e que se se vai a um casamento é porque se travam laços de afectividade com os noivos, a pergunta ofendeu-me. Não sei porque a nossa felicidade ou não tem de ser o alqueire por que se mede a felicidade de quem gostamos.
Por isso, hoje estou aqui para desejar não tanta felicidade como a minha, que interessa a minha?, não mais um bocadinho, não menos um bocadinho, mas a felicidade TODA do mundo à menina das estrelinhas, que é tão especial, e ao seu mais que tudo por este passo no trilho da felicidade em comum.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
segunda-feira, 4 de junho de 2007
sexta-feira, 1 de junho de 2007
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Entre o crepúsculo e a alvorada
Diz Wolfgang Becker que Good Bye Lenin! não é um filme sobre a Ostalgie - mais uma das palavras difíceis de traduzir e em que nenhuma outra língua me soa tão bem como em alemão - a nostalgia dos tempos da Ex-RDA e que surge do casamento entre as palavras Ost e Nostalgie.
Sobre o que é então Good Bye Lenin!? Sobre o amor, o desmoronar de um sistema, uma cidade em mudança, sobre o fim do comunismo, sobre o assalto impiedoso do capitalismo? Certamente sobre tudo isto. Good bye Lenin! é também um filme sobre a mudança que se opera na esfera pública e privada e sobre a mudança que se repercutiu na Europa e no mundo desde 1989.
Da sinopse sabe-se que a Christiane Kerner, mãe de Alex, entra em coma depois de ter sofrido um ataque cardíaco quando se preparava para participar no 40º aniversário da RDA. Oito meses depois regressa da ausência a que a obrigou o estado de vacuidade temporário. Durante esses oito meses, a RDA deixou de existir, um golpe duro para quem vestia com convicção a camisola do seu país. Alex, filho extremoso, tenta a todo o custo manter viva a RDA dentro dos 79m² a que estava confinada a mãe, com o intuito de lhe prolongar a vida e evitar o desgosto, demasiado penoso para o seu coração debilitado, de ver o seu país adquirir todas as cores da paleta capitalista com cadeias de fast food a crescer como cogumelos, a água suja do capitalismo a correr como um rio e as marcas ocidentais repentinamente omnipresentes em Berlim, provavelmente a mais emblemática cidade do século XX.
Os episódios oscilam entre a comicidade e a tragédia da angústia de um filho para salvar a sua mãe, pervertendo e invertendo o fluxo da mudança nos simbólicos 79m² do seu apartamento de Berlim – tanto haveria a dizer sobre Édipo entretanto – e mesmo Wolfgang Becker refutando que este não é um filme sobre a Ostalgie, a verdade é que todos os objectos característicos da RDA e que se transformariam em culto e negócio anos após a sua dissolução estão presentes: os pepinos de conserva do Spreewald, o café Mocca Fix, o Sandmännchen, os Trabant, por exemplo.
Salientar o desempenho de apenas um actor seria injusto. No filme tudo parece perfeito e cada uma das personagens, desempenhando não só o seu papel mas também contendo a carga simbólica intimamente ligada ao tempo histórico, deambula com excelência num percurso volátil e volúvel na senda do seu lugar num mundo tão excitante quanto incerto ao som da música de Yann Tiersen, enquanto Lenine sobrevoa o céu de Berlim para desaparecer no crepúsculo que se anuncia na cidade, na vida de Christiane e na própria RDA.
Sobre o que é então Good Bye Lenin!? Sobre o amor, o desmoronar de um sistema, uma cidade em mudança, sobre o fim do comunismo, sobre o assalto impiedoso do capitalismo? Certamente sobre tudo isto. Good bye Lenin! é também um filme sobre a mudança que se opera na esfera pública e privada e sobre a mudança que se repercutiu na Europa e no mundo desde 1989.
Da sinopse sabe-se que a Christiane Kerner, mãe de Alex, entra em coma depois de ter sofrido um ataque cardíaco quando se preparava para participar no 40º aniversário da RDA. Oito meses depois regressa da ausência a que a obrigou o estado de vacuidade temporário. Durante esses oito meses, a RDA deixou de existir, um golpe duro para quem vestia com convicção a camisola do seu país. Alex, filho extremoso, tenta a todo o custo manter viva a RDA dentro dos 79m² a que estava confinada a mãe, com o intuito de lhe prolongar a vida e evitar o desgosto, demasiado penoso para o seu coração debilitado, de ver o seu país adquirir todas as cores da paleta capitalista com cadeias de fast food a crescer como cogumelos, a água suja do capitalismo a correr como um rio e as marcas ocidentais repentinamente omnipresentes em Berlim, provavelmente a mais emblemática cidade do século XX.
Os episódios oscilam entre a comicidade e a tragédia da angústia de um filho para salvar a sua mãe, pervertendo e invertendo o fluxo da mudança nos simbólicos 79m² do seu apartamento de Berlim – tanto haveria a dizer sobre Édipo entretanto – e mesmo Wolfgang Becker refutando que este não é um filme sobre a Ostalgie, a verdade é que todos os objectos característicos da RDA e que se transformariam em culto e negócio anos após a sua dissolução estão presentes: os pepinos de conserva do Spreewald, o café Mocca Fix, o Sandmännchen, os Trabant, por exemplo.
Salientar o desempenho de apenas um actor seria injusto. No filme tudo parece perfeito e cada uma das personagens, desempenhando não só o seu papel mas também contendo a carga simbólica intimamente ligada ao tempo histórico, deambula com excelência num percurso volátil e volúvel na senda do seu lugar num mundo tão excitante quanto incerto ao som da música de Yann Tiersen, enquanto Lenine sobrevoa o céu de Berlim para desaparecer no crepúsculo que se anuncia na cidade, na vida de Christiane e na própria RDA.
Reputação arruinada

O episódio remonta já ao ano lectivo anterior. Depois de em conjunto ter visto com os meus alunos Supersize Me a propósito dos hábitos alimentares e no âmbito do programa, foi-lhes solicitado, entre várias outras coisas, que seleccionassem uma cena que tivessem gostado e outra que não tivessem gostado e, claro, a devida justificação para promover o debate. A selecção não foi muito variada, quase todos referiram como a pior cena aquela em que Morgan Spurlock regurgita o menu Big Mac, depois de uma sucessão de MacSons pouco edificantes, acredito que o próprio Morgan saberia disso, se não ter-nos-ia poupado à visualização do regurgitanço propriamente dito. Duas alunas em situações diferentes elegeram uma outra cena. Não estavam propriamente pacificadas com o que ouviram e viram e afirmaram convictamente que a cena que menos tinham gostado tinha sido aquela em que Alex, a namorada de Morgan Spurlock, refere que na sequência da MacDieta o seu desempenho sexual tinha sofrido um decréscimo qualitativo. Coitado do rapaz, afirmou uma, dizer uma coisa daquelas em frente de toda a gente… e por mais que se tentasse esclarecer que o objectivo de Alex seria mais o de alertar para os efeitos secundários de uma dieta desequilibrada e perigosa do que desvelar a sua vida sexual com o coitadito do Morgan, àquela hora completamente desprovido do seu orgulho viril, nada as fez demover. Remataram Ela não tinha nada que contar aquilo, coitado! Há coisas que não se devem dizer, muito menos em frente de toda a gente.
Do Mês do Cinema aqui
quarta-feira, 30 de maio de 2007
O meu é maior que o teu
Foi isto ontem pelo fim da tarde. O padrão começa a repetir-se: todos os incidentes que têm o condão de me dar vontade de responder torto acontecem pelo fim da tarde, certamente não será alheio o facto de estar já cansada, saturada e de sentir que precisaria de força de Adamastor para me sobrepor aos picos enérgicos dos meus alunos, que, regra geral, não observam minguamento ao final da tarde com os da sua professora. E pronto, no sítio do costume, cada uma dava conta do que tinha ainda a fazer. Mencionei em ar de queixume o trabalho para a oficina de formação que frequento. A resposta foi lesta com um laivo de acusação no ar Ai se tivesses filhos não conseguias fazer isso. Ora aí está um dos argumentos que agradecia que não me esfregassem na cara e isto porque eu não esfrego na cara de ninguém que tem filhos, não porque os tenha ou porque eu não os tenha, mas porque respeito inteiramente as opções de vida de cada um. Vá que eu tinha o oveiro seco – como gosto desta expressão, querida Zélia Gattai- ou as miudezas encarquilhadas e não conseguia ocupar como diz o povo, vá que eu era fraquinha dos nervos e me largava em prantos sobre as torradas, os queijos frescos, os chás e os pãezinhos, vá que eu tinha um desgosto de morte por não ter desovado? Quando se queixam que não fazem isto, aquilo ou aqueloutro porque são mães, não vejo como não respeitar a situação de cada um. Cada um é como é, tem o que tem, ponto final. A sorte é sermos todas mulheres se não andaríamos de fita métrica em punho a medir qual era maior que qual.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Assim sem ti
Os olhos pregados no tecto da igreja na esperança que engolissem as lágrimas que eles próprios ousaram em mostrar. E a noiva, como todas as noivas, titubeante de braço dado com o pai e eu, não comovida com a entrada da noiva, não sensibilizada com o momento solene, não encandeada com o halo dos dois recortado a contra-luz na porta da igreja, eu apenas, apenas eu, com a saudade infinita do meu pai a meu lado, dos momentos todos com ele a meu lado e da magia de os dois lado a lado pela passadeira da vida rumo a um outro caminho. Eu assim, sozinha com o meu umbigo, eu com saudade de nós, com pena de mim sem ele e eu a odiar-me por pensar em mim, apenas em mim, só em mim, e chorar pela ausência, enquanto a noiva seguia em frente com o seu pai a seu lado num momento tão pleno como o meu terá sido. segunda-feira, 28 de maio de 2007
Perfumes
- Seu filho está doido – disse ela, de noite na varanda, sem saber que eu estava escutando.
- Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro óptimo.
João Ubaldo Ribeiro, Um Brasileiro em Berlim, Editora Nova Fronteira.
- Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro óptimo.
João Ubaldo Ribeiro, Um Brasileiro em Berlim, Editora Nova Fronteira.
É normal, claro que é normal. Apanho-me sozinha, numa livraria ou em casa e o cheirinho dos livros é como perfume para a alma. Pelo cheiro se identificam: se são novos, ou mais vetustos, se acabaram de sair da gráfica ou estão encafuados num local recôndito, se foram à praia assim cheirarão também, se estiveram ao sol assim libertarão o odor das páginas secas. Os livros não são apenas letras, os livros são também cheiros e nos cheiros reside a memória de quem somos.
quinta-feira, 24 de maio de 2007
cansaço de amar
- Tens muito que fazer?
- Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto assim cansa e mata; morrer-se sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço)
Sebastião da Gama, Diário.
- Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto assim cansa e mata; morrer-se sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço)
Sebastião da Gama, Diário.
terça-feira, 22 de maio de 2007
Parabéns, Mamã!
Hoje a mãe mais aventureira, risonha, faladora, companheira, amiga, leal, generosa, viajante, intrépida, incansável, prestável, linda do mundo faz anos: a minha, claro!
Parabéns mamã!
Parabéns mamã!
foto: minhasegunda-feira, 21 de maio de 2007
ser SER
seja ruído
seja beijo
seja voo
seja andorinha
seja lago
seja pacatez de árvore
seja aterrizagem de borboleta
seja mármore de elefante
seja alma de gaivota
seja luz num olhar
seja cardume de tardes
e grite: JÁ SOU
Ondjaki, Há prendisajens com o xão
seja beijo
seja voo
seja andorinha
seja lago
seja pacatez de árvore
seja aterrizagem de borboleta
seja mármore de elefante
seja alma de gaivota
seja luz num olhar
seja cardume de tardes
e grite: JÁ SOU
Ondjaki, Há prendisajens com o xão
sábado, 19 de maio de 2007
Abraçar o Palácio

Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.
José Saramago, Memorial do Convento
O Palácio Nacional de Mafra está ser abraçado por um cordão humano.
Aqui fica o meu xi-coração.
Notícia aqui
sexta-feira, 18 de maio de 2007
No Disc
Malvado! Mentiroso! Aldrabão! Vá lá, anda! De há uns meses a esta parte a conversa repete-se e isto porque o bicho em questão mente com todas as letras possíveis e mesmo depois de lhe enfiar um CD, uma, duas, três, quatro, cinco vezes, continua pantomineiro a atirar-me à cara NO DISC. Pois se há coisa que me exaspera, irrita, assanha, eriça, enfurece e embravece é mentirem-me na cara. Depois de engolidos um, dois, três, quatro, cinco CDs diferentes, ele continua a dizer-me NO DISC e mais uma tentativa NO DISC, outra NO DISC. Mudo de CD, quem sabe está farto do mesmo? Agora, por exemplo, deu em passar Orishas e assim se tem mantido. Ao que parece, o CD preferido dele é Emigrante, não o censuro, também é o meu, mas, por exemplo o El Kilo também não é mau, mas esse nem vê-lo, é esse e o Mi Sueño de Ibrahim Ferrer, isto já para não falar do Universo em meu Redor da Marisa Monte. Não sei se a idade dos leitores de CDs se mede como a dos gatos, se assim fosse este rondaria as seis décadas de vida. Vetusto, é um facto, mas desistir de viver agora? Passei uma parte significativa da minha vida com ele a meu lado, embalou-me, fez-me rir e chorar e agora vai-se? O meu leitor de CDs é mais ou menos como os companheiros de vida: recusam-se a fazer o que queremos, eventualmente uma inverdade aqui ou acolá, mas o coração é um rapaz em quem não se pode confiar e continuamos a chamar-lhes meu xuxuzinho, meu bichinho, morzinho, para quem é de amor, amor da minha vida, para os menos exuberantes, e outros epítetos tão açucarados que provocariam coma a qualquer um. Assim é o meu leitor de CDs: pantomineiro, maniento, só toca o que quer, quando quer e como quer, às vezes solta umas mentiras, faz-se de surdo e de doente Ai que se me doem os botões mas eu continuo a gostar dele e, tal como aos maridos ou quejandos, essa é a única razão pela qual não o mando borda fora Xô, bicho do inferno! Quem sabe não encontraria alguma que lhe compreendesse as manhas. foto: minha
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Monárquicos e Republicanos
E na sequência desta decisão que temos entre mãos, e depois de consultar sites, ter ido às agências de viagens e ter voltado carregada com mais uma quantidade de folhetos para casa, a conversa pela hora de almoço estacionou lá para o lado das Caraíbas. Preços, locais, Havana outra vez e talvez um Cayo, Coco ou Largo, Varadero nem sequer foi uma questão. Eu gostava de voltar a Havana, disse o meu companheiro de viagens e de vida, eu também e de repente logo o plano traçado, íamos ao Floridita, claro, acrescentei, será que ainda lá está aquele homem dos olhos claros? E isto porque em Cuba, há olhos que nos agarram como ímanes, masculinos ou femininos, e dos quais apenas por vergonha ou pudor conseguimos desviar o olhar, são olhos que nos sugam no contraste com a tez morena e a que resistimos nem sabe bem porquê. Perder-se-iam horas talvez contemplando o olhar, sem mais. E o périplo continuou, certamente iríamos à Bodeguita del Médio, mesmo reconhecendo que o melhor mojito que bebemos foi num restaurante em frente ao hotel Las Bullerias. Ainda atarantados pelas longas horas de voo, saímos já tarde, onze e meia talvez, e no ímpeto de me mergulhar na fragrância da hortelã mesclada com o perfume do rum, Havana Club, pois claro, e para apaziguar o calor intenso e húmido que se fazia sentir, tomámos o nosso primeiro mojito a dois. O coração é traiçoeiro, é sabido, ficou-me por apurar se a companhia o teria feito tão sublime ou se naquele local se faziam os melhores mojitos da cidade. E de repente, íamos já a passear no Malecón a esta hora da conversa, quando voltámos atrás e regressámos à Plaza de las Armas. Mas já fomos a Cuba, acrescentei, se fosse outro sítio? Desfiei o rosário das viagens, mais uma vez, com os respectivos preços. Olha, a República Dominicana é que não está caro… Mas também quem é que quer ir para a República? Os monárquicos certamente que não, concluiu a minha mãe peremptória perante a evidência, o que me levantou um dilema com o qual luto arduamente. Tendo em conta que a República Dominicana será o último dos últimos dos ultiminhos destinos de férias, eventualmente nem sequer uma opção a considerar, serei monárquica?
quarta-feira, 16 de maio de 2007
terça-feira, 15 de maio de 2007
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Feriado à quinta
Feriado à quinta-feira é bom. Estava tudo a suspirar, bufar e maldizendo a vida na quinta-feira ao último tempo da tarde. Sabe deus, alá e jah como é árduo ter aulas até às 18.30: os alunos estão saturados, os professores pelos cabelos, o cansaço do dia acumula-se nos ossos, na alma, no corpo e, quando se tem aulas desde o primeiro tempo da manhã, não se espera que estejamos as mais frescas criaturas. Assim é, nada a fazer. Na sala de professores, o ar estava abafado também da acumulação de odores e humores de um dia inteiro de trabalho e penúltimo da semana. Os humores revelam-se mais perigosos nos dias que correm e, caso o chi não consiga fluir por aquele espaço, temo pela vida futura de alguns de nós.
A conversa estava tranquila até ter chegado uma colega Dois blocos de Português seguidos é muito! Ah pois é. Acrescentei E dois de Inglês? E De Alemão? As colegas de Informática completaram E três de TIC? A recém-chegada colega não se deu por achada Mas eu já cá ando há muito tempo… Pois, fazer o quê? Sim, já cá ando há 32 anos… ah pois, pensei, e ela continuou a dar-lhe E sempre a dar aulas!!!! Aí foi-se-me a paciência e questionei-a Mas o que é querias ter feito? No meu horizonte não vislumbro outra coisa que os professores possam fazer, certamente terá sido o fascínio da sala de aula e de partilha de saberes que nos terá levado a escolher a profissão Ah, respondeu empertigada olha, podia ter feito outra coisa, há pessoas que não deram aulas. Lamento a minha falta de compreensão, mas na verdade professor dá aulas, se quisesse fazer outra coisa tinha abraçado outra carreira. Ela continuou mas há gente que fez outras coisas e não deu aulas… Estava presente uma colega que esteve anos largos no Conselho Executivo e por quem tenho a maior estima. Acrescentou a propósito Olha, como eu… que estive lá em cima sentada sem fazer nenhum e agora tenho mais pontos que toda a gente, concordei, exactamente, estão lá para cima sentadinhos e agora é só pontos e claro que a conclusão desta conversa só podia ser uma larga risada. A outra debandou, a conversa retomou o seu ritmo tranquilo e bem disposto. A paciência começa a faltar-me para gente que se acha mais sacrificada do que os outros, que trabalha mais do que os outros, que se acha mais do que toda a gente e imputa culpas a outrem de coisas de que ninguém tem culpa. Por isso é muito bom ter feriado à quinta.
A conversa estava tranquila até ter chegado uma colega Dois blocos de Português seguidos é muito! Ah pois é. Acrescentei E dois de Inglês? E De Alemão? As colegas de Informática completaram E três de TIC? A recém-chegada colega não se deu por achada Mas eu já cá ando há muito tempo… Pois, fazer o quê? Sim, já cá ando há 32 anos… ah pois, pensei, e ela continuou a dar-lhe E sempre a dar aulas!!!! Aí foi-se-me a paciência e questionei-a Mas o que é querias ter feito? No meu horizonte não vislumbro outra coisa que os professores possam fazer, certamente terá sido o fascínio da sala de aula e de partilha de saberes que nos terá levado a escolher a profissão Ah, respondeu empertigada olha, podia ter feito outra coisa, há pessoas que não deram aulas. Lamento a minha falta de compreensão, mas na verdade professor dá aulas, se quisesse fazer outra coisa tinha abraçado outra carreira. Ela continuou mas há gente que fez outras coisas e não deu aulas… Estava presente uma colega que esteve anos largos no Conselho Executivo e por quem tenho a maior estima. Acrescentou a propósito Olha, como eu… que estive lá em cima sentada sem fazer nenhum e agora tenho mais pontos que toda a gente, concordei, exactamente, estão lá para cima sentadinhos e agora é só pontos e claro que a conclusão desta conversa só podia ser uma larga risada. A outra debandou, a conversa retomou o seu ritmo tranquilo e bem disposto. A paciência começa a faltar-me para gente que se acha mais sacrificada do que os outros, que trabalha mais do que os outros, que se acha mais do que toda a gente e imputa culpas a outrem de coisas de que ninguém tem culpa. Por isso é muito bom ter feriado à quinta.
sábado, 12 de maio de 2007
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Proteias escarlate, margaridas bordeaux, rosas vermelhas
Exactamente à hora de ponta. Flores, gente, despojos de arranjos, velas e candelabros, mulheres que corriam de um lado para o outro, o irmão que refilava com a irmã, mãe com a filha e os empregados e as flores num vai-vem estonteante. Percebi que de todas as horas aquela seria a menos certa, a mais incómoda. A rapariga desculpou-se. Passou a encomenda para uma senhora tranquila de meia-idade com pronúncia saloia cerrada. Rosas vermelhas? Sim. Margaridas bordeaux? Sim. E proteias também. E recolhidas a um cantinho da loja, pouco a pouco, o arranjo tomou forma. E depois a senhora perguntou como ficaria melhor, acrescentando que era para o cemitério e eu a recorrer aos óculos de sol para esconder os olhos marejados de lágrimas. A falta do meu pai. A ausência. As flores para o meu pai. O nome do meu pai inequívoco no granito negro. A rapariga acrescentou que arranjava as flores pensando nas pessoas em vida, nas flores que e como as pessoas gostariam, as flores deviam homenagear a vida. Concordei, mesmo sabendo que pedir flores para o meu pai como eu acho que ele gostaria e para celebrar a sua vida, o dia em que nasceu, não o que partiu é tão pouco, uma panaceia tola, um engano débil e tonto para esta saudade sentada em mim, lentamente em silêncio, sem acabar dia algum.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
quarta-feira, 9 de maio de 2007
terça-feira, 8 de maio de 2007
Miúdos barbados
O Jonas é um marmanjo de dezanove anos, tem barba e senta-se na primeira carteira da fila do meio. É um conversador nato, intrépido e incansável, tem sempre histórias e aventuras, o skate e a música, os Festivais de Verão e a Quinta-feira da Espiga, e mesmo se advertido e quando admoestado faz um ar contristado manifestando o seu evidente desagrado por ter sido chamado à atenção. Regra geral, olha-me com ar escandalizado, pergunta que é que eu fiz agora, stora? Abre os braços e encolhe os ombros ao mesmo ritmo e depois arruma-se na carteira. Jamais se resigna. Desde quando falar com o colega do lado direito, do lado esquerdo e de trás é motivo para admoestação? Exigentes, estes professores. Separei-o do colega do lado certo dia, e, assim que me virei, o Jonas já estava acompanhado de outro marmanjo de dezanove anos também que me sorria como um miúdo que acaba de fazer uma traquinice. Tudo muito certo, não estivesse numa turma de décimo primeiro ano e os dois não fossem os mais velhos logo a seguir a mim. Mais uma admoestadela, mais uma chamadela de atenção, o colega continua com sorriso malandro, vai de volta para o lugar de onde veio e o Jonas arranja maneira de encetar conversa com mais alguém à frente, ao lado, atrás.
Um destes dias, quando a minha paciência estava rarefeita e o Jonas tinha o telemóvel bem visível em cima da secretária, tirei-lho sem mais avisos e coloquei-o sobre a minha secretária. O Jonas abriu os braços num acto de desespero, mais uma vez vítima da injustiça da professora de Inglês. Pediu explicações mas porquê, stora? mesmo sabendo que não é permitido o uso do telemóvel nas aulas. Lá papagueei umas consideraçõezitas acerca do que é ou não apropriado na sala de aula e a aula propriamente dita começou, não sem ser interrompida pela pedinchice e súplica ladainhenta Ó stora, vá lá… stora, por favor, stora... A stora a tudo disse não, ou não fosse regra básica da educação. Lá mais para o fim da aula e quando estava tudo relativamente concentrado o Jonas interveio mais uma vez. Desta feita tinha olhinhos doces, o tom de voz açucarado e algo arrastado. Lancei-lhe o olhar impaciente Chega, acabou, NÃO! Dera-se por vencido aparentemente Não stora, não é isso… Sim, o que foi então? retorqui Stora? Sim, sou eu! Sim?! Suplicou reincidente fazendo uso das mais variadas técnicas de manipulação Stora, veja só se recebi alguma mensagem, por favor, stora… ainda perguntei se queria que respondesse também mas isso ele já achou confiança a mais. Onde é que já se viu professora mais abusada?
Um destes dias, quando a minha paciência estava rarefeita e o Jonas tinha o telemóvel bem visível em cima da secretária, tirei-lho sem mais avisos e coloquei-o sobre a minha secretária. O Jonas abriu os braços num acto de desespero, mais uma vez vítima da injustiça da professora de Inglês. Pediu explicações mas porquê, stora? mesmo sabendo que não é permitido o uso do telemóvel nas aulas. Lá papagueei umas consideraçõezitas acerca do que é ou não apropriado na sala de aula e a aula propriamente dita começou, não sem ser interrompida pela pedinchice e súplica ladainhenta Ó stora, vá lá… stora, por favor, stora... A stora a tudo disse não, ou não fosse regra básica da educação. Lá mais para o fim da aula e quando estava tudo relativamente concentrado o Jonas interveio mais uma vez. Desta feita tinha olhinhos doces, o tom de voz açucarado e algo arrastado. Lancei-lhe o olhar impaciente Chega, acabou, NÃO! Dera-se por vencido aparentemente Não stora, não é isso… Sim, o que foi então? retorqui Stora? Sim, sou eu! Sim?! Suplicou reincidente fazendo uso das mais variadas técnicas de manipulação Stora, veja só se recebi alguma mensagem, por favor, stora… ainda perguntei se queria que respondesse também mas isso ele já achou confiança a mais. Onde é que já se viu professora mais abusada?
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Panaceias

Isto começa lá para meados de Janeiro
quando o frio se torna insistente.
Primeiro são as fotografias do Verão anterior.
Depois vem a música.
quando o frio se torna insistente.
Primeiro são as fotografias do Verão anterior.
Depois vem a música.
A seguir, bebe-se uma caipirinha.
E assim se vai vivendo de panaceias
para acalmar as vontades.
E assim se vai vivendo de panaceias
para acalmar as vontades.
domingo, 6 de maio de 2007
sexta-feira, 4 de maio de 2007
terça-feira, 1 de maio de 2007
Conversas além
Oh, senhor Joc, por aqui? Perguntou o meu pai. Chega a hora de todos, como sabe respondeu o senhor Joc lacónico. É verdade, mas também lhe digo, senhor Joc, viver assim não era viver atirou-lhe o meu pai, resignado com a sua nova vida Sofrer não vale a pena. O senhor Joc concordou, não estava muito palavroso, ainda atordoado pela viagem. O meu pai, por seu lado, tinha já tido o seu tempo de adaptação e agora corria levezinho pela eternidade. Pensou consigo O Joc hoje não está para conversas… mas estava curioso e quis saber mais E diga-me, como estão as coisas lá por baixo? O senhor Joc encolheu os ombros, terá pensado Mas logo quem eu havia de encontrar… e balbuciou algo acerca das dificuldades da vida terrena. O meu pai continuou Então, e diga-me, senhor Joc, a empresa? Têm enviado as boas festas à minha mulher? Continuam a levar-lhe um bolito rei pelo Natal? O senhor Joc ruborizou um pouco, na eternidade não há mentiras, portanto, entre dizer a verdade, afirmando que a empresa a que o meu pai deu a vida e foi explorado até ao tutano, o que certamente terá acelerado a sua doença, não mais quis saber da minha mãe e engendrar-lhe uma desculpa, preferiu a omissão e emitiu uns sons imperceptíveis. O meu pai pensou Joc, Joc, estás-me a mentir, Joc e insistiu Têm-lhe levado o bolito rei? É que o senhor sabe, não é pelo bolo-rei, ela nem é muito apreciadora, é mais pela atitude, compreende… O senhor Joc desculpou-se com a crise e o deficit. O meu pai murmurou Palavra de honra, não têm vergonha… não me diga que não têm uns tostões para isso? Nem um telefonema, um cartão de boas festas? O senhor Joc empalideceu. O meu pai disse-lhe Já quando eu lá estava, tinha chamado atenção por causa do Vaz, o homem reformou-se e nem uma palavra… mas também o que seria de esperar? O senhor Joc neste ponto estava já sem palavras e carecido de desculpas plausíveis para a indelicadeza. O meu pai insistiu com as notícias da vida terrena E ouvi dizer por aí que o Sócrates não é engenheiro afinal e que andou a mentir… Pois, pois, parece-me que sim. O senhor Joc pensou Mas o homem que nunca mais se cala… e resolveu questioná-lo também Então e o senhor, como se tem dado por aqui? O meu pai respondeu lesto Olhe cá vou... O São Pedro não me larga com o Boletim Celestial, faço-lhe a revisão, sabe? É erro que ferve e muito bem escreve ele para quem foi pescador, coitado, sem instrução. Claro que a convivência com o JC também o ajudou mas desde que o João Paulo II chegou cá cima, nem lhe digo nada… o boletim vai de mal a pior! Olhe, até parece o pasquim lá da terra… É tudo contra o aborto e o uso do preservativo… Quando eu vim já estávamos no século XXI, caramba, depois admiram-se das igrejas estarem vazias. Santo Deus! Ele e a irmã Lúcia andam sempre a cochichar. Foi um alívio para a mulher, coitada, ao menos aqui sempre pode falar. Às vezes para desanuviar, vou ali dar uma palavrinha ao Cunhal, e lá está ele sempre com a União Soviética. A URSS isto e a URSS aquilo... Anda para aí à procura do Lenine mas ele foi com o Che Guevara para o Primeiro de Maio lá para as portas do Inferno. O senhor Joc pensou Mas o homem não pára de falar?!O meu pai despediu-se do senhor Joc, delicadezas e salamaleques adequados à estirpe do recém-chegado e que sempre pautaram as relações de ambos. Na eternidade há liberdade e, na liberdade do meu pai, o senhor Joc não estaria certamente incluído. Bastaram-lhe as palmadinhas nas costas em tempo de vida. Agora que procurasse outro. Não há mal que sempre dure.
Do primeiro de Maio
Nem tudo era mau na União Soviética. Se alguém viesse hoje ter comigo e me oferecesse trocar os vinte e cinco anos na Moscovo socialista por cinquenta anos nas praias do Havai, eu recusaria. No socialismo, eu conheci a utopia como a única realidade possível, que se transformou perante os nossos olhos numa farsa teatral. Inicialmente parecia muito realista, muito viva, mas cada vez mais a luz falhava, os actores esqueciam o texto, a música repetia-se e, de repente, a casa inteira desmoronou-se, estávamos num palco construído por uns malucos quaisquer sobre uma região pantanosa. Uma experiência assim permanece durante muito tempo. Passaram já uns bons 16 anos, a minha saudade da utopia aumentou, contudo. Procuro a utopia e escrevo afincadamente sobre ela. E, por favor, sobre o que é que eu teria para escrever no Havai? Uma análise do protector solar? Vosso
Kaminer
Wladimir Kaminer nasceu em 1967 na União Soviética. Vive em Berlim desde 1990 e tem uma vasta obra publicada sobre as suas vivências na União Soviética e as suas impressões da vida em Berlim. O humor e o poder de observação são duas peças fundamentais na sua obra.
segunda-feira, 30 de abril de 2007
sábado, 28 de abril de 2007
Ostras e pérolas
Em conversa com uma aluna sobre Roma, e no rescaldo de uma visita em comum a Munique, ela foi assertiva ao afirmar que tinha preferido algumas coisas de Munique, não haver prédios altos, por exemplo. Perorámos entretanto sobre o facto de a cidade ter sido destruída durante a 2ª Guerra Mundial, estima-se entre 80 a 90%, e informei-a ainda sobre as leis muito restritivas no que respeita ao planeamento urbano da cidade, nomeadamente, à proibição de construir mais alto do que as torres de Frauenkirche no centro da cidade, assim me disseram também no passado. Como futura estudante de arquitectura, as questões do planeamento urbano despertam-lhe o interesse e, durante os dias de Munique, andou encantada com a arrumação e organização da cidade, os espaços verdes como entremeios na cidade.Voltámos a Roma e ela rematou É que não é como Roma, aquela fonte muito conhecida… é só prédios à volta e nisto a voz esganiçou-se na indignação. Puxei, por espaços ínfimos de segundo pela memória, e fonte alguma me ocorria que tivesse visto em Roma que fosse ladeada por prédios. Ela continuou na tentativa de explicar, uma vez que se lhe tinha varrido o nome e, depois de algumas tentativas, cheguei à conclusão que se tratava da Fontana di Trevi. Prédios? Por prédios não iria lá, de facto. Prédios para mim são atentados de betão decorados com marquises de alumínio de roupa pendurada do lado de fora como picot kitsch num pano de louça, oferecendo-se aos transeuntes. Para ela apenas casas altas encavalitadas. E depois, a conversa continuou em torno de uma das mais conhecidas, talvez a mais conhecida fonte de Roma, imortalizada no cinema com La Dolce Vita e posteriormente vinda a público ao se descobrir que um homem sobrevivia, vivia e sustentava uma numerosa família com a receita da Fonte, ao recolher as moedas que os turistas ingénuos ou apenas turistas arremessavam para o fundo das águas luminosas na esperança de melhores dias bafejados pela sorte. Esta seria a segunda vez que a Fontana di Trevi era acusada de estar encafuada num espaço ínfimo para a sua grandiosidade e, hoje ao abrir os jornais pela manhã, dei-me conta de uma opinião semelhante.
Viajar é sentir e, nos sentimentos, não há certo nem errado, mas a Fontana de Trevi separa-me dos demais em matéria de opinião. Na verdade, apenas conhecia imagens da fonte, desconhecia a sua localização exacta. Imaginava-a num praça arejada, talvez semelhante à Piazza Navona. Quando, seguindo as indicações e o mapa e depois de percorrer ruelas estreitas, me deparei com a fonte, fiquei literalmente boquiaberta. Ao contrário de outros monumentos também na Cidade Eterna e noutros lugares do mundo, a praça recolhe-se, não se deixa adivinhar de lado algum, uma pérola escondida da superfície rugosa e irregular da ostra que a protege e envolve. Também por isso é tão bela.
foto: minha
sexta-feira, 27 de abril de 2007
E agora, Maria?
Sempre o meu pai, saudozei-o, chorei a sua ausência, queixei-me da minha mãe, falei do Hélder, confessei o meu amor ao Brasil, maldisse o o país direitão*, o portugal dos pequeninos, chamei cromo ao primeiro-ministro, armei-me em poetisa de vão de escada, confessei o inconfessável, mostrei este coração, desvelei este de professora, emocionei-me com encontros de longe e carinhos constantes, perorei sobre o Estatuto da Carreira Docente, mostrei a trunfa, queixei-me dos conterrâneos em território nacional e estrangeiro, contei estórias de livros e autores, dei a ler as minhas aventuras na mercearia e outros episódios da aldeia, disse mal da vizinha, narrei as aventuras da vida de professor, falei de gajos, contei estórias dali, daqui e dacolá, houve estórias com música, estórias com livros, estórias tristes, coisas de gaja e incertezas. E agora, o que há mais?
* obrigada, Gláucia :)
quinta-feira, 26 de abril de 2007
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Tanto Mar
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.
Chico Buarque (1978)
E mesmo sentindo que murcharam nossa festa,
que sejam lembradas as portas que Abril abriu.
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.
Chico Buarque (1978)
E mesmo sentindo que murcharam nossa festa,
que sejam lembradas as portas que Abril abriu.
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Dia Mundial do Livro
Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo — não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos —, vamos regressar.
Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote.
Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote.
imagem: Carlos Ruiz Zafón
domingo, 22 de abril de 2007
Achamento

De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muio chã e muito formosa. (...) Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Pero Vaz de Caminha, Carta do Achamento.
Foto: (minha) Coroa Vermelha, Bahia
Assim começou há 507 anos o país que também sou.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Algo está mal
A quinta-feira ao fim de tarde convidava à indolência do dever acabado de cumprir. O dia quente ainda, o ocaso ainda longe, e a sala de professores finalmente tranquila depois do toque de entrada. A conversa entabulou-se displicente na proporção certa do momento de merecida descontracção. Duas quarentinhas, eu incluída, e um professor de Educação Física cuja idade desconheço nem consigo avaliar com precisão mas que certamente se colocará para lá das três décadas de vida. Aos quarenta anos as conversas são como as adiposidades: concentram-se nas ancas e, portanto, cada uma se queixou à medida das mesmas. Ai isto, ai aquilo, mas tu assim, mas tu assado, e no ginásio isto e depois a conversa de sempre o que não gostaríamos de ter, coisa que me parece também típica desta faixa etária. Resignadas com a força da gravidade e o bolo de chocolate que se agarrou às coxas que nem lapa, o que queremos mesmo é não ter: não ter celulite, não ter pneus, não ter estas protuberâncias nas coxas que nos atiram para um tamanho de calças acima, não ter rugas. Não ter, portanto. O colega de Educação Física, não se sabe se apenas por cortesia, foi lentamente convencendo as presentes que enfim, exercício era fundamental e necessário para uma vida saudável, mas que certamente o corpinho dos vinte não era o dos trinta, o dos trinta igual ao dos quarenta, que as condições de vida mudam, as pessoas têm outro hábitos e por aí fora. Muito simpático e sensato, coisa rara nos dias que correm. Depois foi dando exemplos e dizendo que os corpos muito cuidados são por vezes resultado de uma vida diletante, em que o tempo abunda, outros recursos provavelmente também. As figuras que surgem nas capas de revista tomaram a conversa de assalto por instantes. Nesta fase, já tinha arrumado os livros junto à mala, preparava-me para sair e neste mesmo instante rematei que já tinha, por acaso, visto a personagem em causa na praia e que tinha uma cor amarelenta nojenta, cor de morto, pardacenta. Nisto entrou uma outra colega e sem mais perguntou Estás a falar da Ministra? Há vida para além da Ministra respondi e com esta aconcheguei os livros junto ao corpo, a mala pendurada no ombro e despedi-me do dia no local de trabalho. Na verdade, o que disse é exactamente o que quero dizer, há vida para além da ministra, há vida para além do canudo do Sócrates, e essa é muito mais importante e gratificante do que aqueles dois cromos que assolam os sonhos e pesadelos dos professores e portugueses. Quando assim não é, algo está mal, muito mal.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
terça-feira, 17 de abril de 2007
Pés que me levam
E de tronco deitada no colchão, as costas firmes contra o chão, as pernas erguidas em noventa graus e na extremidade algo que sempre tive como meu e que, de repente, desconheço como sempre me ter pertencido. Do meu pai serão os pés que sempre tive como meus. Semelhanças inequívocas. São meus, aqueles pés? São teus. Esses pés com que caminho são os teus. Os mesmos dedos compridos, o segundo levemente maior que o dedo grande, o peito do pé apenas levemente saliente, algo desprovido de carnes, a mesma textura e tom de pele, um osso que sobressai, a mesma covinha no início do tornozelo. Nos teus pés trilho o meu caminho, meu pai, um caminho nosso percorrido com a tua presença em mim.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Köszönöm
Acaso. Coincidência. Casualidade. Tranquilamente no quarto de hotel após um dia longo de deambulação por Budapeste, precedido de outros dois igualmente preenchidos, abandonei o guia de viagem de letras puídas pelas leituras sucessiva e fiquei entregue aos canais de televisão oferecidos: quatro nacionais, uns quantos alemães e o americano de sempre. No pequeno ecrã de televisão na cómoda ao fundo da cama resolvi entregar-me à aventura alquímica das línguas desconhecidas. Era noite já. Na fresta da janela do quarto não se vislumbrava réstia de luz. Daquele lado da Europa e no último mês do ano, o sol é preguiçoso e tímido.
O dia anterior anunciara o acontecimento quando, na Praça dos Heróis, os ensaios militares da cerimónia fúnebre tomavam conta de uma parte da praça, inquietando e restringindo o périplo dos turistas curiosos, sempre à espera de uma oportunidade para aquela foto panorâmica sem muita gente, o Monumento milenar com a coluna bem centrada, e a própria praça flanqueada por duas galerias de inspiração grega. Não seria naquele dia, por certo, mesmo que o céu azul e a luminosidade do zénite augurasse a fotografia perfeita. Outro dia talvez.
No próprio dia, a cidade engalanada com faixas negras e o perímetro da Catedral de Santo Estêvão delimitado por polícias para quem o inglês era aparentemente tão estranho e incompreensível como o magiar para os portugueses. E magiar, porque a sonoridade da palavra remete no inconsciente para a magia subjacente a uma cidade grandiosamente silenciosa e sedutora, a magia que irradiam os olhos azuis profundos em contraste com os cabelos ora muito escuros ora alvos da passagem do tempo de um povo afável, dono como poucos da sua cidade salpicada aqui e ali de bancos de jardim permitindo adivinhar que aquela cidade é de quem lá vive e se entretém num banco de jardim na languidez do quotidiano mesmo de costas viradas para o Danúbio. Ficaria, pois, adiada uma visita mais prolongada e tranquila à Catedral.
As cerimónias tomavam lugar num início de noite sem luar. Primeiro no estádio do Ferencváros. Depois o cortejo até à Catedral de Santo Estêvão, onde Puskás seria sepultado e isto não porque entendesse os discursos e a locução, mas porque as imagens não deixavam dúvidas. Mesmo experimentando infantilmente associar a imagem ao som, nada, à excepção de três palavras faziam sentido no labirinto de uma língua ininteligível: Köszönöm, Puskás Ferenc.
Zsoze Kósta descreveu magistralmente as dificuldades da língua magiar, avisara ser a única que o diabo respeita, e, ao afirmar que sem a mínima noção do aspecto da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a uma faca, deixou-me mais uma vez com a certeza que as mais preciosas impressões de viagem são as que vêm em livros prenhes com o toque mágico do escritor, não irmanam lado a lado, no mesmo escaparate de qualquer livraria, com as lombadas coloridas dos quatro cantos do mundo. Köszönöm, Zsoze Kósta! Obrigada, Chico Buarque!
O dia anterior anunciara o acontecimento quando, na Praça dos Heróis, os ensaios militares da cerimónia fúnebre tomavam conta de uma parte da praça, inquietando e restringindo o périplo dos turistas curiosos, sempre à espera de uma oportunidade para aquela foto panorâmica sem muita gente, o Monumento milenar com a coluna bem centrada, e a própria praça flanqueada por duas galerias de inspiração grega. Não seria naquele dia, por certo, mesmo que o céu azul e a luminosidade do zénite augurasse a fotografia perfeita. Outro dia talvez.
No próprio dia, a cidade engalanada com faixas negras e o perímetro da Catedral de Santo Estêvão delimitado por polícias para quem o inglês era aparentemente tão estranho e incompreensível como o magiar para os portugueses. E magiar, porque a sonoridade da palavra remete no inconsciente para a magia subjacente a uma cidade grandiosamente silenciosa e sedutora, a magia que irradiam os olhos azuis profundos em contraste com os cabelos ora muito escuros ora alvos da passagem do tempo de um povo afável, dono como poucos da sua cidade salpicada aqui e ali de bancos de jardim permitindo adivinhar que aquela cidade é de quem lá vive e se entretém num banco de jardim na languidez do quotidiano mesmo de costas viradas para o Danúbio. Ficaria, pois, adiada uma visita mais prolongada e tranquila à Catedral.
As cerimónias tomavam lugar num início de noite sem luar. Primeiro no estádio do Ferencváros. Depois o cortejo até à Catedral de Santo Estêvão, onde Puskás seria sepultado e isto não porque entendesse os discursos e a locução, mas porque as imagens não deixavam dúvidas. Mesmo experimentando infantilmente associar a imagem ao som, nada, à excepção de três palavras faziam sentido no labirinto de uma língua ininteligível: Köszönöm, Puskás Ferenc.
Zsoze Kósta descreveu magistralmente as dificuldades da língua magiar, avisara ser a única que o diabo respeita, e, ao afirmar que sem a mínima noção do aspecto da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a uma faca, deixou-me mais uma vez com a certeza que as mais preciosas impressões de viagem são as que vêm em livros prenhes com o toque mágico do escritor, não irmanam lado a lado, no mesmo escaparate de qualquer livraria, com as lombadas coloridas dos quatro cantos do mundo. Köszönöm, Zsoze Kósta! Obrigada, Chico Buarque!
foto: minha
domingo, 15 de abril de 2007
(...)
O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente? Livros, claro, foi para isso que me mandaram para o meio de vós. Quando isto sucedeu lutava com um, tinha outro pronto, já antigo, pronto há um ano e tal, para Outubro. Para dar tempo aos tradutores de o traduzirem e saírem mais ou menos na mesma altura que em Portugal. Esse livro tem a melhor prosa que fiz até hoje, parece recitado por um anjo. Aquele em que trabalhava é apenas um embrião, cerca de metade do primeiro esboço, falta-lhe quase tudo. A partir de agora, se calhar, falta-lhe tudo. Voltarei a ele? Uma coisa de cada vez, não é Henrique? Vamos a ver. De uma forma ou outra a gente luta sempre. Momentos de quase esperança, momentos de desânimo. Não: momentos de muito desânimo e momentos de desânimo maior, Como se me obrigassem a escolher entre o que não vale nada e o que vale ainda menos. Este mês deram-me um prémio literário. Estão sempre a dar-me prémios e claro que tenho prazer nisso, não sou mentiroso nem hipócrita. Toda a gente foi muito simpática.
e sem que eles sonhassem
(sonhava eu)
o cancro
ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não - sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.
e sem que eles sonhassem
(sonhava eu)
o cancro
ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não - sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.
António Lobo Antunes, "Crónica do Hospital"
“Visão”, 12 de Abril 2007
sexta-feira, 13 de abril de 2007
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Alunos que ficam
O meu pai recordou até ao fim dos seus dias uma das alunas que mais admirava pela escrita desde tenra idade. Com o tempo, o talento dessa aluna desvelou-se na esfera pública e, da aluna muito tímida, nasceu a escritora. Tanto ele como a minha mãe seguiram o percurso da sua aluna. Ambos recordavam na conversa um com o outro as composições sem mácula numa escrita escorreita e irrepreensível. Conta a minha mãe que o meu pai, tendo sido professor da Hélia, assim é chamada lá em casa, antes da minha mãe, teria ficado de tal forma encantado com a escrita da sua aluna, que não hesitara em partilhá-la com a minha mãe, ainda antes da sua vinda para Mafra. Assisti várias vezes a esta conversa, assunto recorrente, esse tal texto que nunca li mas que marcara para sempre a vida dos meus pais. Cresci com ele, de certa forma, mesmo sem nunca o ter lido. O meu pai nutria pela Hélia um carinho imenso, recíproco, reencontrou-a cá em Mafra numa ocasião solene e ficou embevecido com a ternura da sua sempre aluna, escritora de renome então, mas que regressava aos seus professores com a humildade de sempre, a simplicidade de sorriso infantil e genuíno que a caracteriza. Para o meu pai, os afectos sempre foram a linguagem única do coração, a razão pura da existência. Tinham, para ele, portanto, muito significado as manifestações de afecto e ternura. A minha mãe segue atenta os passos da Hélia, orgulhosa da sua aluna, o carinho sempre presente. Raramente se encontram, mas a Hélia não se esquece dos seus professores, manda cumprimentos e beijinhos. Perdoar-me-ão pois que tenha ficado tão sensibilizada com isto que a própria Hélia se encarregou de fazer chegar à minha querida mãe e que o divulgue aqui. Onde estiver, o meu querido pai sorrirá mais uma vez babado com a sua eterna aluna. Da minha querida mãe ouvi a voz embargada e adivinho-lhe os olhos humedecidos. Esta será a mais bela homenagem que os alunos podem fazer aos seus professores e a mais plena que uma filha pode testemunhar. Obrigada, Hélia.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
A vida por um canudo
O José era mais velho do que quase todos nós. Contavam-se pelos dedos, à data, os estudantes que teriam ultrapassado a idade média dos estudantes da Faculdade de Letras. Era casado, tinha um filho, uma vida muito mais complexa do que a dos restantes, com responsabilidades desconhecidas da maioria dos colegas e ousara fazer aquilo que nunca ninguém antes tinha feito na sua família: estudar. Fazia enormes e louváveis sacrifícios para que o seu sonho tomasse forma e, durante aqueles quatro anos de faculdade e dois de estágio imediatamente a seguir, nunca o vi de braços cruzados perante qualquer situação. Provinha da Beira Litoral, não que eu o reconheça como condição sine qua non para a voz corpulenta e estridente, mas avisava frequentemente, mais quando a vida não lhe corria a contento, que era da praia e com isto arrumava alguns dos assuntos. Depois da conclusão do curso, cada um seguiu a sua vida, como acontece geralmente. O José regressou à praia, ufano pelo seu feito, com todo o mérito, pois claro. Num encontro posterior relatou-me um episódio que recordo até hoje. Certo dia na aldeia lá da praia, chegou-lhe aos ouvidos que a dona da mercearia andava a duvidar de que ele tivesse concluído os estudos e a espalhar o boato pelas gentes ribeirinhas. O José tomou-se furioso de razões, compreensivelmente depois de tanto sacrifício. Certo dia, aparece na mercearia, para pedir explicações à mulher. Sim, afinal, como é que era? Então você anda a dizer que eu não acabei o curso? Algo me diz que nesta parte da contenda terá questionado se a mulher achava ele que não era doutor, e, sem mais demora, saca do certificado de habilitações e zás trás pás, esfregou-o na cara da caluniadora. Contou-me ele mesmo que lhe terá dito que ainda tinha outro em latim, uma referência directa ao canudo propriamente dito, aposto que até teria causado outra impressão na dona da mercearia com o selo e o lacre, mas que ela não percebia aquela língua. Além de alcoviteira era ignorante. A dona da mercearia da aldeia da praia ficou entupigaitada. O José tranquilo por ter reposto a verdade e recuperado a sua reputação de homem letrado com certificação. Não querem lá ver isto, duvidar de uma pessoa assim?
Vem isto a propósito do imbróglio em torno das habilitações de José Sócrates. Bem sei que o país não é Tibaldinho ou Carvalhal, mas também fica à beira-mar, que José Sócrates não vem da praia como o meu colega, agradeço que ninguém me esfregue com o certificado de habilitações na cara, muito menos que me arremesse com o selo do diploma, se não for doutor, engenheiro, arquitecto ninguém levará a mal, afinal nem todos somos como a dona da mercearia da aldeia da praia, mas uma coisa tenho como certa, mentir é muito feio, jamais se confiará em quem nos mente uma vez que seja, e quem não deve não teme, portanto, caro José Sócrates, em que é que ficamos?
Vem isto a propósito do imbróglio em torno das habilitações de José Sócrates. Bem sei que o país não é Tibaldinho ou Carvalhal, mas também fica à beira-mar, que José Sócrates não vem da praia como o meu colega, agradeço que ninguém me esfregue com o certificado de habilitações na cara, muito menos que me arremesse com o selo do diploma, se não for doutor, engenheiro, arquitecto ninguém levará a mal, afinal nem todos somos como a dona da mercearia da aldeia da praia, mas uma coisa tenho como certa, mentir é muito feio, jamais se confiará em quem nos mente uma vez que seja, e quem não deve não teme, portanto, caro José Sócrates, em que é que ficamos?
domingo, 8 de abril de 2007
Tempo perpetuado
Na Páscoa da minha infância na Beira Alta, algures numa encosta virada para o Dão, mora ainda a memória daquele Domingo de Páscoa. Cedo seria por certo, a idade permanece uma incógnita. Havia sol, as indumentárias deixavam inequívoca a solenidade aparente do momento, um ritual desconhecido que se adivinhava. Encontro-me numa casa cheia de adultos numa aldeia esquecida perto de Viseu, na sala austera perante a mesa posta com rigor carregada de doces, bolos, alguma fruta, a toalha alva, imaginada agora de linho. Esperava-se com algum alvoroço e, enquanto se esperava, a mesa permanecia inviolável aos olhos dos presentes, alvo da minha cobiça contida, porém. Assim permaneceu durante anos. A imagem da mesa, a espera interminável, o desejo de comiscar um ou outro bolo, de deitar a mão a um biscoito ali bem perto, o mistério da inviolabilidade da mesa. Mais tarde aparece o padre, dá o senhor a beijar, beijei-o também eu, o senhor, e depois foi-se, a mesa intocável e inatingível, algo que a minha percepção de criança não conseguiu nunca digerir. De seguida, uma comezaina ali perto num barracão que albergava muita gente. O padre, esquecido do pecado da gula, derrubava-se sem pudor sobre o opíparo almoço de Páscoa. Terá havido leite-creme e pão-de-ló com queijo da Serra, as estórias são um cozinhado ao qual se vão adicionando ingredientes na busca da perfeição, mas a mesa ficará para sempre intacta e alva, os bolos coloridos e decorados, as laranjas expectantes e o meu pai sempre comigo nesse tempo perpetuado pela memória.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Welcome to Portugal
Teremos aterrado em Lisboa uns quarenta minutos depois da hora prevista em virtude do atraso na partida em Munique. De resto, a partida de Lisboa foi também uma boa meia hora além do horário previsto. Um problema com um passageiro impediu que saíssemos a horas. Em Munique apenas fomos informados do atraso sem outras justificações. Resignados esperámos de banco em banco, uma volta pelas lojas, até que finalmente embarcámos.
No tempo previsto de voo regressámos a Lisboa. Seguiram-se os trâmites de saída e, mais de uma hora depois de desespero junto ao tapete de recolha de bagagens, as primeiras malas começaram finalmente a aparecer. Aos bochechos, pois claro. Mais uma hora talvez até que a última rodasse no tapete e que este se recusasse a continuar. De todas as minhas alunas, apenas uma não tinha a mala. Reparei que também vários outros passageiros estavam sem a bagagem. Esperámos algum tempo na esperança que o tapete rodasse de novo, mas nada, rigorosamente nada. O ecrã, que antes alardeava o número e proveniência do voo, tinha-se apagado sem mais. Adiante-se que não se avistava nada nem ninguém que pudesse informar se ainda iriam sair mais malas.
Dirigi-me ao balcão de perdidos e achados para fazer a reclamação e tirei um ticket. A fila imensa de viajantes irritados não augurava nada de bom. Número 188, assim dizia o dito ticket branco, muito animador, se tivermos em conta que o 172 estava a ser chamado no momento e que celeridade é conceito ausente naquelas bandas. Olhei em volta e avistei uma assistente de terra da transportadora lusa. Abordei-a, tal como outros recém-chegados, um de língua inglesa mostrava-se irritado, os alemães, que tinham vindo no mesmo voo, idem. A dita profissional disse tranquilamente que era assim, que às vezes as malas demoravam até duas horas a chegar, como se fosse normal, natural e nosso dever esperar sem mais, acrescentou que não sabia se as malas já tinham chegado todas, para irmos vendo e, espante-se, afirmou para rematar que não havia ninguém mais naquela zona do aeroporto para dar informações, portanto, nada como esperar na fila, quer tivesse de se fazer reclamação ou não. Foi-se na sua pose altiva, o cabelo empinocado, a cara transbordando de base, os saltos marcando o ritmo, zigzagueando por entre os passageiros exasperados e deixou cada um à mercê de si próprio. Belíssima impressão para quem chega a Lisboa ou a Portugal.
A minha aluna começava a ficar cada vez mais nervosa, perfeitamente normal nas condições e naquela idade, tentei acalmá-la e enquanto eu fiquei na fila, ela foi ao tapete para ver se, por um acaso e artes mágicas, a mala apareceria. Passado mais um tempo, reparei no passageiro alemão que acorria para o lado esquerdo. Segui-lhe os passos, e deparei-me com um monte de malas encostadas a uma parede. Procurei em vão, disse à minha aluna para lá ir, quando regressou. Nada. Mais um tempo na fila, mais umas quantas idas ao tapete e, nem sei quanto tempo depois, a garota aparece-me sorridente e aliviada com a mala na mão. Rumámos dali para fora.
Se este é o momento indicado no contexto actual para se construir outro aeroporto tenho muitas dúvidas, se a Ota deve ser o local apropriado duvido bastante, tendo em conta o que tem sido dito e escrito. De uma coisa não me restam quaisquer dúvidas: enquanto não houver respeito pelos passageiros, o profissionalismo, competência e eficiência dignos de um país que se quer civilizado, não há Ota que nos valha. Fiquem mesmo na Portela, sempre têm a desculpa que o aeroporto está a rebentar pelas costuras.
No tempo previsto de voo regressámos a Lisboa. Seguiram-se os trâmites de saída e, mais de uma hora depois de desespero junto ao tapete de recolha de bagagens, as primeiras malas começaram finalmente a aparecer. Aos bochechos, pois claro. Mais uma hora talvez até que a última rodasse no tapete e que este se recusasse a continuar. De todas as minhas alunas, apenas uma não tinha a mala. Reparei que também vários outros passageiros estavam sem a bagagem. Esperámos algum tempo na esperança que o tapete rodasse de novo, mas nada, rigorosamente nada. O ecrã, que antes alardeava o número e proveniência do voo, tinha-se apagado sem mais. Adiante-se que não se avistava nada nem ninguém que pudesse informar se ainda iriam sair mais malas.
Dirigi-me ao balcão de perdidos e achados para fazer a reclamação e tirei um ticket. A fila imensa de viajantes irritados não augurava nada de bom. Número 188, assim dizia o dito ticket branco, muito animador, se tivermos em conta que o 172 estava a ser chamado no momento e que celeridade é conceito ausente naquelas bandas. Olhei em volta e avistei uma assistente de terra da transportadora lusa. Abordei-a, tal como outros recém-chegados, um de língua inglesa mostrava-se irritado, os alemães, que tinham vindo no mesmo voo, idem. A dita profissional disse tranquilamente que era assim, que às vezes as malas demoravam até duas horas a chegar, como se fosse normal, natural e nosso dever esperar sem mais, acrescentou que não sabia se as malas já tinham chegado todas, para irmos vendo e, espante-se, afirmou para rematar que não havia ninguém mais naquela zona do aeroporto para dar informações, portanto, nada como esperar na fila, quer tivesse de se fazer reclamação ou não. Foi-se na sua pose altiva, o cabelo empinocado, a cara transbordando de base, os saltos marcando o ritmo, zigzagueando por entre os passageiros exasperados e deixou cada um à mercê de si próprio. Belíssima impressão para quem chega a Lisboa ou a Portugal.
A minha aluna começava a ficar cada vez mais nervosa, perfeitamente normal nas condições e naquela idade, tentei acalmá-la e enquanto eu fiquei na fila, ela foi ao tapete para ver se, por um acaso e artes mágicas, a mala apareceria. Passado mais um tempo, reparei no passageiro alemão que acorria para o lado esquerdo. Segui-lhe os passos, e deparei-me com um monte de malas encostadas a uma parede. Procurei em vão, disse à minha aluna para lá ir, quando regressou. Nada. Mais um tempo na fila, mais umas quantas idas ao tapete e, nem sei quanto tempo depois, a garota aparece-me sorridente e aliviada com a mala na mão. Rumámos dali para fora.
Se este é o momento indicado no contexto actual para se construir outro aeroporto tenho muitas dúvidas, se a Ota deve ser o local apropriado duvido bastante, tendo em conta o que tem sido dito e escrito. De uma coisa não me restam quaisquer dúvidas: enquanto não houver respeito pelos passageiros, o profissionalismo, competência e eficiência dignos de um país que se quer civilizado, não há Ota que nos valha. Fiquem mesmo na Portela, sempre têm a desculpa que o aeroporto está a rebentar pelas costuras.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
quarta-feira, 28 de março de 2007
Fechando o Verão
Primeiro o impacto das rodas na pista, o batimento cardíaco levemente acelerado e ainda a dúvida. Será? O corpo moído, os olhos morcegos habituados a onze horas de ausência da luz solar e, finalmente, ar livre e rua. A Cidade Maravilhosa amanhecera não havia muito. Talvez por isso tenha tomado por natural uma certa neblina. Certo é que raros são os postais reais e imaginários do Rio de Janeiro onde o céu e o mar não são assustadoramente azuis e belos, o verde, o contraste perfeito e o Cristo Redentor, pacífico e sereno abraçando a cidade lá em baixo, intocável, impassível perante a vida dos homens turbulenta tão abaixo do seu pedestal inabalável. Neblina, porquê, então? E depois rumámos pela Linha Vermelha para a Zona Sul. Pela janela, ia procurando. Nada. E depois no hotel a conversa para casa e a pergunta facilmente adivinhável E O Cristo, Já viste o Cristo? Não, o tempo está meio cinzento. De tarde, a neblina adensara-se, o tempo fechara completamente e o postal do Rio que lentamente se desenhava à minha frente adquiria tonalidades cinzentas, salpicadas pela Mata Atlântica, uma bruma obstinada mais translúcida, a espaços, como um véu a envolver o Cristo Redentor. Outras cores diferentes das que fui acalentando ao longo de décadas. O castanho do eencavalitado de casas morro acima. Nos três dias seguintes chuvas, a pergunta de sempre, e nos três dias seguintes a descoberta e a certeza que, mesmo com chuva, a cidade jamais sairá beliscada e adquire uma aura de mistério e serenidade. Da janela do quarto, o Calçadão e o mar revolto, o Tóni dos Cocos recebendo a sua carga diária bem cedinho pela manhã, os cariocas ainda assim usufruindo a cidade que é deles, uma peladinha de final de tarde, um jogging, uma água de coco debaixo do chapéu, outrora de sol, agora de chuva e o camelô que guardara sua mercadoria. Chuva, o meu Rio tinha agora chuva. Tornara-se mais nostálgico, enlaçado na melancolia dos trópicos, salpicado daquelas teimosas águas de Março que descolorindo a cor vibrante do meu postal imaginário, o preencheram melodiosamente com a voz de Elis avisando que estavam fechando o Verão.
terça-feira, 27 de março de 2007
Dia Mundial do Teatro
segunda-feira, 26 de março de 2007
O passaporte, depressa!
Já percebi
porque tanto gritam contra o Sócrates. Pelos vistos é demasiado brando. Venha a PIDE/DGS, a Guerra Colonial, os estropiados e torturados, venha a censura, a Mocidade Portuguesa, os pobrezinhos e as criadas, as conversas em família, reabilite-se o Tarrafal já, viva a António Maria Cardoso mais o forte de Peniche, ide buscar as fotografias de salazar, caetano e tomaz ao sotão, ressuscitem o cerejeira, levem o Botas para o Panteão com honras de estado. O vinho é quinduca e o fado é quinstrói. Uma carga policial fáxavor para os 41% de portugueses que elegeram o dinossauro como o melhor português. Vou ver se me recomponho, entretanto, ou se decido emigrar.
domingo, 25 de março de 2007
Triangulações
Enquanto os nossos audazes rapazes se esfalfavam em Alvalade na partida que opôs o mundo do futebol luso à Bélgica, surgia em rodapé no ecrã de televisão que Salazar poderia ser o melhor dos portugueses, posteriormente que quarta-feira a RTP iria dedicar a emissão aos cem anos de Lúcia, a pastora que presumivelmente terá avistado a mãe de Cristo, e que a mesma decorrerá de Fátima. Calculo que a Kátia Guerreiro estivesse a preparar um hino para a esperada vitória do ditador. Depois de Futebol e Fátima, Fado era o vértice em falta nesta curiosa triangulação.
sábado, 24 de março de 2007
A balzaquiana
Há coisas que uma mãe não deve dizer a uma filha.Atravessávamos a secção de roupa masculina, vindas da roupa de desporto. Vou atrás de ti disse a minha mãe Nunca sei para que lado é a saída. Entretanto, pôs-se-lhe ao caminho uma camisa laranja suave e disse O Hélder devia gostar desta camisa… Concordei, sim, era a cara dele. E depois a conversa retomou onde tinha parado antes da camisa, do zigzaguear entre os expositores de roupa estival e da curva para as escadas rolantes. Mas porque é que não compraste aquilo? inquiriu Porque ficava com a barriga à mostra respondi. Ressalve-se que a barriga à mostra se referia apenas a uma tarja da mesma proeminência abdominal. A minha mãe respondeu Ora essa, e qual era o problema? Esclareci Menina, já não tenho barriga para mostrar, resignada com a força da gravidade. A minha respeitosa progenitora atirou-me Olha lá, tu não andas sempre a ler literatura brasileira? O que é que diz o Vinicius de Moraes sobre as mulheres? A pergunta ficou suspensa. Lembrei-me que também o meu pai fazia referência a Vinicius quando se falava de barrigas femininas e que sempre foi apologista de que uma barriguinha dá um certo encanto às mulheres. De resto, o meu pai, homem de outras eras, sempre defendeu afincadamente a existência de curvas no corpo feminino. A minha mãe continuou Sim, o que é que ele dizia? E além disso as mulheres de 40 anos, as balzaquianas… BALZAQUIANAS? Sim, as mulheres de 40! esclareceu, isto para que não subsistisse a menor dúvida. Íamos a descer na escada rolante, amparei-me o melhor que pude no corrimão tão rolante quanto as escadas e ameacei-a que me precipitaria nas mesmas, caso continuasse a aplicar-me o epíteto, não por desrespeito ao Balzac, deus o tenha em descanso, mas porque, subitamente, olhei-me como nunca antes. Ainda hesitei em acusá-la a uma mulher que subia as escadas e quase se cruzava connosco, filha e mãe trocando palavras literatas entre Vinicius e Balzac.
A balzaquiana desceu as escadas com a sua mãe na sua nova condição. Ambas vieram para casa. A balzaquiana chegou a casa e fez queixas ao marido em frente à mãe A minha mãe hoje tratou-me mal… O marido quis saber da mãe Então hoje tratou mal a sua filha? A mãe da balzaquiana riu-se a perder, gargalhou e ripostou Coisas dela, só lhe chamei balzaquiana… A balzaquiana soltou um som, algures entre o gemido e a histeria Só?! A mãe da balzaquiana riu-se mais uma vez. O marido acrescentou Ah, isso são coisas que se chamem à sua filha?! A balzaquiana não viu, mas sabe que o marido terá dado uma piscadela de olho cúmplice à mãe da balzaquiana. A balzaquiana entregou-se à sua lamúria peganhenta. Saber-se para lá das quatro décadas era já de si um facto tortuoso com que lidava diariamente entre o espelho e as calças de ganga, o contorno dos olhos e as ancas. Assumir-se como balzaquiana um pesadelo. A balzaquiana reparte agora os seus dias esperando, rogando a deus, jah, alá e aos orixás que jamais a mãe lhe cite Vinicius de novo, senão correrá o risco de que ela lhe diga, quando, um dia, a balzaquiana estiver a perder-se por um desses cremes milagrosos contra as imperfeições irremediáveis que sim, que compre, Compra, compra, filha, mesmo não adiantando muito, é que Vinicius também dizia As muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Essa palavra margem
quem primeiro domesticou a palavra margem foi guimarães rosa. depois foi invadido por marés de margens...
depois pode-se apontar
margem de rio
margem da página
margem do momento [ou momento à margem]
margem-só
terceira margem [do rio, das pessoas, do amor]
poeta à margem
poesia das margens
margem de gente
à margem da vida
vidas sem margem
ficas sem margem
na margem da vida
margem de vinda
margem de ida
margens de chegada [com canoas, jangadas, embarcações]
margem adiada
margem odiada
margens dos cegos, dos gagos
a margem dos que estão
à margem dos que não estão
margem da liberdade [de pisar o chão]
à margem da verdade
margem da lágrima
minha margem
na margem
do meu poema.
[a terceira margem da pessoa – é o outro...?]
Ondjaki
No Dia Mundial da Poesia
terça-feira, 20 de março de 2007
domingo, 18 de março de 2007
Sweetest thing
Pedir desculpa, retratar-se ou reconhecer faltas e erros nem sempre se apresenta como a mais fácil das tarefas na vida a dois. Certo é que depende mais de factores de personalidade das partes envolvidas do que exteriores aos opositores beligerantes. A verbalização surge como uma tarefa hercúlea, não raras vezes inexequível e, na sua impossibilidade, mas adivinhando-se a acalmia da tempestade, o dia-a-dia começa então a colorir-se de gestos delico-doces, subitamente mais carinhosos, uma chamada inesperada, um sms igualmente surpreendente, um gesto ressuscitado na rotina dos dias pálidos. Assim se irá caminhando até que a voracidade do tempo degluta os episódios inconsequentes da partilha do quotidiano. A dois, é sabido, vigoram as regras desses dois, e nas regras desses dois a panóplia da dinâmica dual aumenta significativamente. Há, portanto, os mais intempestivos e coléricos, entre os quais desgraçadamente me incluo e que com duas ou três palavras, mais do que estas, confesso, arrumam os infortúnios e as mágoas. Existe, porém, uma categoria mais sofisticada de manipuladores natos, sedutores irredutíveis de inominável sensualidade sub-reptícia, aos quais dificilmente se resiste. Pode ser aquele ar de quem acabou de sair do banho, perfumado e barbeado, o outro de quem carrega a rotina aos ombros ou um infortúnio temporário, mesmo sem banho nem barba feita. A verdade é que esta raça estuporada possui insondáveis e misteriosos poderes.
Paul Hewson, de sua graça, Bono Vox no mundo do showbiz e da música, pertencerá sem qualquer dúvida a esta estirpe. Conta-se que se terá esquecido do aniversário de Ali Hewson, sua mulher, enquanto gravava The Joshua Tree. Os fãs certamente perdoar-lhe-iam o esquecimento perante a intensidade e excelência do álbum, mas na vida a dois nem tudo é assim fácil e as mulheres, sabe-se, são capazes de chorar semanas a fio perante a falta sem perdão, martirizando-se e martirizando o infractor, infligindo-lhe penas recheadas e cobertas de malvadezas várias. Desconheço o que terá feito Ali Hewson no momento. Sabe-se o que Bono fez: compôs-lhe uma música e dedicou-lha. Mulher alguma resistiria a tal talento. Ain´t that the sweetest thing?
Paul Hewson, de sua graça, Bono Vox no mundo do showbiz e da música, pertencerá sem qualquer dúvida a esta estirpe. Conta-se que se terá esquecido do aniversário de Ali Hewson, sua mulher, enquanto gravava The Joshua Tree. Os fãs certamente perdoar-lhe-iam o esquecimento perante a intensidade e excelência do álbum, mas na vida a dois nem tudo é assim fácil e as mulheres, sabe-se, são capazes de chorar semanas a fio perante a falta sem perdão, martirizando-se e martirizando o infractor, infligindo-lhe penas recheadas e cobertas de malvadezas várias. Desconheço o que terá feito Ali Hewson no momento. Sabe-se o que Bono fez: compôs-lhe uma música e dedicou-lha. Mulher alguma resistiria a tal talento. Ain´t that the sweetest thing?
sábado, 17 de março de 2007
quinta-feira, 15 de março de 2007
quarta-feira, 14 de março de 2007
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